Gertrude Himmelfarb: as virtudes sociais como o grande legado do Iluminismo britânico

Gertrude Himmelfarb: as virtudes sociais como o grande legado do Iluminismo britânico

Se o Iluminismo francês é uma “ideologia da razão”, o britânico é uma "sociologia das virtudes” e o americano uma “política da liberdade”.

Estado da Arte

01 Março 2018 | 18h00

por Luiz Bueno

Em artigo anterior dedicado à historiadora e crítica de cultura Gertrude Himmelfarb, mencionamos uma de suas mais importantes obras, Os Caminhos para a Modernidade. Neste livro, a autora tem um objetivo muito bem definido: revisar o conceito estabelecido sobre o Iluminismo de forma a poder recuperar para os britânicos uma importante parcela da responsabilidade histórica pelo estabelecimento deste movimento. Segundo a autora, o Iluminismo como realidade histórico-social mas também como estrutura de pensamento foi, de forma inadequada, associado exclusivamente aos franceses, tornando-se praticamente sinônimo de pensamento francês. Desta forma, reconhecer a anterioridade dos britânicos no estabelecimento do Iluminismo permite não apenas fazer justiça no campo da história mas também torna mais precisa a compreensão tanto do movimento em si quanto do nosso tempo presente, que tem raízes profundas neste período da história ocidental. Ainda dentro desse mesmo objetivo, Himmelfarb destacará a versão americana do Iluminismo. Como resultado dessa investigação, emergirá uma visão do Iluminismo como multiforme e diversificado, bastante diferente daquela imagem uniforme e universal que se cristalizou no campo da história das ideias.

A noção de um exclusivismo francês no estabelecimento do Iluminismo talvez se deva, em grande medida, ao impacto criado pela Revolução Francesa, pela Enciclopédia, pela ideia francesa do “Século das Luzes” e pelo entusiasmo dos philosophes, como os iluministas franceses se identificavam. Entretanto, tal exclusivismo francês pode ser refutado até mesmo pelo fato de que iluministas franceses e ingleses mantiveram um grande intercâmbio de ideias, uma vez que muitos franceses estiveram na Inglaterra nesse período, bem como vários dos ingleses frequentaram os franceses em suas viagens ao continente. Diversas obras foram traduzidas de um idioma ao outro e publicadas em outros países.

Mas, para além desse intercâmbio de ideias, a autora se propõe a analisar as características próprias que cada um destes povos desenvolveu em seus respectivos iluminismos. É neste sentido que ela falará de um Iluminismo britânico, de um francês e de um americano. Ademais, Himmelfarb descreve cada um deles com um qualificativo específico que aponta a sua característica distintiva: o Iluminismo britânico é descrito como uma “sociologia das virtudes”, o francês como uma “ideologia da razão” e o americano como uma “política da liberdade”.

Réplica parisiense da Estátua da Liberdade construída por Gustave Eiffel e presenteada pela Terceira República francesa aos Estados Unidos da América em homenagem à sua “Declaração de Independência” em relação ao Reino da Grã-Bretanha.

Estas descrições ajudam a caracterizar a forma que o Iluminismo tomou em cada um destes povos e o quão distinta foram a experiência e a contribuição de cada um. No caso dos franceses, a sua “ideologia da razão” significa que eles tinham como objetivo mais elevado fazer da razão a excelsa condutora de todas as ações humanas, a diretora das mentes de todos o homens e, com isso, “racionalizar” o mundo. Isto explica porque Himmelfarb aplica o descritivo de “ideologia” da razão como a característica do Iluminismo francês.

Já o iluminismo britânico é definido como uma “sociologia das virtudes” pois coloca a sua ênfase nos vínculos sociais. Mas vínculos que se estabelecem de uma forma muito particular, qual seja, a de “virtudes sociais”, isto é, qualidades específicas de relações que aparecem no convívio social, como a benevolência, a compaixão, a simpatia. Dizer que não houve Iluminismo britânico pelo fato de que não havia philosophes entre eles já é definir o racionalismo como princípio e o modelo francês como norma. Não houve qualquer forma de negação da racionalidade. Porém, a razão não tinha o mesmo lugar de preeminência que desfrutava entre os franceses. Os britânicos reconheciam que antes da razão havia uma dimensão pré-racional em operação nas relações entre as pessoas. Os britânicos deste período são também chamados de filósofos “morais” pelo fato de afirmarem, por exemplo, a presença de um senso ético inato ao homem que lhe confere as bases da ação moral, a qual, depois, pela experiência social e pelo seu ajuste racional, se configura em normas sociais de ação. Para muitos dos filósofos britânicos, muito mais importante do que a racionalização dos atos morais, era o reconhecimento do que se consagrou com a denominação de “sentimentos morais”. E aqui se desenvolve uma poderosa tradição de pensamento com filósofos e pensadores de grande estatura como, por exemplo, David Hume e Adam Smith. É muito conhecida a relação que Smith estabelece entre a sociedade de mercado e o processo de equilíbrio natural que esta sociedade alcançaria através da chamada “mão invisível”. Este equilíbrio não se estabeleceria por força de um padrão de relações de troca racionalmente construído, mas por fatores que se enraízam nos hábitos e nos interesses das pessoas através de uma dinâmica que extrapola os cálculos quantitativos e racionalizados.

Um aspecto polêmico da obra de Himmelfarb é o fato de ela contar Edmund Burke entre os iluministas. Mas se de fato o Iluminismo britânico foi uma sociologia das virtudes (sociais), a figura de Burke se insere perfeitamente nele, pois Burke foi, sim, um grande crítico do “Iluminismo”, mas da sua versão francesa, que engendrou a Revolução que ele analisa e critica em sua obra máxima, Reflexões sobre a Revolução na França. Segundo Himmelfarb “onde os revolucionários falavam de ‘direitos’ e ‘razão’, Burke invocava ‘virtude’ e ‘sabedoria’.” Burke articula um pensamento e uma prática política que não se conduzem por e nem se fundamentam em ideias utópicas construídas mediante procedimentos racionalistas não conectados à vida concreta e aos sentimentos e imaginações morais que sustentariam a prudência das ações no âmbito da vida em sociedade . Em Burke, emerge a noção de “imaginação moral” como base não apenas das virtudes sociais mas da própria sociedade em si. É sobre estes alicerces que o governo deveria se apoiar.

Tão importante quanto este aspecto é a relação que o Iluminismo britânico guarda com a religião. Os iluministas britânicos, assim como os americanos, foram caracteristicamente bastante liberais em relação à religião, com ideias “compatíveis com um amplo espectro de crença e descrença”. O Iluminismo francês, por sua vez, se definiu em grande parte por uma ampla rejeição da instituição religiosa, ainda que não necessariamente se afirmando como um movimento ateu, uma vez que vários dos philosophes professavam algum tipo de teísmo, de religiosidade natural. Mas a imagem que em geral se associou ao Iluminismo francês foi a da hostilidade à religião. Por seu turno, Himmelfarb aponta novos estudos que demonstram a grande contribuição do movimento religioso liderado por John Wesley (o Metodismo) para a concretização dos princípios iluministas britânicos, levando para a população mais pobre educação e conhecimento, bem como princípios básicos de autonomia financeira e moral. Himmelfarb oferece uma grande profusão de dados concretos que lhe permitem chamar este período de “Era da Benevolência”, mostrando como o movimento wesleyano, bem como o que se passou depois na Era Vitoriana, resultaram desses princípios do Iluminismo britânico, o que torna patente a grande diferença em relação ao Iluminismo francês. Se os iluministas britânicos não atribuíam à religião o papel de fundadora dos valores morais, por outro lado viam nela uma auxiliar que confirmava em muito aqueles valores originados dos sentimentos morais ou daquele senso moral inato que teria produzido a noção das virtudes sociais. O Iluminismo britânico teve, assim, um diálogo em geral pacífico e produtivo com a religião.

O Iluminismo norte-americano seria, por seu turno, um movimento que visava estabelecer uma nova ordem política e não propriamente uma nova ordem social ou humana, como no caso dos franceses. Os americanos foram capazes de estabelecer uma ordem política que implementou na prática a democracia em um sistema republicano no Novo Mundo. Mas, os Pais Fundadores não tinham a mesma confiança nas virtudes sociais que os britânicos e nem depositavam na religião a esperança de assegurar os vínculos morais da nova sociedade. Sendo assim, a difusão das virtudes sociais ficaria a cargo da educação, e a sociedade se apoiaria em uma economia comercial e industrial que asseguraria o seu progresso moral e material. Ainda que não se apoiasse na religião, o Iluminismo americano não a antagonizava; ao contrário, tratou de proteger a variedade de crenças no âmbito da República. O diálogo entre religião, ciência e política é uma marca da história americana, novamente em grande contraste ao modelo francês.

Desta apresentação em linhas muito gerais dos argumentos desenvolvidos por Himmelfarb, chega-se a uma conclusão bastante curiosa, que nos ajuda a reconhecer as bases dos nossos modos de vida contemporâneos. Considerando a realidade social produzida pelos iluministas britânicos e americanos, pode-se pensar que as promessas feitas, em teoria, pelo Iluminismo francês e pela Revolução Francesa foram, na prática, concretizadas pelos Iluminismos britânico e americano. A ideologia iluminista e revolucionária francesa produziu a grande crise, a destruição violenta do Antigo Regime, trouxe a experiência do terror e, finalmente, produziu talvez o seu exato oposto, personificado na figura de Napoleão, um “imperador”.

A obra de Himmelfarb nos conduz à necessária constatação de que o Iluminismo britânico foi um movimento de cunho, pasme-se, conservador. Sendo assim, Iluminismo, racionalidade, virtudes sociais e uma disposição conservadora não são, em hipótese alguma, elementos necessariamente contraditórios e tampouco conflituosos. O Iluminismo britânico, com sua ênfase nas virtudes sociais, produziu uma sociedade onde o liberalismo nos costumes, a proteção das liberdades individuais, o direito do indivíduo à auto-determinação e a proteção deste contra os excessos do Estado conviveram (e em certa medida ainda convivem) muito bem com o conservadorismo em política; onde os ideais utópicos e revolucionários são vistos com grande desconfiança dado o seu potencial destrutivo e a sua ineficiência na produção de avanços concretos para a qualidade de vida dos cidadãos. No caso americano, uma lição que emerge é que a sociedade americana atual é fruto não da confiança na infinita perfectibilidade humana, mas, ao contrário, da consciência da im-perfectibilidade humana, com toda a imprevisibilidade que isto acarreta, impondo a necessidade de mecanismos de pesos e contrapesos que minimizem os efeitos do lado perverso de nossa natureza humana. De certa forma, o Iluminismo americano preservou e promoveu muitos dos princípios originados entre os britânicos. O lugar preponderante dos Estados Unidos no mundo atual é, em muito, fruto dessa herança. O erudito estudo desenvolvido por Gertrude Himmelfarb coloca esta reflexão de forma incontornável e suas conclusões abrem uma grande perspectiva para novas formas de pensar a vida política e social. Algo que nós, brasileiros, necessitamos – e muito.

Luiz Bueno é Bacharel e Mestre em Filosofia e Doutor em Ciências da Religião. Professor de Filosofia na FAAP. É autor do livro “Gertrude Himmelfarb: Modernidade, Iluminismo e as Virtudes Sociais”, publicado pela É Realizações.

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