Henry Molaison, o homem que inventou a memória

Henry Molaison, o homem que inventou a memória

A história de Molaison é cheia de lances impressionantes que continuamente empurraram pesquisadores para novas fronteiras do conhecimento sobre a mente.

Estado da Arte

15 Março 2018 | 18h00

por Daniel Lopes

Memória e memórias

Não existe indivíduo mais importante para o progresso do estudo da memória do que Henry Gustave Molaison, um americano epiléptico de Connecticut conhecido desde 1953 (aos 27 anos) até sua morte em 2008 em textos das ciências do cérebro em todo o mundo simplesmente como H.M. 1953 foi o ano em que Molaison foi salvo da epilepsia mais violenta por uma psicocirurgia feita pelo médico genial William Scoville no Hartfort Hospital de Connecticut. Colateralmente, Henry acabaria abrindo para o mundo o universo cheio de sutilezas que é o sistema de memória abrigado no cérebro humano.

Pegue qualquer livro pré-2008 de neurociência ou psicologia, e são enormes as chances de você topar em alguma página com a história de Henry Molaison, possivelmente acompanhada de adjetivos como “incrível” e “fascinante”. A vida pós-cirurgia de Henry mostraria que a memória não é um processo único; ou que, nas palavras de Suzanne Corkin (1937-2016), biógrafa e neurocientista que trabalhou com o paciente, “nosso cérebro é como um hotel com diferentes tipos de hóspedes – lar para diferentes tipos de memória, cada uma ocupando seu próprio conjunto de quartos”.

O livro de Corkin, Presente permanente, publicado em 2013 nos Estados Unidos e traduzido agora no Brasil pela Record com revisão técnica de Suzana Herculano-Houzel, mistura a história de vida de Henry Molaison com a história do desenvolvimento da ciência da memória. Como resultado, ao atravessar as quase quatrocentas páginas de texto, o leitor sai educado sobre um fascinante tópico científico e cativado pelo aspecto mais humano da questão.

Henry sofria ataques epilépticos desde os 10 anos de idade. Primeiro, eles eram do tipo “petit mal”, apagões que duram algumas dezenas de segundos, durante os quais a pessoa fica estática e perde qualquer contato com o mundo em volta. Mas quando Henry chegou aos 15 anos, os ataques ficaram cada vez mais violentos, com enrijecimento dos membros seguido de convulsões. Aos 27 anos, a vida se tornara um inferno. Nenhum dos tratamentos disponíveis à época serviam mais para amenizar o quadro. Foi quando Henry acabou como paciente do doutor Scoville, que – com base em estudos e técnicas que se acumulavam desde os anos 20, e aproveitando a voga da psicocirurgia – propôs uma operação experimental: a extração, em cada lado do cérebro, da metade anterior do hipocampo e parte do córtex circundante, além de mais da metade da amígdala. Acreditava-se que, sem essas regiões, de papel central em ataques epilépticos, as crises do paciente se reduziriam consideravelmente. De fato, foi o que aconteceu.

Mas algo mais aconteceu: após a cirurgia, Henry não conseguia mais formar novas memórias. Por exemplo: todas as vezes que médicos e enfermeiras entravam em seu quarto no hospital, tinham que se apresentar novamente, porque Henry já havia esquecido seus nomes e rostos desde a última vez que os vira – no dia anterior ou até no mesmo dia!

Molaison antes da cirurgia.

Isso aconteceu porque, como viria a ficar claro, o hipocampo é uma estrutura fundamental para a consolidação de novas informações. Quando os dados do mundo entram em nosso cérebro, vindo dos sentidos, alguns deles acabarão armazenados, como memória de longo prazo, nas regiões corticais, mas antes disso eles precisam ir para o hipocampo e voltar para o córtex. Sem o trabalho do hipocampo, você ainda poderá recuperar memórias dos tempos em que ainda tinha um hipocampo funcional, mas não conseguirá criar novas memórias.

A compreensão desse processo foi um dos presentes involuntários de Henry Molaison para a ciência, dentre tantos outros. Desde a sua cirurgia em 1953 e o impacto imediato que seus problemas de memória tiveram na equipe médica, mais de uma centena de cientistas examinaria Henry, para levantar e testar hipóteses relacionadas ao funcionamento da memória humana e temas correlatos, como as relações entre memória e emoção. A partir de seus 27 anos, a história de Henry, um sujeito sempre fácil de lidar e educado, é cheia de lances impressionantes que continuamente empurraram pesquisadores para novas fronteiras do conhecimento sobre a mente.

Antes de mais nada, confirmou-se a hipótese de que memórias de curto e longo prazo são tipos distintos de processamento cognitivo e, logo, provêm de bases biológicas diferentes. De fato, a memória de curto prazo de Henry (informações que mantemos na mente por alguns segundos, enquanto executamos alguma tarefa) ficou preservada, enquanto a memória de longo prazo (ou seja, a capacidade de transformar aquela memória de momento em uma memória permanente) se perdeu. Ele conseguia se lembrar de muita coisa de antes do ano da cirurgia – experiências na escola, em casa, nas férias –, mas não guardava o que acontecia após esta data.

Mas esperem só. A memória fica mais intrincada do que isso. Não foi todo tipo de memória de longo prazo que Henry perdeu. Apenas a memória declarativa (ou explícita), que precisa de processamento consciente. Sua memória não declarativa (implícita, inconsciente) não foi prejudicada. Este último tipo de memória de longo prazo depende do funcionamento de regiões como os núcleos da base e o cerebelo – que não foram afetadas na psicocirurgia de Henry.

O caso de Henry também mostrou o fracionamento dos passos da memória. Para que possamos dizer que temos algo consolidado na mente, precisamos ter intactos os processos de codificação, armazenamento e recuperação. Inúmeros testes cognitivos realizados com Henry mostraram que ele codificava informações normalmente, mas não as armazenava, e por conseguinte não as recuperava.

Existe no livro de Suzanne Corkin um relato delicioso, que ilustra perfeitamente o estado dos diversos tipos de memória no cérebro de Henry. Certa vez, nos anos 1980, antes de pegar Henry para levá-lo para o centro de pesquisas no MIT onde Corkin acompanhava seu progresso, um assistente da faculdade passou em um McDonald’s para almoçar e voltou para o carro com um copo de café. Quando Henry entrou no carro e, durante o trajeto, olhou pela primeira vez para o copo, ele disse “Ei, eu conheci um cara chamado John McDonald quando era menino!”, e começou a contar histórias suas com o garoto. Em seguida, ele virou o rosto para ver a paisagem ao lado da estrada. Pouco tempo depois, bateu a vista no copo mais uma vez e exclamou “Ei, eu conheci um cara chamado John McDonald quando era menino!”, passando a contar as mesmas histórias. A cena ainda se repetiu de novo e de novo, até que o motorista finalmente escondeu o copo do McDonald’s. Henry lembrava de um fato longínquo, solidificado em seu córtex bem antes da cirurgia de 1953, mas não conseguia formar a nova memória de que acabara de contar uma história para o motorista!

Mente e cérebro

Ainda nos anos 80, Henry Molaison confirmou outra teoria: a do psicólogo cognitivo George Mandler, que dizia que a memória de reconhecimento se dividia em dois processos distintos (familiaridade e recordação), baseados em áreas distintas do cérebro. Familiaridade é quando você vê alguém na rua ou numa festa e tem a sensação de já tê-lo visto antes, mas não lembra a circunstância. Se você lembra a circunstância, você está recordando. Pois bem. A capacidade de recordação havia sido destruída em Henry – porque o hipocampo é necessário para o processo, e o hipocampo de Henry fora removido –, mas não sua capacidade de reconhecimento via familiaridade, como ficou claro após vários testes. Henry ajudou a desvendar que este último subtipo de memória depende do funcionamento de uma região vizinha ao hipocampo, o córtex perirrinal, parte que fora poupada na cirurgia de 1953. Daí, relata Suzanne Corkin, “o sentido de familiaridade que permeava o mundo de Henry” e o ajudava a “lidar com sua amnésia incapacitante ao enraizá-lo e dar a ele o sentimento de que estava em família no Bickford e no MIT”.

Outra colaboração de Henry para a ciência da mente foi auxiliar a entender a complexidade das separações e interconexões entre memória e emoção. O próprio Henry tinha pouquíssimos momentos de raiva. Como escreve Suzanne Corkin,

quando consideramos o quanto da ansiedade e da dor da vida diária surge de cuidar das nossas memórias de longo prazo e de preocuparmo-nos em planejar o futuro, podemos apreciar porque Henry viveu a maior parte de sua vida com relativamente pouco estresse.

Quando sua mãe foi hospitalizada para fazer uma cirurgia, em pouco tempo ele esqueceu a informação em si, devido à ausência do hipocampo, mas ainda assim permaneceu vários dias com uma sensação vaga de ansiedade. Essa sensação se impunha vinda de áreas do sistema límbico, estruturas evolutivamente mais primitivas do cérebro, que não foram prejudicadas pela cirurgia de 1953, e onde a informação sobre a mãe chegara em algum momento, evidentemente causando efeitos.

Suzanne Corkin e outros cientistas no entorno de Henry só começaram a testar e estudar mais profundamente sua estrutura emocional nos anos 1980. Corkin lembra que

não havíamos feito essa avaliação antes porque, nos anos 1960 e 1970, muitos neurocientistas, inclusive membros do meu laboratório, evitavam tópicos que pertencessem ao reino da psicologia clínica e da psiquiatria.

É interessante observar que esse passo da equipe de Corkin finalmente ocorreu quando o ambiente científico, nos Estados Unidos e no ocidente como um todo, via cada vez mais como fútil a tentativa de separar totalmente as ciências do cérebro e as da mente umas das outras. A própria separação entre mente e cérebro, se for além de algum nível necessário para o didatismo, pode se tornar mera ideologia e prejudicar a compreensão de questões urgentes como os transtornos mentais.

Como outra notável neurocientista, Nancy Andreasen (1938- ), escreveu no início deste século, a propósito da rixa entre alguns profissionais da psiquiatria e da psicologia,

pelo fato de reverenciarmos tanto a mente, temos a impressão de que suas doenças devem ser tratadas com técnicas ‘profundas’, tais como psicoterapia, que trabalham diretamente com a mente e suas funções, tais como sentimentos e memórias.

Porém, “drogas afetam a mente, e psicoterapia afeta o cérebro”. Quando técnicas psicológicas são efetivas, é porque

levam a mudanças no ‘cérebro plástico’, que aprende novas formas de resposta e de se adaptar que são traduzidas em mudanças na maneira como a pessoa sente, pensa e se comporta. A psicoterapia, às vezes relegada como ‘apenas conversa’, é, de seu jeito próprio, tão ‘biológica’ quanto o uso de drogas (Brave new brain, Oxford University Press, 2001).

Andreasen não está dizendo que intervenções psicológicas podem fazer tudo que uma medicação psiquiátrica faz. Mas medicações também não fazem o que uma terapia eletroconvulsiva faz. E uma terapia eletroconvulsiva não faz o mesmo que uma psicoterapia. O que a cientista aponta é a incorreção e ociosidade da separação rígida entre ciências que, todas, têm efeito na mente/cérebro.

Se essas ciências estão mais integradas hoje do que em qualquer momento do século passado; se indivíduos podem se beneficiar de abordagens conjuntas com foco em sua saúde mental, é em grande parte graças a Henry Molaison. Não é por outro motivo que ele estará para sempre tanto em nossos livros de psicologia, quanto nos de psiquiatria, neurobiologia e mesmo filosofia da mente – é possível ter identidade sem ter memória? Aquele cordato cidadão de Connecticut provaria para o mundo que tudo o que temos de mais precioso, todas as características que nos distinguem dos demais seres vivos, está fragilmente contido, aqui e agora, nas dimensões do nosso crânio, ao mesmo tempo em que pode maravilhosamente se expandir no tempo desde nossas primeiras lembranças até o futuro que conseguimos planejar ou imaginar.

Daniel Lopes é formado em psicologia pela UESPI e editor da Revista Amálgama.