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Hans Ulrich Gumbrecht: “Todo o passado de que conseguimos lembrar está presente quase que de maneira física em nosso presente”
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Estado da Arte

04 Outubro 2016 | 16h36

Um filosofia da presença

por Cláudio Ribeiro*

Hans Ulrich Gumbrecht, professor e pesquisador Stanford Universty, esteve no Brasil em setembro participando do XV Encontro da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), onde ministrou o curso “A Estética: História, Função e Futuro”. Alemão radicado nos EUA desde os anos 1980, Gumbrecht é um dos intelectuais contemporâneos mais importantes, transitando entre várias áreas das humanidades: história, estudos literários, filosofia, filologia, estética.

Influenciado pela obra de autores como Martin Heidegger, Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, Gumbrecht tem desenvolvido investigações sobre a experiência estética que se concentram no que ele denomina “materialidade comunicativa”. Isto pode ser definido como aquilo que, na experiência da leitura de um texto (principalmente o texto literário), está para além da interpretação, ou da “produção de sentido”.

gumbrecht

O téorico Hans Ulrich Gumbrecht: “Não consigo existir sem assistir a pelo menos um evento esportivo por semana”. (Foto: divulgação)

Quando lemos um romance policial e conseguimos sentir a mesma aflição que a personagem que está sendo perseguida sente, ou quando ouvimos uma canção interpretada por Billie Holiday ou Elis Regina, e sentimos com mais intensidade o drama da letra, por conta do ritmo, dos tons, da cadência da voz, estamos nos relacionando com “camadas substanciais”, sendo afetados pela concretude dessas obras. Estamos, em suma, produzindo presença, no sentido ontológico do termo, como concebeu Heidegger. O termo presença vem sendo utilizado por Gumbrecht para denominar o “não-hermenêutico”, aquilo que não está no campo da interpretação e do sentido. A mesma experiência de “produção de presença” pode ser obtida na contemplação de uma pintura e de uma fotografia antiga, ou na observação de uma dança, como o tango, ou ainda no lance de um futebolista. Poderíamos dizer que o que Gumbrecht tem procurado, talvez, é delinear uma “filosofia da presença”, encontrar o seu locus. Em sua passagem pelo Brasil, Gumbrecht falou disso e de muito mais ao Estado da Arte.

Que impacto o diálogo e a convivência com intelectuais brasileiros ligados ao campo dos estudos literários, como Luiz Costa Lima e João Cezar de Castro Rocha, tem produzido em suas obras?

Depois dos Estados Unidos, onde vivo e trabalho há 27 anos, o Brasil e a Alemanha foram os dois mais importantes contextos para meu trabalho — desde que fui professor visitante pela primeira vez aqui em 1977 (!), ainda no tempo da ditadura militar. De fato, não há um único projeto importante (para mim) em meu pensamento que eu não tenha experimentado e desenvolvido com alunos e colegas brasileiros, muitas vezes em seu estado mais inicial.

É possível afirmar que um torcedor do Clube de Regatas do Flamengo, que nunca tenha ouvido falar em “materialidade comunicativa”, mas que tenha ido ao menos uma vez assistir a um clássico contra o Fluminense, no estádio do Maracanã, sabe tão bem o que quer dizer “produção de presença” quanto um intelectual que tenha lido todas as obras de Hans Ulrich Gumbrecht?

Esse fã normalmente não teria termos acadêmicos para descrever por que ele sente tanta atração pela atmosfera do estádio a ponto de comprar ingressos tão caros. Porém, ele sabe, de um jeito diferente, que o “clima” (“Stimmung”) de um estádio cheio é existencialmente importante para ele. Isso não é diferente em nada de pessoas que vão a concertos de música clássica. Elas gostam do que ouvem — e ser capaz de explicar por que gostam não melhora e experiência, nem a torna mais intensa.

Em sua obra Produção de Presença: o que o Sentido não Consegue Transmitir (Editora Contraponto), você afirma que a experiência estética nos confrontará sempre com a tensão entre presença e sentido. Os efeitos dessa tensão, ou oscilação, contudo, são efêmeros. A experiência estética teria assim um “caráter epifânico”, e, enquanto epifania, “sempre indica a emergência de uma substância surgida do nada”. Segundo sua concepção, há nisso um elemento de violência.  Há aqui certa proximidade com a tese de René Girard sobre a catarse que vem à tona com a morte do bode expiatório, cujas sucessivas repetições rituais, desde tempos imemoriais, teriam desembocado nas várias formas de produzir efeito estético, como a dança, o teatro, os esportes, a literatura, etc. Estes momentos de epifania não seriam lampejos do “assassinato fundador da cultura”?

Mesmo admirando o trabalho de René Girard, meu falecido colega em Stanford, acho que sua intuição sobre a violência e a minha vêm de ângulos diferentes. Girard fala de uma agressão motivada por uma frustração (principalmente coletiva), baseada na impossibilidade de igualar-se a alguém que se admira. Aquilo que descrevo é ainda mais básico. Se algum tipo de experiência estética supõe e provoca essa dimensão de “presença”, e se a presença inevitavelmente convoca corpos em espaços, então a experiência estética sempre terá um potencial de violência — que defino como “a ocupação do espaço com corpos contra a resistência de outros corpos”, mas trata-se de um potencial, e não, como no caso de Girard, algo que acontece naturalmente. Todos sabemos que, às vezes, os espectadores de uma bela performance teatral são levados à violência física em seu entusiasmo por aquilo que viram — isso é sempre possível, é uma reação potencial, mas de jeito nenhum necessária.

Ainda na esteira da pergunta anterior: a questão da violência “costura” as “quatro oscilações polares” apontadas por você no livro Nosso Amplo Presente: o Tempo e a Cultura Contemporânea (Editora UNESP). Qual será o principal obstáculo que as futuras gerações de historiadores terão ao analisar essas oscilações? Até que ponto a historiografia está de fato ameaçada pela lógica das funções de conservação e coleção por tecnologias de comunicação eletrônica?

Aquilo a que você se refere é minha hipótese de que nossa relação com o passado (a relação da cultura global) está passando por uma profunda mudança. Em parte por causa de tecnologias eletrônicas (pense nos primeiros documentos em filme da Primeira Guerra Mundial, por exemplo), todo o passado de que conseguimos lembrar está presente quase que de maneira física em nosso presente. Nesse sentido, seria bem fácil para o futuro (e para seus historiadores) tornar presente qualquer passado pelo qual se interessem. O problema pode ser que eles têm critérios de seleções — todo passado estará disponível, e nenhum passado será mais interessante do que outro.

Em sua obra, você procura fundamentar sua “pragmática histórica textual” buscando elementos da tradição da retórica em autores como Perelman e Olbrechts-Tyteca. Pois bem, esses autores, especificamente no § 29 da obra citada, falam de importância do efeito de “presença” para a técnica argumentativa, como forma de conquistar a “adesão do auditório”, mas reconhecem não se tratar de um conceito filosoficamente elaborado. Você acredita que, em dada medida, suas investigações sobre a “materialidade comunicativa” e sobre o efeito de “produção de presença” têm cumprido a necessidade de elaboração filosófica apontada pelos autores daquilo que ficou conhecido como “La Nouvelle Rhétorique”?

Mais uma vez uma pergunta brasileira, altamente sofisticada. Eu não conhecia a citação a que você se refere — mas, se entendo corretamente, então, talvez, meu trabalho das duas últimas décadas foi uma contribuição para essa “filosofia da presença” que Perelman e Olbrechts-Tyteca ainda não viram. A verdade, porém, é que aquilo que estou fazendo intelectualmente muito raramente é motivado ou provocado por razões ou acontecimentos intra-acadêmicos. Por exemplo: saber que eu simplesmente não consigo existir sem assistir a pelo menos um evento esportivo por semana foi uma motivação mais importante para meu trabalho (eu queria saber por quê) do que qualquer filosofia anterior, o que, é claro, não significa que eu não tenha uma gratidão profunda pelo legado do pensamento ocidental (e não apenas).

 

Cláudio Ribeiro é mestre em história pela Universidade Federal de Goiás.

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