Mãos sujas de sangue

Mãos sujas de sangue

Estado da Arte

28 Outubro 2016 | 00h46

por Eduardo Wolf

Na quarta-feira (27 de outubro), durante debate promovido pelos deputados da Assembleia Legislativa do Paraná sobre as invasões das escolas estatais realizadas por grupos de estudantes, uma jovem de 16 anos deu um depoimento que, segundo a imprensa, “viralizou”, “emocionou”, “encarou” os políticos e “consolidou o discurso das ocupações”. “Ocupação” é o termo com o qual a imprensa, quase unanimemente, faz referência às invasões das escolas, o que caracterizaria antes um trabalho de press release para grupos de esquerda do que qualquer outra coisa, mas sigamos. A jovem discursou sobre cidadania, consciência política, participação; citou o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e atacou a PEC 241 (que estabelece teto para os gastos públicos); se emocionou, teve a atenção repreendida e, depois, obteve consagração online.

Manifestação no Rio de Janeiro poucos dias após o assassinato de Santiago Andrade por dois black blocs. Vítima do Estado? (Foto: Acervo Estadão)

Manifestação no Rio de Janeiro poucos dias após o assassinato de Santiago Andrade por dois black blocs. Vítima do Estado?
(Foto: Acervo Estadão)

Seria possível dizer em poucas linhas que tudo o que a estudante Ana Ribeiro disse estava errado, com exceção de seu nome próprio e das desculpas que se viu compelida a pedir. Seria possível analisar aqui de maneira muito precisa o modo como sua fala sobre “o inciso VI do artigo 16 da lei 8.069” é prova de que não sabe do que está falando, pois alardeia entusiasmo pela participação “na vida política, na forma da lei” – que é o que diz o texto do ECA – ao mesmo tempo em que não respeita a exigência da própria lei – não há nada que Ana Ribeiro faça invadindo escolas que se dê, sob interpretação alguma, “na forma da lei”. Seria possível apontar com singela e cristalina objetividade a repetição atoleimada, mas não por isso menos convicta e empertigada, dos slogans do petismo e de suas franjas desimportantes e birrentas, segundo os quais a PEC 241 é “uma afronta à Constituição”, quando pode ser tudo, menos isso. Seria possível até mesmo desenhar para a jovem Ana Ribeiro de 16 anos que os alardeados temores de congelamento de despesas com educação e saúde são fantasmas animados pelo fanatismo doutrinário que ela diz recusar.

Melhor: poderíamos perguntar onde estavam esses estudantes mobilizados e conscientes quando o governo petista cortou 10,5 bilhões de reais do orçamento naquele longínquo ano de…2015. Onde estavam? Ao que parece, o estudantado aguerrido do povo brasileiro apenas despertou de seu sono dogmático em 2016, quando o atual governo aprovou mais de 1 bilhão de reais para bancar o Fies e o Enem.

Perdoe o leitor essa apófase, mas que o não dito fique bem dito, e vejamos agora o dito para que não nos escape. Afinal, do tanto que discursou a jovem estudante que parece ter comovido as redações de inúmeros jornais e a militância de internet, é uma outra frase sua que, de fato, não devemos deixar passar despercebida.

Falando sobre o assassinato do jovem Lucas Eduardo Mota, também de 16 anos, ocorrido na última segunda-feira (24), a jovem Ana Ribeiro disse que os deputados “representam o estado, e a mão de vocês está suja com o sangue do Lucas”. O assassinato de Lucas  a facadas por outro colega de invasão na escola Estadual Santa Felicidade, em Curitiba, envolve, pelo que se sabe até agora, um caso de uso de drogas sintéticas que descambou em morte trágica. De que forma, pergunto, por que razão deveríamos supor que a morte deste jovem em uma escola estatal invadida por estudantes, tornada “território livre” da justiça e da polícia pelo passe de mágica de envolver uma militância de esquerda estridente, seria culpa dos deputados ou, como disse a jovem ao dar suas explicações, da sociedade?

É claro que, sob forma alguma podemos vincular essa morte a supostas “culpas coletivas” da sociedade. Não resta dúvida de que não há razão alguma para imputarmos essa morte à sociedade ou aos deputados da Assembleia Legislativa do Paraná. Se omissão estatal e governamental houver, será a de ter permitido a farra das invasões. Mesmo assim, essa fala de Ana é a mais importante e mais preciosa declaração que poderíamos ter ouvido de alguma liderança das invasões. É essa fala que explicita, com a força lírica de um verso potente e sintético, que os estudantes invasores são, em verdade, tudo aquilo que Ana disse que não são: doutrinados, desinformados e pautados por interesses partidários. É essa fala que expõe, em uma contradição performativa exemplar, a falsidade de tudo aquilo que Ana reivindicava para si e para seus colegas de invasão, e que foi elogiado pela imprensa (e em parte alguma de forma mais patética do que na Forbes): “voz crítica”, “defesa da educação”, “despertar da cidadania”.

A verdadeira importância do discurso dessa jovem – sem dúvida inteligente; ao que parece, muito sincera; só podemos desejar genuína e sinceramente que desenvolva todo seu imenso potencial intelectual e profissional – reside em outro lugar. Essa importância, ela está na revelação que nos fez da penetração, da aceitação e da trivialização do discurso falsificador e radicalizado da esquerda na formação mais elementar de nossos jovens em idade escolar. Uma falsificação que vemos corroborada frequentemente pela imprensa, nacional e internacional, em nome de simpatias ideológicas inadmissíveis, pois atentam contra fatos e glamorizam a violência política. Uma radicalização que vemos refinada com ares de rara impostura no circuito acadêmico-intelectual, que abriu mão de sua tarefa examinadora e crítica para servir a uma ideologia. Um discurso e uma prática que, lamentavelmente, não podemos chamar de novidades.

Quando Santiago Andrade, cinegrafista da Band, foi morto por dois jovens black blocs em fevereiro de 2014 no Rio de Janeiro, o MPL (Movimento Passe Livre) e outros grupos esquerdistas cariocas realizaram um novo ato logo a seguir (no dia 13). Em um caso exemplarmente triste e revoltante da banalização desse discurso, um jovem militante esquerdista, cercado por bandeiras vermelhas pretensamente revolucionárias e de slogan engajados ostentava um cartaz onde se lia: “Santiago, mais uma vítima do Estado”. Falso. Santiago não foi vítima do Estado. Tampouco o jovem Lucas Eduardo Mota foi uma “vítima do Estado”. E no dia em que passarmos, cada um de nós, a rejeitar com mais vigor e convicção essas falsidades radicais, essas mentiras ideológicas e partidárias reproduzidas por jornalistas empolgados com sua militância e por acadêmicos que antes deformam do que formam, a jovem Ana – que eu tenho certeza é capaz de enxergar isso – não repetirá uma enormidade dessas como se fosse o mais trivial dos consensos humanos, e sua luta por melhor educação, que eu tenho certeza de que é sincera, só terá a ganhar.

Aí, sim, nem as mãos, nem as mentes desses jovens estarão sujas com as tintas ideológicas de gente que transforma assassinato em “narrativa” política.