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Força e fragilidade psíquicas
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Estado da Arte

20 Março 2017 | 11h46

Por Felipe Pimentel

O debate mais antigo e espinhoso nos meios da psiquiatria, da psicologia e da psicanálise trata da definição do que é “normal” e do que é “patológico”. Para algumas orientações na psicologia e na psiquiatria, a normalidade abarcaria a maioria das pessoas e estaria marcada pela ausência de sintomas psíquicos patológicos: fobias, manias, episódios depressivos, alucinação, delírios, compulsões. Esses indícios, quando aparecem, apontam um desvio na normalidade psíquica e indicam alguma patologia; razão pela qual eles devem ser passíveis de reconhecimento por alguém, isto é, eles precisam se manifestar visivelmente, não só para as pessoas em torno, mas também para o psiquiatra/psicólogo encarregado, a fim de serem identificáveis e comporem devidamente o diagnóstico do “transtorno” em questão.

Atlas sustentando o céu. Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles.

Atlas sustentando o céu. Museu Nacional de Arqueologia de Nápoles.

Como qualquer orientação teórica, ela possui vantagens e desvantagens, soluções e dilemas. Um dilema interessante é o seguinte: se os indícios são verificáveis, eles estão à disposição também de terceiros, seja da família e de amigos em torno do paciente, seja dos médicos e dos psicólogos encarregados. Dessa forma, se uma pessoa apresenta qualquer daqueles sintomas, nós estaríamos suficientemente autorizados a intervir na situação, dando o encaminhamento terapêutico devido. Atualmente, os médicos e psicólogos que assim orientam sua visão da mente são muito prudentes e não costumam sair apontando sintomas e transtornos por aí, porém, foi exatamente essa visão que levou a práticas inaceitáveis desde o início da psiquiatria e da psicologia e, por conseguinte, a uma série de acusações e preconceitos que ambas áreas sofreram (a mais famosa, para nós, n’O Alienista, de Machado de Assis).

A visão psicanalítica, a despeito de todas as suas dissensões internas, mantém, em seu núcleo, uma concepção diferente: não existem as pessoas “normais” e as “patologias”. Por óbvio, essa hipótese também nos assombra, pois, levada ao limite (o que efetivamente ocorreu no caso de algumas teorias dos anos 1950 a 1970), também pode resultar em atrapalhadas práticas ou teóricas, como a crença de que o transtorno mental “não existe”. Compreendida com parcimônia e profundidade, ela aponta para algo mais sutil: todos nós possuímos uma estrutura psíquica de determinado tipo (fóbica, obsessiva, histérica, narcisista, etc.), sendo que cada estrutura possui seus modos de funcionamento próprio (hábitos, mecanismos de defesa, ideias) acoplada a algo completamente inabarcável pela ciência, que é a singularidade da história, dos afetos e dos pensamentos de cada pessoa.

Como a “estrutura” se estrutura é algo que nem posso imaginar. Muitos psicanalistas creem – entre eles, o primeiro Freud – que é possível buscar a origem biográfica e histórica da estrutura, através de traumas, fantasias, etc., crendo que, ao encontrá-la poderíamos alterá-la – pessoalmente, não me parece possível. Quando (o primeiro) Freud encontrava nas memórias de um paciente alguma história que parecia relacionar-se com os sintomas atuais dele, ele supunha ter encontrado uma etiologia daquela neurose específica. A mim, sempre pareceu que essas histórias eram mais um exemplo da estrutura, do seu modo de funcionar, do que uma causa para ela se estruturar. Ocorre que nós nos estruturamos dessa ou daquela maneira, mas nada está garantido, pelo contrário: de acordo com o que enfrentamos na vida real ou interna, lançamos mão de determinados recursos comuns àquela estrutura (nenhuma é melhor do que a outra; cada qual possuindo estratagemas específicos); recursos esses mais ou menos disfuncionais.

Algumas vezes, eles funcionam, noutras não. Enquanto funcionam, seguimos nossa vida, com nossa personalidade aparentemente fixa e identificável, que faz com que as pessoas possam se referir ao “nosso jeito”. Quando não funcionam ficamos sem recurso e então caímos em sofrimento: nossas ferramentas para enfrentar o que até então era hábito e corriqueiro desaparecem e ficamos perdidos. A primeira consequência dessa situação é fundamental para essa orientação: somos nós mesmos que percebemos nosso mal-estar, e não alguém externo que aponta sintomas que apresentamos (embora elas também possam reconhecer, na maioria das vezes, são as próprias pessoas que reconhecem seu mal-estar). Quer dizer, aí está uma concepção de patologia que aponta para o indivíduo, isto é, é cada sujeito que aponta quando está disfuncional, doente, transtornado. Ou seja, isso faz os psicanalistas saberem que nossas estruturas são neutras diante da normalidade e da patologia, sendo, na realidade, um funcionamento mental passível de entraves e dificuldades em várias medidas e níveis (razão pela qual os psicanalistas não saem à rua apontando sintomas – o que, em última instância, resolve a acusação que recaía em Simão Bacamarte, pois para um psicanalista pouco importa a sintomatologia fenomenológica, deixando ao sujeito determinar quando não se sente bem).

A segunda consequência dessa situação é um questionamento difícil: quando nossas ferramentas não funcionam? E mais: o que significa dizer que elas não funcionam – que estamos doentes?

Essas duas são perguntas complexas, e a resposta que a psicanálise oferece é um pouco contraintuitiva e podem ser respondidas conjuntamente. Primeiro, as nossas ferramentas não deixam de funcionar quando estamos frágeis ou mesmo diante de situações traumáticas e difíceis. Pelo contrário, nossa mente possui uma força descomunal e é capaz de suportar traumas mastodônticos sem colapsar. Diante de traumas, ela utiliza os mais diversos expedientes que temos disponíveis para lidar com ele, fugas, racionalizações, atuações e uma centena de soluções particulares. Se nossa mente enfrentasse os traumas (reais ou internos) diretamente seria insuportável para ela, e isso já nos aponta a resposta: assim como ela se protege do horror, nossa mente também só se permite colapsar muitas vezes quando estamos fortes – e não frágeis. Quer dizer, quando ela se sente mais fortalecida para vivenciar nossas angústias, é possível que ela nos mande um alerta, que também é um convite: agora que estamos com mais recursos, quem sabe sofrer um pouco para reorganizar o que nos causa mal-estar? Isso explica porque muitas pessoas ultrapassam traumas incríveis incolumemente para depois caírem em crises psicológicas em momentos distantes e aparentemente tranquilos ou até mesmo diante de situações superficialmente muito mais simples e singelas que traumas passados. Desse modo, para um psicanalista, uma crise psicológica é, muitas vezes, o avesso de uma fragilidade psíquica, mas o indício de que naquele momento a mente está fortalecida para baixar suas defesas e encarar suas angústias. E é nesse momento que surge a mais bela oportunidade para nos transformarmos e escaparmos das amarras e imbróglios que nosso próprio modo de funcionamento montou.

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.

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