Jornada nas Estrelas na América Latina do século XIX

Jornada nas Estrelas na América Latina do século XIX

Por que um autor descreve uma rivalidade, entendendo os golpes que vêm de cada lado, entendendo ações e reações, e de repente toma partitdo?

Estado da Arte

28 Agosto 2017 | 10h05

Por Pedro Sette-Câmara

A denúncia das polarizações já corre o risco de tornar-se tão batida quanto as próprias polarizações, mas é possível que esse cansaço venha de acreditarmos que os denunciadores são partes da disputa, que apenas disfarçam seu interesse. Essa crença, por sua vez, tem a ver com a nossa proximidade dessas disputas, quando não com nosso próprio interesse (às vezes disfarçado) nelas.

Penso numa grande solução artística já encontrada para a questão: a ficção científica. Melhor dizendo, lembro inevitavelmente dos episódios de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração e de Deep Space Nine que tanto vi na adolescência. O elenco fixo é a tripulação – da Enterprise, da estação DS9 –, e a cada episódio ela é enredada à sua revelia em algum conflito. O espectador então era informado dos pontos de vista dos rivais, e levado a perceber a perversa simbiose entre eles. Em outras séries americanas, como as de tribunal, o espectador já sabia que um prestigioso advogado faria um belo discurso e resolveria a disputa em prol de um dos lados. Em Jornada nas Estrelas, a solução era quase sempre prática, cumprindo apenas a função dramática de fazer o episódio acabar, deixando o problema no ar. E o espectador, indisposto a ouvir com atenção seu vizinho ou seu adversário ideológico, apreciava as nuances e miudezas das disputas entre duas espécies alienígenas ficcionais.

Foi apenas quando pensei em escrever um pequeno resumo de minha pesquisa de doutorado que me lembrei da relevância de Jornada nas Estrelas para aquilo que estudo.

Pela distância no tempo, e pelo desconhecimento que o público brasileiro tem de pelo menos metade do objeto da pesquisa, a minha posição é um pouco a da tripulação da Enterprise, incluindo a parte em que me esforço para não presumir minha superioridade e emitir julgamentos a torto e a direito. O que me cabe, enfim, é mais tentar formular um problema, e certamente não me deixar contagiar por um dos lados da disputa. Não é tanto uma questão de neutralidade quanto de humildade.

Pois bem. Por sugestão do meu orientador, estou fazendo uma comparação entre duas obras que estão associadas à fundação da literatura nacional em dois países: o Brasil e a Argentina.

O caso da Argentina vem primeiro. A disputa em questão é Domingo Faustino Sarmiento x Juan Manuel Rosas. Spoiler alert: simbolicamente, Sarmiento venceu. Mas, como eu já disse, não cabe a mim arbitrar nada.

Sarmiento foi político, militar, e escritor. Seu Facundo: Civilização ou Barbárie, escrito em 1847, é um dos textos fundadores da literatura argentina – é essa a opinião de pessoas como Borges e Ricardo Piglia. O objetivo da obra, escrita na forma de artigos publicados no Chile, é desferir um golpe retórico no general Rosas, o presidente ditador da Argentina à época.

Sarmiento não chegou a fingir que a obra não era dirigida a Rosas, mas o método escolhido foi a escrita da biografia de Facundo Quiroga, caudilho dos pampas cuja truculência é nada menos do que assustadora. Para Sarmiento, Rosas seria a fria sistematização da violência espontânea e irracional de Facundo.

Mas… espontânea?

Talvez num nível pessoal. Porém, o próprio Sarmiento faz questão de explicar que a “barbárie” de seu subtítulo não surge gratuitamente. Ao contrapor as províncias argentinas à capital Buenos Aires, Sarmiento explica que esta nega a civilização àquelas, que então respondem… E daí por diante.

Ao escrever assim, Sarmiento demonstra ser um observador agudo da violência. Percebe que ela faz parte de um ciclo de reciprocidades no qual não há inocentes.

No entanto, a narração das atrocidades de Facundo, com vistas a atacar Rosas, faz com que ele passe de espectador a ator político – tanto que sua carreira de escritor encerrou-se quando ele assumiu a presidência da Argentina.

De um ponto de vista literário, porém, permanece a contradição: se a violência é recíproca, se a barbárie existe porque a civilização nega a si mesma para as províncias, por que enfatizar apenas as atrocidades de Facundo?

(É como se a tripulação da Enterprise decidisse interferir diretamente nos conflitos nos quais tem ordens para não interferir.)

Talvez não por acaso – não ser por acaso é que é uma daquelas intuições que valem um doutorado – encontramos exatamente a mesma contradição num livro que ocupa, na literatura brasileira, uma posição semelhante à do Facundo de Sarmiento: trata-se de O Guarani, de José de Alencar.

A trama principal de O Guarani é simples: Dom Diogo, filho de Dom Antônio de Mariz, fidalgo português radicado na Serra dos Órgãos, mata acidentalmente uma índia aimoré, desencadeando a vingança de sua tribo. Dom Antônio entende que a vingança virá. Entende que deve mandar o filho para longe, embora nem cogite tentar oferecer alguma reparação. Nesse momento da trama, a reciprocidade violenta dos aimorés é entendida como esperada, compreensível. Todavia, à medida que os aimorés se aproximam, passam a ser descritos como monstros interessados em arrasar tudo – como se fossem um exército de Facundos, digamos.

Outra vez: por que a percepção aguda da reciprocidade violenta convive com a acusação de um dos lados?

Em outros termos: por que um autor descreve uma rivalidade, entendendo os golpes que vêm de cada lado, entendendo ações e reações, e de repente toma partitdo? Por que a consciência da reciprocidade não faz com que ele ao menos modere sua posição?

Não podemos dizer que o motivo é apenas dramático ou político. Um episódio de Jornada nas Estrelas não assume o ponto de vista de uma das partes do conflito. A apresentação da reciprocidade é parte do drama, e deixar o espectador com o gosto do insolúvel é parte do efeito desejado.

Por ora, só resta mesmo chamar a atenção para o óbvio: como parece mais fácil observar essas contradições em povos alienígenas fictícios, ou na obra de escritores mortos há mais de cem anos!

 

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ