Freud, criador do inconsciente? – Parte 1

Freud, criador do inconsciente? – Parte 1

Freud criou o Inconsciente ou se somente o desvendou? Nessa série apresento uma resposta possível sobre esse dilema. Para tal, vou retroceder na análise para explicar alguns pontos bem básicos sobre o desenvolvimento da psicanálise.

Estado da Arte

14 Agosto 2017 | 14h04

Por Felipe Pimentel

Uma das perguntas mais clássicas da história da psicologia e da psicanálise questiona se Freud criou o Inconsciente ou se somente o desvendou. Nesta série, gostaria de apresentar uma resposta possível sobre esse dilema. Para tal, vou retroceder na análise para explicar alguns pontos bem básicos sobre o desenvolvimento da psicanálise.

Sigmund Freud

Na estrutura, as sociedades são sempre a mesma coisa: elas se organizam em torno de um controle do comportamento coletivo dos indivíduos uns com os outros, através de um ferramental de parâmetros que nada mais são que tradições compartilhadas entre os componentes dela, transmitidas de geração a geração, carregando suas noções morais – bem e mal, certo e errado e lei e crime -; categorizando suas relações de parentesco – descendência, linhagem e casamento -; organizando pensamentos e ações – permitido e proibido, adequado e inadequado, regra e exceção. Os membros de uma comunidade partilham desses valores, e esse compartilhar significa uma relação de aproximação, adesão e afastamento desses próprios valores – num jogo de pertencimento, reconhecimento e exclusão que determina o jogo social. Não importa a roupagem que uma determinada estrutura tradicional apresente, no fundo, ela trata dessas coisas. Que seja interditado um pensamento em uma e não em outra; que o incesto aponte para o tio e não para a irmã; que se resolva um crime assim ou assado são somente adereços de um esqueleto que é sempre o mesmo. Porém, os psicanalistas sabemos que as tradições possuem um componente emocional profundo, a saber, que as tradições são organizadores emocionais. Explico.

O ser humano é um ser prematuro. Um bebê jogado à própria sorte não sobrevive. Na realidade, mesmo um bebê cuidado somente em suas necessidades provavelmente não sobreviveria (Luís XIII, o rei francês, chegou a fazer este experimento com 11 crianças, e todas faleceram). Nossa condição fundante, quando nascemos, é a de seres desamparados, diferentemente dos animais, que já nascem capazes de sobreviver. As necessidades que temos desde o nascimento são as da sobrevivência – a fome, a sede, o frio e o abrigo (discutível, ainda que parte dos etólogos já tenha demonstrado que alguma dose de proteção afetiva é buscada também pelos animais); e a elas vêm adicionados instintos como o sexo e a violência. Quer dizer, além de já chegarmos ao mundo com muito mais inscrição do que sonharam as vãs filosofias empiristas, pois tanto as necessidades quanto os instintos nascem conosco, nós também nascemos com uma inclinação para o outro, dado que ambos precisam do próximo para se satisfazer. Quer dizer, essa é uma explicação algo mais complexa do que Aristóteles intuiu com a inclinação gregária dos seres humanos. Mas há algo apressado nessa conclusão.

Convocar o outro a satisfazer os nossos instintos não gera a melhor das comunidades. Uma sociedade composta de indivíduos com instintos e necessidades que utilizam o outro para se satisfazer é uma sociedade, clinicamente, perversa. Porque, ainda que os impulsos do nasciturno convoquem o cuidado de um outro, eles o fazem de modo devorador: a fome, a sede, o anseio de abrigo e afeto, bem como os instintos sexuais e agressivos não pedem licença e agem de modo desgovernado, atropelando o outro. Assim, não é necessária a parafernália metafísica hobbesiana para compreender que um Kasper Hauser, um indivíduo amadurecido longe do convívio social ou não sobreviveria ou seria uma ameaça ao corpo social. Quer dizer, o outro é chamado para nos manter vivos, mas esse chamado é feito de um modo devorador (as mães sabem exatamente do que falo). Além da ambiguidade do binômio precisar do outro-devorar o outro, a outra que surge é entre o caráter de fundamental necessidade desses instintos para a nossa sobrevivência e total ameaça deles mesmos à ordem social. A civilização surge nesse imbróglio. Para organizar o terreno, as sociedades lançam mão de ferramentas de organização dos instintos e das necessidades humanas. Dessa forma, uma sociedade, desde o primeiro cuidador quando somos nasciturnos, organiza nossos instintos e nossas necessidades de modo a nos tornar passíveis de viver em comunidade. É neste ponto que surgem os tais parâmetros de convívio social, que chamei genericamente de tradições, para organizar os impulsos desgovernados e antissociais que trazemos. Por certo, a intenção desses parâmetros, caso fossem otimistas e tolos, seria anular esses impulsos. Porém, eles são inteligentes, eles não se julgam tão competentes. Exercem uma tarefa mais sutil, trabalhando na distribuição desses impulsos, isto é, nos alertando quais são os critérios que nossa cultura aceita para que possamos os exercer. Assim, as culturas direcionam o instinto sexual para onde ele é permitido; capturam a violência do modo mais inteligente possível (inteligente aqui significa garantir a estabilidade social); e, mal percebemos, mas as culturas também nos antecipam a garantia ou não das provisões alimentares (em todos os episódios históricos em que isso esteve em risco, o laço social se rompeu).

Como a sociedade o faz? Ela apresenta uma paisagem de valores morais, políticos, culturais, estéticos e jurídicos que interditam os instintos e as necessidades aqui e ali e permitem acolá, numa dupla e paradoxal manobra que ao mesmo tempo que proíbe para anular, reconhece para permitir. No jogo duplo de interdição-permissão, nasce o desejo humano, mobilizado por uma cota de proibição profunda que ele mesmo repudia, e um leque de oportunidades que busca conquistar. Isto é, ao proibir determinado impulso sexual que aponta para um membro da comunidade interditado, a cultura reconhece o desejo sexual e imediatamente o encaminha para as realizações possíveis. Os membros de uma determinada comunidade comungam desses valores e os transmitem de geração a geração, não somente por hábito, mas por reconhecerem sua função como organizadores sociais.

Freud não só compreendeu perfeitamente essa problemática, como avançou na detecção dos efeitos psicológicos desse funcionamento social. O esquema freudiano diz que os instintos são reprimidos pelas interdições e que restam como conteúdos inconscientes em nossa mente; e que, em primeiro lugar, esse ato de reprimir o instinto é um conflito que o indivíduo tem de suportar; em segundo lugar, estando lá, reprimidos, eles retornam como sintoma, inibições ou transtorno; e, por fim, que foi a repressão do instinto total que originou o desejo possível.

Agora, fica a pergunta: como Freud foi capaz de enxergar o que estava no inconsciente dos homens?

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.