Existe uma literatura do choque migratório?

Existe uma literatura do choque migratório?

É possível forjar um só povo a partir de um mosaico de comunidades imigradas?

Estado da Arte

22 Dezembro 2017 | 15h30

por Rodrigo de Lemos

Com as ondas migratórias que se rompem em suas costas a partir da África e do Oriente, é comum na Europa o sentimento de que o continente atravessa uma crise civilizatória maior. Nada mais natural que logo surgisse uma literatura dedicada ao tema. Precisamos simbolizar uma realidade dolorosa para sofrê-la, e a literatura é um poderoso meio de a significarmos pelos esquemas afetivos do humor, da revolta, da melancolia.


Estamos assistindo à emergência de uma tal literatura? Algumas publicações podem sugerir que sim. O dramaturgo franco-romeno Matéi Visniec, com o senso do momento próprio ao jornalista que ele é junto à Radio France Internationale, fez do drama dos refugiados o assunto de Migraaantes Ou Tem Gente Demais Nessa Merda de Barco ou O Salão das Cercas e Muros (É Realizações), peça composta de esquetes que são como dramatizações das notícias penosas que o jornalista Visniec reporta no rádio pela manhã.

Cena de “Le Radeau de la Méduse” (A Jangada da Medusa) em produção do Théâtre national de Strasbourg (Foto: Divulgação).

Não há ação propriamente dita, nem personagens, apenas seres tipificados, perdidos em situações irracionais que os ultrapassam e que formam, como um mosaico, um panorama trágico e farsesco da Europa contemporânea sob o impacto das grandes migrações. Visniec consegue extrair comicidade, enternecimento e indignação dessa matéria ingrata, e sua sensibilidade ao absurdo das circunstâncias remete à de seu mestre e conterrâneo romeno (também exilado na França) Eugène Ionesco, sobretudo a suas peças políticas.

Algumas situações dramáticas são razoavelmente realistas na sua crueldade, como as que envolvem o migrante Elihu e o Homem da Maleta. Este último, traficante de órgãos, assedia-o várias vezes no decorrer da peça na tentativa de convencê-lo a trocar um olho, um rim pela entrada na Terra Prometida que se estende para além do Mediterrâneo. Não é preciso muito esforço imaginativo para compreender que esse tipo de situação deve ser por demais comum entre os deserdados vindos da Síria ou do Norte da África. Em outros momentos, Visniec carrega nas tintas da absurdidade, como nas feiras onde apresentadores sumariamente vestidos promovem produtos de última necessidade aos novos tempos: detectores dos batimentos cardíacos de clandestinos, arames farpados “mais humanos”, com design…

É assim também, por exemplo, na cena em que um hábil Assessor aconselha o Presidente a adulterar, à força de edulcorações e de subterfúgios, um discurso sobre imigração pretensamente severo e que acaba por dizer o contrário do seu propósito inicial. Significativamente, um dos conselhos é que se substitua o termo “imigrante” por “migrante”:

Para ser coerente com a sua visão econômica, é preciso esquecer as palavras ‘imigrante’ e ‘clandestino’. ‘Imigrante’ é alguém que vem de fora, atravessa uma fronteira e se instala num território, onde é preciso respeitar os costumes, as regras e as leis locais. . . . Já o ‘migrante’ está na casa dele em qualquer lugar, no planeta inteiro. Num mundo globalizado, migra-se, desloca-se, todo mundo tem o direito de ir aonde quiser e quando quiser… E assim o migrante fica sem a obrigação de respeitar o que quer que seja, porque ele se considera um cidadão do mundo.

O Presidente, representante das elites liberais, balbucia diante da lógica férrea do raciocínio, exprime ainda alguma resistência e acaba acatando… Visniec distingue, no seio das democracias europeias, aquelas trucagens na linguagem política que lembram a langue de bois da Romênia comunista da sua juventude, e os exageros nas suas peças surgem para denunciá-las.

De resto, é como se o Assessor tivesse lido as análises do ensaísta Alain Finkielkraut sobre a globalização – a constatação é semelhante, mas Finkielkraut substitui ao cinismo do político o pessimismo nostálgico do homem de letras, consciente das derivas que as políticas migratórias europeias suscitaram a longo prazo. O escritor desenvolveu suas críticas ao multiculturalismo num ensaio chamado A identidade envergonhada. Lançado na França em 2013, o livro esteve no centro de uma daquelas numerosas polêmicas que se alastram pela opinião pública francesa a cada duas semanas. Há chances de o texto de Finkielkraut integrar a literatura e mostrar  interesse para além do calor da controvérsia, seja pela qualidade de sua linguagem, seja pela abrangência das questões tratadas.

Finkielkraut é alinhado pela imprensa progressista francesa e anglo-saxã aos nouveaux réactionnaires, ao lado de um Éric Zemmour e de um Michel Houellebecq. A xenofobia associada frequentemente ao rótulo parece longe, entretanto, de marcar seu pensamento. Os migrantes eles mesmos são o menor dos problemas para Finkielkraut, ele próprio filho de judeus poloneses refugiados e membro ativo da geração 68 que forjou o sonho do sem-fronteirismo.

Sua abordagem do problema privilegia o outro polo do movimento migratório: a terra de acolhida – a Europa e, em especial, a França. Como puderam as nações europeias verem sua coesão social e seu senso de um destino partilhado vergarem sob o peso dos recém-chegados? Na raiz dessa fragilidade, a tripla crise que as acometeu – crise da educação, crise da cultura, crise da identidade nacional (a identidade envergonhada do título, malheureuse no original).

A escola teria deixado de se constituir como um santuário em que os recém-chegados ao mundo receberiam o conhecimento acumulado das gerações que os precederam (noção que Finkielkraut retoma de Hannah Arendt); ela teria se tornado mais um espaço imerso no eterno presente, hiperconectado como outros tantos. A cultura artística e literária, denunciada por Bourdieu como apanágio da burguesia na sua corrida pela distinção, teria cedido lugar aos divertimentos da indústria cultural, mesmo e sobretudo nos hábitos dos abastados; a cultura no sentido forte teria se diluído no tout culturel: rock, videogames, gibis… O sentimento de culpa pelo colonialismo e pelo holocausto teria conduzido os europeus a uma utopia de total autodescentramento, exemplificada na proposição de Habermas de uma Europa asseptizada quanto a seus traços identitários, aberta a qualquer um que faça sua adesão a princípios basilares. Com essa tripla crise, foram os mecanismos de transmissão cultural que entraram em falência.

Essa nova situação não faz apenas muito da crítica contracultural dos anos 60 parecer subitamente datada. Não surpreende que seja cada vez mais difícil integrar populações imigradas. Integrá-las a quê? O fracasso da transmissão é o fracasso da integração, e o resultado desse fracasso é o despedaçamento da nação em comunidades.

É natural que uma parte dessa literatura do choque migratório venha da França. O mal-estar francês com a globalização já faz data e atualmente está na ponta-de-lança de um mal-estar global. O ideal pós-revolucionário do país sempre foi internacionalista, mas tinha por veículos o universalismo político (pela expansão dos princípios republicanos), a irradiação do Iluminismo e a disseminação da laicidade. Ora, a globalização dos anos 80 elegeu como meios principais o comércio e a finança; a cultura universal deu lugar à indústria do entretenimento em escala planetária, e a explosão de grandes religiões descentralizadas (o Islã, os evangelismos) fazem hoje uma concorrência feroz ao secularismo em países tão diversos quanto a Turquia e os Estados Unidos.

A imigração veio somar-se a esse incômodo: o conceito de nação democrática moderna, de que a França foi dos primeiros exemplos, baseia-se na confluência entre um território, um governo e um povo, do qual emerge a soberania. A chegada de novas populações de fundo civilizacional tão diverso do ocidental deixa pergunta: é possível forjar um só povo a partir de um mosaico de comunidades imigradas? É a partir dessa angústia fundamental que autores como Visniec e Finkielkraut, ambos migrantes excelentemente integrados, estão se debruçando sobre a França e sobre a Europa que se descortinam.

Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.

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