FAUSTO: Andrei Venturini: ‘“Arkangel’ representa a crença no vínculo entre ciência, progresso e felicidade”

FAUSTO: Andrei Venturini: ‘“Arkangel’ representa a crença no vínculo entre ciência, progresso e felicidade”

Dando continuidade à Série Black Mirror – Tecnologia como antiêxtase, da revista FAUSTO, confira a entrevista com o filósofo Andrei Venturini, doutor em Filosofia, professor no Instituto Federal de São Paulo e também autor dos livros "A verdade é insuportável" e "Do Reino nefasto do amor-próprio".

Estado da Arte

07 Maio 2018 | 17h01

Uma parceria do Estado da Arte com a revista FAUSTO.

Por Eliana de Castro

Já pensou se seus pais pudessem ver tudo o que você faz, e através dos seus próprios olhos? E se pudessem também controlar o que você vê ou conhece? Arkangel é um dos episódios mais chocantes da obra antológica criada por Charlie Brooker. E dando continuidade à Série Black Mirror – Tecnologia como antiêxtase, convidamos o filósofo Andrei Venturini, doutor em Filosofia, professor no Instituto Federal de São Paulo e também autor dos livros A verdade é insuportável e Do Reino nefasto do amor-próprio. A quais interesses uma empresa como Arkangel serviria? Quem seriam seus clientes? Quais seriam as consequências de tanto controle? Nossos amores também poderiam ser vigiados? Confira todas as respostas. 

Se a empresa Arkangel existisse, qual seria o perfil de seus clientes? Apenas pessoas preocupadas com a segurança dos entes queridos?
Andrei Venturini: Penso que uma empresa como Arkangel, fornecedora de tecnologia voltada ao controle e cuidado dos filhos em nome da segurança, seria objeto de desejo de pessoas autossuficientes, isto é, aquelas que acreditam que a ciência pode oferecer recursos infalíveis contra o mal. No episódio, Marie, mãe de Sara, expressa essa crença. Mas se fizermos um recuo histórico, veremos que essa crença é uma herança do advento da ciência moderna, e está presente nas obras de autores como Francis Bacon e René Descartes.

O que dizem?
O pensador inglês Francis Bacon, por exemplo, escreveu uma obra de ficção científica em pleno século XVI: A Nova Atlântida. Nela, o autor descreve uma ilha perdida nos mares da América Central, que foi encontrada por um navio de europeus que estavam perdidos e preparando-se para a morte. Mas, superando suas expectativas, são surpreendentemente acolhidos pelos moradores da ilha. Os europeus, espantados como os grandes avanços tecnológicos daquele lugar, narram a história.

O que aconteceu na ilha?
Na ilha havia homens que falavam várias línguas, eram cordiais, tinham grande conhecimento sobre navegação e conheciam boa parte do mundo, importando todos os desenvolvimentos dos outros continentes e aperfeiçoando-os. Além disso, era um lugar de grande idoneidade moral: havia pessoas castas, respeitosas e fiéis nos casamentos, de modo que não existia nenhum bordel na ilha. Portanto, esta sociedade científica era produtiva, paradisíaca, perfeita: o avanço científico possibilitou a formação de uma sociedade altamente moral, confortável e feliz. Esta obra de Bacon exprime uma crença que foi muito difundida nos séculos posteriores: o progresso da ciência seria acompanhado pelo progresso moral, o que resultaria em uma sociedade feliz.

Felicidade seria…
A felicidade estaria ligada ao conforto, à diminuição das doenças, ao aumento do tempo de vida e a um alto índice de segurança. Penso que Arkangel representa a crença no vínculo entre ciência, progresso e felicidade, possibilitando uma sensação de segurança para seus clientes. A autossuficiência da ciência está em sintonia com a autossuficiência da mãe: ela acredita que a ciência será capaz de aniquilar o mal, este princípio de desagregação tão manifesto nas doenças, na violência e no beijo final da morte.

Quem pensa de forma contrária?
Contrariando este otimismo científico, Freud, em sua obra O Mal-Estar na Civilização, concebeu a ciência como paliativo para a violência da natureza. O psicanalista estava de acordo com os filósofos antigos: não há remédio infalível para os dramas da existência. Amar a vida é encarar a realidade com todos os desafios que ela proporciona. Ao contrário disso, a ciência moderna promove a sensação de eliminação do mal por meio da técnica. Não tenho dúvida que a ciência conseguiu alguma dose de conforto, tranquilidade e segurança: vacinas, remédios, rapidez de locomoção e um alto grau de segurança diante das catástrofes da natureza: previsão de tsunamis, arquitetura capaz de superar terremotos, etc. Isso, teoricamente, diminui a angústia do homem diante das tragédias da vida. Mas, na prática, o que vemos?

O que vemos?
O homem contemporâneo é aturdido por outros desafios: surgem novas doenças, novas formas de violência – como o terrorismo –, e uma dependência enorme da tecnologia, de modo que um dia longe do celular pode irromper quadros preocupantes de ansiedade. Essa “tecnodependência” também se manifesta nos mais jovens, cujo vício nos jogos virtuais é forte o bastante para os fazerem dispensar um belíssimo dia de sol na praia. Voltando à pergunta inicial, penso que os clientes de Arkangel foram tomados pela crença na autossuficiência: em algum momento acreditaram que a ciência venceria a luta contra o mal.

Você acredita nisso?
Particularmente, não acredito nisso. Tendo a ser pessimista em relação à condição humana. Evidentemente precisamos lutar contra o mal, mas que esta luta nos ensine a conviver com o fracasso. Vencer o mal é exceção, o fracasso é a regra.

Se pudéssemos impedir que nossos filhos vissem tudo aquilo que é desagradável, formaríamos que tipo de adulto?
É compreensível que os pais zelem e cuidem de seus filhos. Não tenho dúvidas de que este cuidado é necessário. Não penso que os pais devam expor seus filhos a todos os males do mundo. Do mesmo modo que não podemos derramar 20 litros de água sobre um copo de plástico sem o risco de destruí-lo, também não devemos apresentar todos os dramas da vida no momento em que o ser humano desfruta da mais tenra idade. A criança não tem estrutura para suportar os males atrozes do mundo. Cuidar de um filho é, de algum modo, poupá-lo, carregando-o no colo quando necessário. Porém…

Porém…
Com o tempo, a criança fica pesada e não suportamos mais o seu peso. É preciso que ela aprenda a andar. Permitir que a criança dê seus primeiros passos é reconhecer que ela precisa crescer, ou seja, que ela deve enfrentar alguns dramas inevitáveis: fazer e desfazer amizades, perceber que não se pode ter tudo na hora que quer, perceber que alguns comportamentos não convém em determinados ambientes, etc. Isso é crescer: adquirir recursos para enfrentar os desconfortos que a existência exige. Com o tempo, as inevitáveis tragédias da vida vão irromper à frente dos olhos de qualquer ser humano, seja criança, adolescente ou adulto, e é preciso ter uma estrutura mínima para lidar com as adversidades da vida.

Ou seja, não é bom protegê-los de tudo…
Os pais que cercam os filhos por todos os lados impedem que eles reconheçam sua condição de ser humano: fraco, limitado, sujeito às doenças, à violência, aos dramas do amor e ao medo da morte. Estar ciente destas fraquezas já é um passo para refletir e traçar estratégias que nos auxiliam a lutar contra as mazelas da vida. Este episódio de Black Mirror mostra que o cuidado excessivo impede o homem de se tornar um adulto. Na série, aquela criança não conseguia nem mesmo ver o próprio sangue, uma vez que o programa turvava sua visão quando afetada por qualquer tipo de violência. Ora, na selva, um animal que não consegue detectar os perigos está sujeito a ser devorado. Do mesmo modo o homem, visto que, quando está destituído de qualquer contato com o mal, torna-se incapaz de reconhecê-lo, e, assim, corre o risco de sucumbir diante dele. Sendo assim, penso que cuidar dos filhos não é trancá-los dentro de um condomínio, mas ensiná-lo a caminhar firmemente quando estiver fora do domínio dos pais.

Invasão de privacidade como justificativa de “amor” é assunto dos mais antigos, não? E não apenas entre pais e filhos, mas entre casais…
Há tempos que discutimos uma fórmula de ouro para harmonizar liberdade e segurança. Zygmunt Bauman deixa transparecer isso em inúmeras obras, salientando que o homem contemporâneo depara-se com um paradoxo: quando aumentamos a liberdade, diminuímos a segurança; quando aumentamos a segurança, diminuímos a liberdade. O que fazer se desejamos no mais alto grau tanto a liberdade quanto a segurança?

O que fazer?
Penso que esse paradoxo apontado pelo sociólogo polonês torna-se ainda mais gritante se acrescentarmos um outro valor caro ao homem contemporâneo: a privacidade. Em 2010, o Wikileaks divulgou dados confidenciais que abalaram o mundo e ocuparam as manchetes da grande mídia. Mais precisamente, foram publicados grandes quantidades de documentos confidenciais do governo dos Estados Unidos. Ciente desta informação, o cidadão comum se perguntava: se uma nação como os Estados Unidos não consegue manter sob sigilo seus dados, imagine eu, um mero mortal? O Wikileaks escancarou um fato: o fim da privacidade. Desejamos o quadro ideal, em que liberdade, segurança e privacidade se harmonizam. Mas a realidade apresenta-se de outra forma: de um lado, se temos mais liberdade, perdemos segurança, porém, ganhamos mais privacidade; por outro lado, se temos mais segurança, a liberdade e a privacidade são diminuídas. Quem, então, conhece uma fórmula de ouro capaz de harmonizar liberdade, segurança e privacidade?

Agora esse controle invadiu a vida privada…
Esse é um problema que afeta os governos superpoderosos e a vida comum dos homens. O episódio Arkengel é um exemplo eloquente deste problema na educação dos filhos. Mas este dilema também pode ser expresso nas relações amorosas. A total liberdade concedida ao seu parceiro amoroso outorgaria mais privacidade a ele, mas qual é a segurança que você tem que ele não está cantando em outro galinheiro? Por outro lado, a fiscalização excessiva pode custar a privacidade do seu companheiro, mas qual é a certeza de que essa relação não será um inferno para ambos? Minha dose de pessimismo não me deixa visualizar uma perfeita harmonia entre liberdade, segurança e privacidade a curto prazo e, para ser sincero, nem mesmo a longo prazo. Creio que é necessário conviver com este desequilíbrio de “substâncias”: liberdade, segurança e privacidade; que até então nenhum alquimista foi capaz de fundir.

Quando, numa relação, atitudes corriqueiras deixam de ser amor e tornam-se mania de controle?
Penso que quando atitudes corriqueiras, como um telefonema durante à tarde para um simples “oi”, tornam-se uma forma de controlar a vida do outro, então é neste momento que o amor adoece, enfraquece e morre, surgindo então a mania de controle enquanto aniquilamento do outro. Sabe-se que as partes envolvidas numa relação amorosa possuem algum grau de diferença de temperamentos, modos de pensar, costumes, hábitos, etc. Os amantes tentam diminuir o grande hiato que os separa, buscando fundir-se, aproximar-se ao máximo um do outro. Nos deparamos assim com o seguinte paradoxo: como operar a fusão de dois seres diferentes? Nesta tarefa de fusão inúmeros atropelos são cometidos, de modo que o desejo paradisíaco de fundir-se pode tornar a vida do casal um inferno. Sim, de fato o amor é um sonho, mas não podemos esquecer que quando sonhamos corremos o risco de ter alguns pesadelos. A mania de controle é um destes pesadelos: o que eu faço você faz, o que eu gosto você gosta, o que eu penso você pensa. Bauman, em sua obra Amor Líquido, sublinha que o controlador busca operar a seguinte tarefa: “se você não pode ser meu gêmeo siamês, seja ao menos meu clone”. Penso que quando isso acontece o amor está morto: tornou-se submissão. Ele deixa de ser aquela tensão salutar a dois. A mania de controle assassina o amor por meio dos recursos que uma das partes usa para submeter a parte mais fraca.

Essa mania de controle é dependência afetiva?
Não vejo uma relação direta entre a mania de controle e a dependência afetiva. Se a mania de controle é uma forma de aniquilar o outro, submetendo-o a mim, então o outro desaparece da relação a dois: o outro foi aniquilado. Restará somente o ego do maníaco controlador, o qual foi capaz de aniquilar o outro a ponto de transformá-lo numa extensão de si. Dito de outro modo, a mania de controle não pode ser considerada uma dependência afetiva do outro porque é a destruição do outro. Se há alguma “dependência afetiva” daquele que tem mania de controle, então essa dependência é uma “dependência afetiva de si mesmo”, e isso é a expressão mais nefasta do amor-próprio. Mania de controle é amor a si mesmo.

E o antídoto é…
Tenho dificuldades de acreditar que haja remédios para os desastres da vida a dois. As relações humanas são nebulosas, é uma estrada sem placas, sem manual para os viajantes, de modo que o abismo pode estar na próxima curva. É por isso que amar exige cuidado.

Sim.
É certo que os amantes vinculam o amor à plenitude da felicidade, não obstante, penso que essa relação necessária entre estes dois termos pode ser um erro. Quem ama quer ser feliz, mas quem ama verdadeiramente está disposto a sofrer pelo objeto amado. O amor pode reluzir das cinzas e promover o milagre da ressureição: o amante morre para si e mostra-se disposto a viver para a vida a dois. Os amantes estão dispostos a aniquilar-se para poderem criar uma vida nova.

Bom, essa perspectiva hoje…
Essa perspectiva é quase impossível de ter a anuência do homem contemporâneo, o qual tem um amor infinito por si mesmo. O homem contemporâneo é um ególatra. Quando penso sobre o amor, lembro dos românticos do século XVIII e XIX: se fosse possível reconhecer uma característica comum entre os pensadores românticos, diria que estes colocam o amor acima de tudo, inclusive da vida, já que sem amor a vida não vale a pena.

Não tenho dúvida disso.
Rainer Maria Rilke, pensador romântico do século XIX, em suas Cartas a um Jovem Poeta, faz uma declaração sapiencial: o amor é uma forma de entesouramento. A tesoura tem duas partes que se mantêm unidas por um elo, porém, estas partes mantêm suas diferenças, e essa harmonia de movimento permite que a tesoura avance em sua função: o corte. Do mesmo modo os amantes, os quais possuem um elo intimíssimo e misterioso, mas sem dissolver as diferenças de cada um dos envolvidos na relação. Esse movimento de entesouramento permite uma espécie de aprimoramento de si, de aperfeiçoamento daquela vida a dois que os amantes estão dispostos a enfrentar. Essa relação não é sempre harmônica, mas pautadas por inúmeras dificuldades, ao passo que Paulo, o grande difusor do cristianismo primitivo, chega a comparar o amante a um soldado, o qual está disposto a enfrentar as tormentas para fazer reluzir o brilho do amor. Neste processo, neste “entesouramento” infindável, o amor permite que a máxima do templo de Apolo, “conheça-te a ti mesmo”, seja de fato vivida no cotidiano dos amantes, os quais são categóricos em dizer: “eu não me basto.” Essa é a verdadeira dependência afetiva dos amantes, pois está destituída da mania de controle, ou seja, da submissão que aniquila o outro. É certo que esta dependência causa algum grau de sofrimento. Nelson Rodrigues, na obra Myrna, dizia categoricamente que “não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. O pensador pernambucano entende que o amante está disposto a sofrer pela amada, mesmo que o preço a pagar seja a felicidade. Portanto, se é verdade que não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, então o amante romântico não hesitará em escolher o amor em detrimento da felicidade: os românticos sempre nos lembrarão que uma lágrima por amor não deixa de ser uma manifestação da mais genuína beleza.

Que lindo! Creio que se aplica também ao amor aos filhos.

Dedicamos à Jéssica Gabrielle.