Falando de Música – A música dos filmes de Stanley Kubrick

Falando de Música – A música dos filmes de Stanley Kubrick

O projeto da série de ensaios que tem início com a coluna de hoje é trazer à luz algumas leituras que o uso de certo repertório musical – sobretudo clássico, mas não só ele – acaba por permitir ao espectador culto quando diante de algumas cenas prosaicas ou monumentais do catálogo virtualmente inabarcável de treze filmes do diretor norte-americano.

Estado da Arte

03 Agosto 2017 | 14h30

Por Leandro Oliveira

A análise da seleção de músicas para os filmes de Stanley Kubrick está entre os desafios mais desconcertantes, entre tantos elementos desconcertantes, deste que é para muitos entre os cinéfilos o maior artista do século XX. Um diretor detalhista ao limite da neurose, é impossível imaginar que a trilha sonora de seus projetos tivesse algo de displicente – o que, pela cultura evidente do repertório selecionado, nos coloca o problema do quanto consciente poderia estar Kubrick da teia de informações que acaba por garantir, com sua música, a alguns de seus filmes mais sofisticados.

Mas o desafio, evidentemente, não é saber de suas intenções declaradas ou mitigadas; embora matéria de interesse, esse seria o ponto de investigação para historiadores dispostos a imiscuir-se no extraordinário Stanley Kubrick Archives – a coleção de documentos e fontes primárias várias, como cartas, entrevistas ou mesmo depoimentos de colaboradores, resultado da doação da família Kubrick de todo o arquivo pessoal do diretor a University of the Arts London. Provavelmente estará ali a documentação necessária para garantir uma série de relevantes informações sobre o modo de operação do diretor diante dos diversos elementos criativos que compõem seu trabalho de produção, assim como a definitiva observação do trato por parte do diretor, em sua obra, de muitos entre os ricos elementos intertextuais que compõem sua obra.
Nossa tarefa, no entanto, não lida com intencionalidades diretor mas com o efeito de sua obra.

O projeto da série de ensaios que tem início com a coluna de hoje é trazer à luz algumas leituras que o uso de certo repertório musical – sobretudo clássico, mas não só ele – acaba por permitir ao espectador culto quando diante de algumas cenas prosaicas ou monumentais do catálogo virtualmente inabarcável de treze filmes do diretor norte-americano. Não nos preocuparemos com uma apresentação em ordem cronológica – e deixaremos deliberadamente de lado os seus três primeiros curta-metragem. Ao final da série, imagino que teremos garantido ao leitor do blog algumas interpretações pertinentes, ou ao menos permitido explorações inquietantes de uma obra que deve ser estudada com todo cuidado pela academia e melhor divulgada entre o público não especialista.
Treze filmes em treze ensaios semanais – interrompidos, eventualmente, se alguma hecatombe musical ocorrer entretanto – é nossa tarefa. Que venham as horas, pois.

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Esta semana a Osesp apresenta os raríssimos “Fantasia para Saxofone e Orquestra” (1948) e o “Concerto para Harmônica e Orquestra” (1954) de Heitor Villa-Lobos. Trata-se de um repertório especialíssimo, raro nas salas de concerto de todo mundo – e, se me permitem a pilhéria, ainda mais raro no Brasil. Em parte, justificamos a escassez de suas performances pela qualidade de eventuais solistas (Villa contou com grandes instrumentistas de seu tempo, Marcel Mule e Jan Sebastian, na elaboração da obra); mas a pujança melódica e originalidade das peças permite dizer que sua ausência do repertório ordinário das salas de concertos nacionais é mais que injusta, criminosa.
Para aquecer os motores, e estimular a presença na Sala São Paulo esta semana, sugiro o vídeo de divulgação da Osesp, cujo roteiro foi feito por mim e narração da sempre dedicada Monica Waldvogel.

Leandro Oliveira é anfitrião do projeto Falando de Música da Osesp, e doutorando em Educação Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.