Falando de Música – Todo mundo sabe

Falando de Música – Todo mundo sabe

Não podemos tomar a capacidade artística como elemento de valor moral para nenhum de nossos ídolos.

Estado da Arte

07 Dezembro 2017 | 08h00

Por Leandro Oliveira

Everybody knows the scene is dead
But there’s gonna be a meter on your bed
That will disclose
What everybody knows [1] 

Leonard Cohen

Após os escândalos com o produtor de cinema norte-americano Harvey Weinsten, em outubro passado, parece que o mundo da arte e entretenimento abriu a Caixa de Pandora do assédio sexual. Com casos incontáveis em duas mãos, Weinsten foi o primeiro de uma lista que seguiu, nas semanas seguintes, com James Toback e – apogeu do assunto – Kevin Spacey.

No meio do imbroglio, vimos o editorial de música clássica do Boston Globe perguntar ao diretor musical da principal orquestra da cidade, o letão Andris Nelsons, se o assédio sexual era um assunto importante no universo da música clássica. A resposta foi, ao menos para todos do meio, surpreendente: “não”. Ponto, parágrafo. Melhor: ponto final. Nelsons é um dos mais talentosos regentes de sua geração e, aos 39 anos, mantém uma das carreiras mais surpreendentes do mundo da música atual, sendo diretor das orquestras de Boston e Leipzig enquanto segue com uma rotina não pequena de atividades como regente convidado de formações de primeiro nível.


Não podemos afirmar com certeza que tipo de mundo mágico tais orquestras – e outras tantas pelas quais o maestro pôde passar – preserva, mas as críticas que o jovem maestro recebeu talvez já demonstrassem estar ele um pouco mal-informado sobre o mercado onde tão bem circula…

Na última semana, o assunto ganhou novos contornos. James Levine , ex-diretor musical por quarenta anos do Metropolitan Opera House, e que antecedeu Nelsons no cargo em Boston, foi acusado de abuso sexual de um adolescente nos anos 80. A alegada vítima, que manteve até agora o anonimato, diz que o assédio começou em 1985, quando tinha 15 anos e Levine ia já nos 41, e que os abusos se foram repetindo ao longo de quase uma década, até 1993.

A história foi revelada pelo jornal New York Times, que teve acesso a um relatório de 2016 da polícia do estado americano de Illinois, no qual um homem acusa o maestro de ter abusado dele enquanto adolescente. O Metropolitan Opera teria tido conhecimento do relatório mas o maestro negara as acusações e a instituição, não  tendo recebido outras informações posteriores, deixou a coisa ser enterrada. Após a matéria do NYT, neste domingo, o MET viu-se forçado a agir, e cancelou todas as performances futuras programadas de Levine naquele que foi sua segunda casa e o mais importante teatro de ópera norte-americano (onde ainda mantinha um cargo emérito).

Everybody knows…”. A notícia em si não é nova, na medida em que muitos no mundo clássico já ouviram dizer do “sofá” para testes de Levine em seus anos no Metropolitan. A hipocrisia que por todos estes anos gerou o silêncio em torno dos modos do diretor norte-americano foi quase geral: de grande parte dos críticos e setores da imprensa, de muitos entre os músicos, e evidentemente de alguns entre os tantos grandes atores e instituições musicais dos EUA e da Europa (o jornalista inglês Norman Lebrecht enumera, talvez levianamente, mais de dez).

Como demonstração da seriedade do caso, a Orquestra Sinfônica de Boston respondeu de forma enfática:

À luz das recentes e horríveis acusações contra James Levine, publicadas em várias agências de mídia desde 2 de dezembro, não há dúvida de que a Orquestra Sinfônica de Boston e a indústria da música clássica devem refletir seriamente sobre este momento e determinar formas de garantir que a má conduta sexual não tenha lugar em nossa indústria. Embora a Orquestra Sinfônica de Boston (incluindo Tanglewood e Boston Pops, entre outros programas) atenda aos principais padrões da indústria em todas as questões de segurança dos funcionários, a orquestra está revisando suas políticas em relação ao abuso em locais de trabalho e problemas de assédio para garantir que continuem a atender e exceder os mais altos padrões. Para o próximo ano, o BSO planeja convocar um simpósio com especialistas em recursos humanos que se especializam na formulação de políticas em torno dessas questões relevantes a fim de garantir o ambiente mais seguro possível para todos os envolvidos em nossa organização.

A Orquestra de Boston está comprometida com uma política de tolerância zero para qualquer pessoa que exiba comportamentos inadequados no local de trabalho. O comportamento de qualquer funcionário da Orquestra que seja contrário a esses valores fundamentais não seria tolerado e seria cumprido com as consequências mais graves.

Ao considerar a contratação de James Levine como diretor musical, através de um terceiro, a Orquestra Sinfônica de Boston aderiu à devida diligência, de acordo com o processo de contratação de funcionários, incluindo uma verificação de antecedentes por meio de triagem criminal e uma análise de eventuais reivindicações civis, bem como numerosas conversas com profissionais de música em todo o país associadas ao Sr. Levine ao longo de sua longa carreira. Embora as acusações atuais traçam uma história diferente sobre o Sr. Levine, o processo de verificação do BSO em 2001 não revelou motivo de preocupação.

A Boston Symphony Orchestra não trabalhou com James Levine desde que ele deixou o cargo de diretor de música em 2011; ele não será empregado ou contratado pelo BSO a qualquer momento no futuro.

A despeito de que hoje é relativamente fácil jogar aos cães um maestro que, aos 72 anos mostra-se adoentado e pouco disposto a concertos distantes de sua casa, em Nova York, a carta da Boston parece dura suficiente para satisfazer a opinião pública, e tem a qualidade de jamais ser evasiva. Mas é difícil crer nos seus termos: após “numerosas conversas com profissionais de música em todo o país associadas ao Sr. Levine” nada foi encontrado.

Se pesquisassem na Alemanha de vinte anos antes, eles encontrariam. O prestigioso crítico Anthony Tommasini, do New York Times, publicou nesta segunda-feira uma melancólica matéria comentando sobre uma entrevista de 1996, onde Levine argumentava sobre as dificuldades de manter-se reservado quanto à questões pessoais à ocasião de sua contratação pela Filarmônica de Munique. Na cidade, o conselho preocupava-se com os rumores sobre seu comportamento sexual. O que à época tentou ser matizado como preconceito ao homossexualismo notório do maestro, claro, mascarava a perversão doentia da pedofilia. Tommasini agora – não à ocasião – entende os termos do maestro como suspeitosamente evasivos, e sua resposta final reveladora. Teria dito o maestro, sobre sua disposição de falar de si na esfera pública: How good do you have to be?.

Sem que necessariamente se coloque a todos em suspeição indiscriminadamente, o caso expõe o que podemos agora admitir como o trágico corporativismo que envolve muitos entre os “poderosos” do meio clássico. As qualidades musicais enormes e inequívocas de Levine foram seu salvo-conduto por quarenta anos. Mas todos que amamos arte já deveríamos saber: Dr. Jekyll e Mr. Hyde são a mesma pessoa, e não podemos tomar a capacidade artística como elemento de valor moral para nenhum de nossos ídolos. Se a música é um pequeno milagre, seus mensageiros não são santos.

Cena do filme O maestro e o monstro, dirigido por Rouben Mamoulian (1931).

Virando o caso de cabeça para baixo, podemos encontrar talvez as melhores lições. Pois se até o molestamento ou assédio (sexual e moral) puderam ser eventualmente protegidos pelo silêncio, talvez o grande público possa entender, por indução, o quanto de terrível pode estar envolvido na seleção e construção de algumas carreiras estelares da música clássica de nosso tempo…

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, doutorando em “Educação, Arte e História da Cultura” pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp

[1] Todo mundo sabe que a cena está morta
Mas haverá um metro na sua cama
Que desvelará
O que todo mundo sabe