Luiz Felipe d’Avila: “O populismo que prevaleceu nos anos petistas foi um desastre para as instituições democráticas”

Luiz Felipe d’Avila: “O populismo que prevaleceu nos anos petistas foi um desastre para as instituições democráticas”

Estado da Arte

06 Outubro 2016 | 09h00

O cientista político Luiz Felipe D’Ávila vem desenvolvendo há anos um trabalho de capacitação e formação de lideranças políticas em seu Centro de Lideranças Públicas (CLP). Confrontado com o resultado das eleições municipais deste domingo (03/10), que reconduziu perto de metade dos prefeitos ao cargo, ele não se espanta: “Os prefeitos que resolveram os problemas prementes da cidade e tiveram 70% ou mais de aprovação entre ótimo, bom e regular do eleitor, foram reeleitos”. Mas o quadro não é simples. Entre o esfacelamento do grande partido de massas à esquerda que foi o PT e o surgimento de novas lideranças que despontem com as virtudes de estadistas, o país precisa se refazer dos estragos do populismo e qualificar suas lideranças. O Estado da Arte conversou com D’Ávila sobre esses e outros temas.

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O cientista político Luiz Felipe D’Ávila. (Foto: CLP)

O PT perdeu mais de 60% dos votos para prefeitos nesta eleição. É possível, para um partido enfrentando uma crise dessa dimensão, recuperar-se?

É possível, mas exigirá coragem para rever crenças,valores e atitudes e abandonar o discurso de vítima da mídia golpista, da elite e de políticos traidores. Enquanto culpamos os outros por nossos infortúnios, não existe maturidade e clima para fazer a revisão de crença e de atitudes que prejudicaram enormemente o PT.


Após quase quatro anos de oscilantes mas expressivas mobilizações de rua (2013 – 2016), a expectativa para as primeiras eleições pós-impeachment era de renovação. Os resultados da eleição, no entanto, indicam a reeleição de perto de 50% dos prefeitos. A expectativa de renovação era ilusória ou não havia alternativas políticas atraentes para os eleitores?
A eleição de prefeitos é, acima de tudo, um voto de aprovação ou desaprovação de uma gestão municipal. Os prefeitos que resolveram os problemas prementes da cidade e tiveram 70% ou mais de aprovação entre ótimo, bom e regular do eleitor, foram reeleitos. O prefeito tem que resolver os problemas do cidadão, não importa o partido ou se é um político moço ou velho.

O PSDB foi o partido que mais cresceu nestas eleições. Mas qual PSDB, exatamente? Qual é a identidade política desse partido que sai vitorioso das urnas?
A vitória das eleições não pode ser debitada necessariamente a legenda, mas as propostas defendidas pelos candidatos. O PT foi massacrado nas urnas porque além dos escândalos da Lava Jato e do desemprego, os seus candidatos tiveram de defender o partido, a Dilma e o Lula ao invés de apresentar propostas para resolver os problemas da cidade. Ao nacionalizar a eleição municipal, perderam o elo com o eleitor.

Dados e fatos ajudam a moldar boas políticas públicas; ideologias e partidarismo levam a leituras erradas de diagnóstico e a políticas populistas.

As eleições de 2016 foram marcadas por casos preocupantes de extrema violência, com direito ao assassinato de candidatos (como em Goiás) e a locais de votação incendiados pelo crime organizado (Maranhão). O que isso nos revela sobre o amadurecimento das instituições políticas brasileiras?
A violência pode ter motivos políticos, mas os assassinatos são casos de polícia. O problema no Brasil é que a segurança pública é um dos maiores problemas nacionais.O número de mortes por 100 mil habitantes no Brasil é equivalente à de países em guerra. A ONU considera o número de assassinatos no Brasil “uma epidemia”nacional.

Muito se falou sobre desde o domingo das eleições (03 de outubro) acerca dos altos índices de abstenção e votos nulos e brancos. Na sua avaliação, esses índices são significativos? O que eles revelam sobre a atual conjuntura política?
Nas democracias avançadas, onde o voto é facultativo, o índice de eleitores que votam é baixo. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 48% dos eleitores votaram para presidente da República; para o Congresso, a média é de 35%. Como no Brasil o voto é obrigatório, o número de abstenção, nulos e brancos são dos eleitores que não se interessam ou repudiam o jogo políticos. São aqueles que não votariam se o voto fosse facultativo.

À frente do Centro de Lideranças Públicas, você trabalha com a capacitação de quadros políticos de inúmeras prefeituras e governos estaduais de todos os partidos para que tenham melhor desempenho em suas gestões. Qual é o maior gargalo de qualificação que a gestão pública brasileira enfrenta?
Um dos grandes prazeres de trabalhar no CLP é constatar que há muita gente boa na política. Governantes que promovem mudanças transformadoras e servidores públicos competentes e dedicados que fazem a diferença na gestão pública. Para melhorar a gestão pública, temos de formar bons servidores e oferecer cursos preparatórios para que estejam preparados para resolver problemas reais. Para isso, precisam estar capacitados para analisar dados e fatos, ao invés de interpretar os problemas do ponto de vista ideológico e partidário. Dados e fatos ajudam a moldar boas políticas públicas; ideologias e partidarismo levam a leituras erradas de diagnóstico e a políticas populistas.

Em 2013, você lançou o livro Caráter e liderança: Nove estadistas que construíram a democracia brasileira (Editora Mameluco), em que mostra as diferenças entre aqueles que simplesmente exercem o mando na política e aqueles que realmente contribuem para o aperfeiçoamento das instituições. Há alguém na nova configuração política do país que tenha esse perfil?
O populismo que prevaleceu nos anos petistas foi um desastre para as instituições democráticas. Aumentou o personalismo político, a demagogia e o partidarismo que politizaram o Estado, as agências reguladoras e as empresas estatais. A consequência desse enfraquecimento das instituições está devidamente registrada na corrupção da Lava Jato, na maior depressão econômica da história do país e em 12 milhões de desempregados. Vamos precisar de grandes estadistas para tirar o Brasil do buraco. O risco que corremos é que se não tivermos coragem para aprovar as reformas necessárias da previdência, do teto do gasto público e trabalhista, o Brasil pode ter um novo surto de populistas disputando as eleições presidenciais em 2018.