FAUSTO – Paulo Unzer: “Um dos fantasmas do nosso tempo é o temor da invisibilidade”

FAUSTO – Paulo Unzer: “Um dos fantasmas do nosso tempo é o temor da invisibilidade”

A editora e jornalista Eliana de Castro entrevistou o psicanalista Paulo Unzer para a série 'Black Mirror', da revista Fausto.

Estado da Arte

04 Abril 2018 | 15h17

 

Estado da Arte publica hoje, dando sequência à parceria com a revista FAUSTO, a entrevista com o psicanalista e doutor em psicologia social Paulo Unzer. A entrevista, realizada por Eliana de Castro, é parte da série Black Mirror – Tecnologia como antiêxtase.

FAUSTO – E se pudéssemos bloquear as pessoas na vida real, e não apenas nas redes sociais, que tipo de pessoas nos tornaríamos?
Paulo Unzer: Antes de mais nada, precisamos entender que Black Mirror encena dilemas morais do homem e da sociedade contemporânea. Em alguma medida, sabemos que as escolhas morais que nossa civilização fez, e continua fazendo, nos levarão para uma sociedade semelhante a de Black Mirror. Trata-se, portanto, da vitória moral do utilitarismo.

Como assim?
Trata-se da valorização do que se mostra útil ao bem-estar do homem e da sociedade. Membros de uma sociedade ultra identificada com o ideário utilitarista são literalmente capazes de tudo para evitar situações psicologicamente difíceis. E isso já está acontecendo.

Dê um exemplo.
Quando o Facebook pré-seleciona notícias e apenas determinadas pessoas para acompanharmos, não estamos bloqueando todas as “ameaças”? Ok, alguém pode dizer: “mas é o Facebook que opera, não eu.” Esse tipo de argumento, contudo, levanta um dos mais interessantes impasses morais de nosso tempo, o chamado argumento de Eichmann.

O que é o argumento de Eichmann?
Ocorreu no julgamento de Nuremberg [1945/46]. Adolf Eichmann, tenente coronel nazista, buscava inocentar-se de ter sido um dos principais organizadores do extermínio, alegando que, à época, apenas cumpria a Lei estabelecida. Em sua conhecida análise do episódio, Hannah Arendt avaliou o caso como marcador de uma época cujo mal aparecia como mera banalidade, executado, inclusive, de modo burocrático, como era o caso de Eichmann.

Sim…
Agora, voltando à pergunta inicial, eu diria que somos todos responsáveis por já estarmos bloqueando pessoas na vida real. Argumentar que são as ferramentas virtuais que fazem o bloqueio nos coloca na posição de Eichmann, dizendo que executava porque não tinha escolha. Em se tratando de dilemas morais, eis que surge o seguinte impasse: temos escolha ou somos obrigados a participar desse jogo?

Estamos perdendo também a capacidade de dialogar inclusive com pessoas com quem temos total abertura? Amigos íntimos, marido e mulher, filhos…
Sim. Minha impressão – que tem a ver com o fato de estarmos surfando na onda utilitarista – é que um bom diálogo pode facilmente tornar-se uma ameaça da qual precisaremos, em algum momento, nos defender.

Que loucura…
Bons diálogos significam bons encontros que, por sua vez, significam intimidade, vínculo, enraizamento. De alguma forma, estamos todos infectados com o vírus utilitarista e nos comportamos de modo coerente a isso, destruindo qualquer capacidade de ter bons diálogos.

Sim, sem dúvida.
É dessa forma que defendemos o princípio utilitarista que, na verdade, é o que deveria nos orientar para não criarmos processos que nos levem a algum mal-estar. Nesse sentido, a experiência de amar é altamente arriscada para a sensibilidade utilitarista. Numa sociedade utilitarista, a experiência amorosa transforma-se facilmente na mecânica experiência da administração dos afetos. Por isso o romantismo é, em grande medida, uma reação ao utilitarismo. Numa sociedade utilitária, tudo o que tira da marcha ordinária do cotidiano administrado é percebido como ameaça. Não é por acaso que a palavra “performace” diz tanto sobre o desempenho profissional quanto sobre o amoroso e sexual. O termo, inclusive, tornou-se verbo: “performar”.

A recusa da personagem Beth de assumir seu erro foi o que desencadeou toda a história trágica?
Pode-se dizer que sim. Entender a trama por esse lado trás à tona o componente psicológico individual que, sem dúvida, sempre é um dos principais nexos causais de qualquer história. Agora, notemos a ironia presente no fato de que uma traição continuar a fazer o estrago que sempre fez em homens e mulheres. Isso é, embora o universo Black Mirror sugira o êxito na construção de uma sociedade humana psicologicamente sustentável a partir do condicionamento tecnológico, uma traição conjugal continua a ser uma traição conjugal.

Pois é!
Olha a ironia de fundo: embora a sociedade utilitarista tecnológica busque constituir-se para ordenar o caráter errático das paixões humanas, há uma espécie de loopingque faz com que essas mesmas paixões imponham-se triunfais. Em psicanálise, usamos a expressão “retorno do recalcado” para pensar esses processos…

A covardia hoje é facilmente encoberta pelo excesso de distrações tecnológicas? Não tenho tempo de pensar em meus erros enquanto estou no Facebook ou no Instagram?
Sim, sem dúvida. É notório como grande parte da população tem verdadeira obsessão por redes sociais. São adictos. Pensar em erros pressupõe a capacidade de vê-los, o que, por sua vez, pressupõe a capacidade de lidar com alguma dose de mal-estar. Novamente aparecem as referidas situações psicológicas difíceis. Por que fazer isso se podemos viver numa ininterrupta fantasia de sermos um perfeito avatar motivado, sobretudo, a produzir inveja nos outros a partir de fotografias nas quais simulamos estar realizando algum sonho mais ou menos banal que consta no ideário popular? A covardia tem muitas faces. Uma das mais contemporâneas é o que chamo de simulacro de felicidade.

E o que seria isso?
Trata-se de covardia moral, isto é, covardia sua com você mesmo. Isso é cada vez mais frequente no meu consultório. A pessoa sofre de adicção a alguma forma de vida que não permite a ela nada além de encenar constantemente um simulacro de felicidade. É um quadro clínico complexo.

Redes sociais são diferentes de outros tipos de entretenimento? Televisão…
Há semelhanças e diferenças. Tanto a antiga televisão quanto as atuais redes sociais ocupam um lugar social semelhante: o lugar da referência. A televisão formou o ideário e boa parte da opinião pública das últimas gerações. Hoje quem faz esse papel são as redes sociais.

Verdade. A família se reunia para assistir ao Jornal Nacional…
Quando a televisão dominava, havia o reino das celebridades e, do outro lado, os mortais. Hoje, estamos vivendo um movimento de homogeneização desse hall. Muitos chamam esse fenômeno do surgimento da sociedade das subcelebridades. Há um movimento de tornar-se celebridade, tornar-se referência, tornar-se alguém diferente. Todos querem ser diferentes porque querem ser olhados. Um dos principais fantasmas do nosso tempo é o temor da invisibilidade, da indiferença, da irrelevância. Todos nós somos mais ou menos habitados por esses fantasmas. Clinicamente, isso aparece no sofrimento decorrente do movimento de tentar coincidir com alguma imagem estereotipada e perfeita que alguém tem de si.

Isso tem um pouco a ver com o episódio Nosedive
A dificuldade que hoje enfrentamos, tanto de lidar com isso quanto de se haver com as causas disso, levam muitos ao anonimato que, ironicamente, as redes sociais também permitem.

Senti forte medo quando o episódio White Christmas mostrou que ao bloquear uma pessoa na vida real, ela também desaparece das fotografias. Fotografias contribuem para a memória afetiva?
Sim. Em termos psicológicos, o pensamento depende tanto da linguagem quanto as memórias de imagens. As memórias são imagens carregadas de afetos. O que somos nós senão memórias ambulantes? George Orwell, em 1984, já dizia que quem controla o passado controla o futuro. Entre outras coisas, o uso dessa tecnologia na sociedade de Black Mirror obedece a esse princípio.

Além de Orwell, alguém pensou sobre isso?
Freud já dizia no começo do século passado que todas as invenções tecnológicas seriam inspiradas no anseio humano de não ser mais refém de angústias de castração. Ora, na sociedade utilitária o que está em jogo é o anseio humano de controle total de todas as variáveis que possam garantir um estado permanente de felicidade. Jeremy Bentham, pai do utilitarismo, chamava isso de cálculo racional de felicidade.

Cálculo racional de felicidade! O nome é curiosíssimo…
Juntando as lições de Orwell e Freud e o utilitarismo de Bentham, poderíamos concluir que o controle para ser eficaz precisa ser operado lá onde surge o princípio das patologias humanas, isso é, nas memórias afetivas que inoculam em nós a faísca do descontrole, da irracionalidade, mas, também, do desejo e das paixões. É no pathos que incide o controle utilitário.

Seria bom se por meio da Inteligência Artificial pudéssemos ter uma cópia de nós mesmos, para cuidar de muitas coisas que aparentemente nos aliviariam no cotidiano?
De certa forma, poderia ser útil. A questão é: e nós? O que nós faríamos?

Há lugar para o perdão em um mundo de justiceiros virtuais?
Perdão refere-se a uma atitude psicologicamente muito custosa para sensibilidades como as de nosso tempo. Hoje, um jovem olha para o mundo e se pergunta: “o que o mundo me deve?” Seria quase um milagre um jovem olhando para o mundo e se perguntando: “o que devo ao mundo?” Há uma atmosfera generalizada em que todos se veem como vítimas de injustiças. Criou-se um verdadeiro mercado de vítimas. Numa situação como essa, na qual as pessoas estão tomadas por afetos negativos como a inveja, não há espaço para o perdão. Perdoar não combina com a subjetividade utilitária. A noção de perdão, seja do ponto de vista teológico, seja do ponto de vista psicológico, pressupõe um ato de coragem e generosidade, pois só há perdão verdadeiro quando o outro não merece ser perdoado. Se o outro merece ser perdoado estamos falando de justiça.