Falando de Música – Perdas

Falando de Música – Perdas

Estado da Arte

08 Fevereiro 2018 | 10h53

por Leandro Oliveira

Três perdas enormes para o mundo da música clássica.


Na última quinta, o professor, tradutor, jornalista e crítico musical Lauro Machado Coelho faleceu. Lauro deixa a todos nós a extraordinária coleção “História da ópera”, em diversos volumes e livros sobre os compositores (Schostakovitch, Liszt, Bruckner ou Sibelius) além de volumes sobre poesia soviética. Como jornalista, Lauro desenvolveu importante trabalho no Jornal da Tarde, na Revista Época, na Revista Bravo, na Rádio Cultura FM e durante muitos anos foi crítico musical deste O Estado de S.Paulo.

Lauro Coelho, na redação do Estadão.

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Nesta quarta-feira (7) morreu em Porto Alegre, aos 94 anos, Eva Sopher. De origem judaica, Sopher emigrou da Alemanha para o Brasil em 1936. Estudou arte, desenho e escultura em São Paulo, antes de se mudar para Porto Alegre, onde promoveu a restauração do Theatro São Pedro que passou a administrar desde 1984, ficando conhecida como a “Guardiã do Theatro São Pedro.”

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Performer e artista visual, Raymond Gervais esteve envolvido, desde 1973, no mundo da música, reunindo artes visuais e música em instalações, vídeos e performances. Membro da Québec Phonothèque, anfitrião da CBC. Músico, organizaza concertos e compunha enquanto moderava oficinas e conferências. Foi um colecionador de música e objetos relacionados, recriando e criando histórias em analogias surpreendentes. Gervais faleceu ao final da primeira semana de janeiro.

Um vídeo de interesse e a transcrição do depoimento deixado pelo artista.

“É um verdadeiro mistério para mim, na verdade, esse vídeo. Todos os elementos da minha futura prática estão lá.

“Eu acho que este vídeo me provou que ‘Agora que você fez isso, continue. Você pode continuar. Por que você não continua?’

“A comunidade de artes visuais tem sido uma excelente casa para pessoas como eu. Se você não tem nada, você pode inventar um mundo, um singular universo poético e se juntar às pessoas. Sim, podemos fazê-lo com instalações que ocupam todo o espaço em performances com músicos, componentes de som, muita ação ou com quase nada.

“Eu estava interessado em todos os objetos de música que também são objetos visuais. Eu, no meu trabalho, usava o disco como um matéria prima; e a vitrola , como um instrumento de performance.

“Em geral, a tendência para mim agora é trabalhar o som silenciosamente. E, removendo o som, vemos melhor.

“Assistir é ver. Ouvir é fazer. Meu trabalho diz isso. Meu trabalho é uma maneira de encenar o olhar e ouvir.

“Para mim, um artista é um mundo. Depois de, não sei, alguns anos, a essencial entre os elementos deste mundo já estão lá. E um artista passa o resto de sua vida, ajustando, se desenvolvendo, avançando ainda mais. E, finalmente, todos os artistas, empurramos as coisas o mais que podemos. Mas, essencialmente, permanecemos trancados neste mundo, até que, ao final, morremos, alguém faz um círculo ao nosso redor e diz, ‘aqui está esse mundo’. Raymond Gervais, é isso. Acabou.”

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, doutorando em “Educação, Arte e História da Cultura” pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp.