Especial Polônia: Miłosz entre as ruínas

Especial Polônia: Miłosz entre as ruínas

Estado da Arte

11 Outubro 2017 | 02h35

 

Dando continuidade ao especial Estado da Arte dedicado à cultura, à história e à política na Polônia, publicamos esta resenha de David Pryce-Jones na revista americana The New Criterion sobre a mais recente biografia do poeta Czesław Miłosz, prêmio Nobel de Literatura.   

Uma resenha sobre Miłosz: A Biography, de Andrzej Franaszek


Por David Pryce-Jones

(Tradução de Ana Beatriz Fiori)

Nascido em 1911, na Lituânia, um grão-ducado anexado ao Império Russo nessa época, Czesław Miłosz começou sua vida como súdito do czar.  De menor nobreza, sua família era de religião católica e nacionalidade polonesa. Szetejnie, o solar onde morava, fora construído no século XVIII e ampliado posteriormente. Depois de adulto, Czesław contava do quanto lhe entediavam seus vizinhos monótonos, cujas conversas se restringiam a brasões de armas, imóveis e árvores genealógicas, mas muitos dos seus poemas apresentam uma persistente nostalgia de Szetejnie, das florestas e do rio de sua paisagem rural.

Miłosz: A Biography mostra como um indivíduo em um lugar como aquele e em uma época como aquela precisava acompanhar o ritmo da História. No início da Primeira Guerra Mundial, o pai de Czesław, um engenheiro com inclinações para proprietário rural, foi recrutado pelo exército russo. Porém, com a caótica transformação da Rússia czarista em União Soviética, a Lituânia ficou independente. A família se mudou para uma bela cidade histórica chamada Vilnius (Wilno, em polonês) onde havia universidade, jesuítas, acadêmicos judeus e príncipes da família Radziwiłł em seu palácio. Uma pessoa que cresceu com Czesław contou que ele tinha uma intuição extraordinária. Com pouco mais de vinte anos, ainda estudante, enviou seus poemas para Jarosław Iwaszkiewicz, um poeta famoso na Polônia que sempre havia levado a poesia a sério. No início da contínua correspondência que se seguiria entre os dois, Czesław confessou que se sentia “enfiado até o pescoço na atmosfera da tediosa Wilno” e ainda declarou “a necessidade acender minha pobre alma adormecida”.

Em outubro de 1934, já impaciente, Czesław tomou um rumo muito apropriado: Paris. Seu tio Oscar Miłosz havia conseguido uma vida bem-sucedida morando lá. Esteta, poeta e dramaturgo, ele escrevia em francês e conhecia figuras ilustres como Oscar Wilde e Maurice Maeterlinck. Também pressentiu os rastros dos tanques cruzando a planície Mazoviana, e morreu assim que isso se tornou realidade. Imitando seu exemplo, Czesław chegou perto de se reinventar como intelectual francês, um humanista católico e filósofo nas linhas de Jacques Maritain. Porém, de dezembro de 1935 até o início da guerra, ele acabou se fixando em Varsóvia. Lá, conheceu Janka, uma mulher descrita como bela, inteligente, dominadora e apavorada pela energia vulcânica de Czesław, além de ser casada com outro homem. Os dois passariam quase meio século juntos, segundo as palavras um tanto forçadas desta biografia ao descrever seu relacionamento. Ao retornar para a Polônia, Czesław não sabia que estava optando por ser uma vítima, não um exilado.

Andrzej Franaszek é professor de literatura polonesa na Cracóvia e admira Miłosz incondicionalmente. No começo e no fim de sua nova biografia, ele repete, com inteira aprovação, a opinião de Joseph Brodsky, outro excelente poeta, segundo a qual Miłosz teria sido o maior poeta vivo de sua época. Sob esse ponto de vista, sua poesia transcende o material, atingindo o espiritual, o universal. Um número enorme de páginas dessa biografia traz seus versos ou poemas inteiros, e Franaszek demonstra um ótimo desempenho acadêmico ao relacionar essas palavras ao que Miłosz estava fazendo ou pensando enquanto escrevia. Além de utilizar fontes secundárias, o autor também extraiu materiais não publicados de arquivos relevantes, em sua maioria poloneses. Aliás, vale mencionar que Franaszek se refere a dezenas de intelectuais poloneses como se fossem de conhecimento geral, sendo que seus trabalhos, e até mesmo seus nomes, muitas vezes são conhecidos apenas por especialistas como ele. Às vezes, sua admiração por Miłosz como poeta cria uma “névoa púrpura” em sua prosa. Por exemplo, outra pessoa com que Miłosz se correspondia regularmente era Stanisław Vincenz, um intelectual extremamente erudito, cuja influência o teria feito “experimentar o mundo com os pés e as mãos, saboreando as coisas, assimilando com humildade suas formas ilimitadas” e que, assim, o teria “afastado da loucura humana e dos murmúrios do demônio”.  Franaszek reconhece que, na maioria das vezes, Miłosz falava de si como decepcionado e deprimido, mas se isso era um Weltschmerz à la Werther, uma ambição frustrada ou pura afetação, permanece em aberto. Ele também passa metade de um parágrafo inexpressivo tratando como relativamente normal o momento em que Miłosz tomou uma boa quantidade de vodca, carregou um revólver com uma única bala e brincou de roleta russa. Graham Greene, uma figura não muito diferente, também se rendeu a essa forma particular de niilismo – ou seria vaidade? Mas de modo geral, e apesar disso, é um livro formidável.

Nos anos que precederam a guerra, Miłosz foi um “companheiro de viagem” comunista como tantos outros, conhecidos pelos anticomunistas como poputchik, um termo pejorativo para quem seguia as instruções soviéticas espontaneamente, seja lá quais fossem. Em outro eufemismo forçado do livro, Miłosz “às vezes se via influenciado pela emoção coletiva do momento”. De acordo com a ideologia marxista, a História – e, portanto, o progresso – é determinada por algo conhecido como materialismo dialético. Como muitos outros “companheiros de viagem”, Miłosz parece ter se esforçado para extrair um sentido inteligível dessa abstração. Enquanto isso, a ditadura esclarecida deveria liderar o povo, mesmo contra a sua vontade, rumo a um maravilhoso amanhã. Impedir esse ideal era coisa do nacionalismo polonês, dos frequentes tumultos antissemitas de Vilnius e das indesejadas distinções de classe – tudo isso um “disparate”, a palavra derrogatória favorita de Miłosz.

A invasão de Hitler na Polônia, Miłosz admitiria posteriormente, “nos libertou das mentiras, ilusões e subterfúgios autorreconfortantes”. Com a blitzkrieg alemã, no entanto, ele foi forçado a passar pela primeira de várias fugas extremamente arriscadas. A saída de Varsóvia pela única estrada disponível o levou à Romênia e à União Soviética. Certa vez, ao cruzar a fronteira, teve que comer seu passaporte lituano porque suas datas não correspondiam às dos outros documentos; em outra ocasião, levou um tapa na cara de um oficial da Gestapo. Em Native Realm, sua autobiografia, Miłosz descreve o momento dramático de quando, sentado em um café em Vilnius em junho de 1940, ouviu um súbito barulho de metal arranhando o asfalto, e então “assistiu aos enormes tanques empoeirados com suas pequenas torres, de onde os oficiais soviéticos abanavam amistosamente”. Os alemães estavam em Varsóvia, e os soviéticos, em Vilnius. O cerco estava fechado; não havia por onde sair.

Era preciso se posicionar diante das atrocidades evidentes e continuadas cometidas pelos nazistas. Os intelectuais poloneses, quase sem exceção, resistiram aos alemães, e muitos pagaram o preço com suas vidas. Miłosz se recusou a participar de sabotagens e propagandas porque, em parte, acreditava que tais atividades afetavam irresponsavelmente a vida de outras pessoas e, em parte, porque sua intuição era muito forte. Um padre católico que conheceu Miłosz na guerra registrou o poeta defendendo com muita convicção que o seu dever era escrever, não lutar: “A possível perda de sua vida não valeria a pena, mas sua escrita era muito importante para o país”. Mais tarde, entre os críticos que o acusaram de pacifismo e falta de nacionalismo, estava Zbigniew Herbert, que havia sido voluntário pelo Armia Krajowa (“exército nacional”, movimento de resistência polonês) e que era, no mínimo, tão bom quanto Miłosz como poeta.

Certa vez, Miłosz viu um casal de judeus com um carrinho de bebê passeando perto de sua casa quando a Gestapo chegou, prendeu o homem e matou a mulher, que saíra gritando pela rua “Não! Não! Não!”. Outra vez, em uma bela e calma noite em 1943, o Gueto de Varsóvia levantou-se em revolta e, da sacada de sua casa, Miłosz e Janka se arrepiaram ao ouvir os gritos de milhares de judeus sendo assassinados. Em agosto do ano seguinte, quando os dois caminhavam para uma parada do bonde, tiros de metralhadoras repentinamente marcaram o início do Levante de Varsóvia, um dos épicos mais corajosos e mais onerosos da guerra. Impossibilitados de voltar para casa, com a luta se tornando cada vez mais intensa, eles se esconderam em diversos prédios da melhor maneira que conseguiam. Os alemães, então, os capturaram e internaram em um campo de transição, de onde certamente seriam deportados. Czesław conseguiu enviar clandestinamente um pedido de ajuda e, em Native Realm, relembra que uma “enfermeira majestosa” os resgatou fingindo ser uma tia. “Eu não a conhecia e nunca mais a vi. Também nunca soube seu nome.”

A sovietização da Polônia estava fadada a ser repleta de escolhas morais que levariam à recompensa ou à punição, possivelmente o campo de concentração e a morte. Logo no início de 1945, Miłosz entrou para a União dos Escritores Soviéticos, instrumento usado pelo Partido Comunista para direcionar e controlar a opinião pública. Franaszek faz a clássica defesa de que “era crucial para Miłosz manter uma posição ativa no campo literário”. Ele depois se candidataria a um emprego no Ministério das Relações Exteriores da Polônia, já comprometido em divulgar a ideologia do Partido. Franaszek se desculpa por isso também, explicando que era uma passagem para a deserção: “Parece muito provável que a ânsia de Miłosz por obter um cargo diplomático foi motivada por um desejo de poder se manter no Ocidente”. Assim que chegou ao Ocidente, o próprio Miłosz observou que “tudo o que eu queria era sair de lá e ver o que iria acontecer depois”, aceitando que isso o levou a fazer “um pacto com o diabo”. Para outro escritor polonês, Melchior Wankowicz, que havia questionado seus motivos e sua moralidade, ele foi direto: “Você me pergunta se eu acreditava ou não. Não no stalinismo. Mas, claro, eu acreditava. …Eu sou definitivamente e irrevogavelmente contra essa nova fé. É uma grande ameaça para a humanidade, porque o materialismo dialético é uma mentira”.

Servindo de 1946 a 1949 no Consulado Polonês em Nova York e, depois, na Embaixada, em Washington, Miłosz pôde se aproximar de americanos notáveis como Dwight Macdonald e outros colaboradores da Partisan Review, como James Burnham, Robert Lowell e Thornton Wilder: gente que se interessava em discutir sua liberdade e suas restrições como oficial em um país comunista. Mas o início da Guerra Fria acabaria com os artifícios. A Nomenklatura, em Varsóvia, suspeitava de sua deserção, então confiscou seu passaporte e, depois, o transferiu para a Embaixada de Paris. Janka, com medo de que a França não fosse segura e que os soviéticos lhe fizessem algum mal, recusou-se a deixar os Estados Unidos. Indignados com o fato de que um homem dessa posição estivesse colaborando com os comunistas, outros poloneses que haviam emigrado para os Estados Unidos denunciaram Miłosz. Ao tomar conhecimento disso, as autoridades americanas o proibiram de retornar ao país. Assim, os burocratas efetivamente separaram Miłosz e Janka. Ele caíra em outra armadilha.

Anos depois, uma amiga sua, Natalia Modzelewska, publicou uma recordação sobre Miłosz sozinho em Paris: “Ele se tornou mentalmente instável e sofria com crises depressivas, que gradualmente pioraram. Eu o encontrava todo dia, porque ele me ligava todo dia e, pela voz, era fácil saber quando estava prestes a ter um colapso nervoso”. Seu amigo erudito, Stanisław Vincenz, tinha uma lembrança ainda mais grave de terem se encontrado em um café que Miłosz costumava frequentar no Quartier Latin e pensar que ele cometeria suicídio naquele mesmo dia.

Miłosz desertou para o Ocidente em 1951, mesmo ano em que Guy Burgess e Donald Maclean desertaram para Moscou. Para o público em geral, um poeta polonês mais ou menos desconhecido e dois pilares do establishment britânico personificavam a principal questão do início da Guerra Fria: à luz do comunismo como era praticado pelos comissários políticos e o Exército Vermelho, por que algumas pessoas se recusavam a ter qualquer relação com ele enquanto outras acreditavam nele incondicionalmente? O encontro entre o totalitarismo e a natureza humana precisava ser explorado. A CIA, então, financiou o Congresso pela Liberdade da Cultura – na verdade, uma agência do governo cujo principal objetivo era convidar políticos, historiadores e analistas para discutir, em conferências ou na mídia, qual era exatamente o fator atrativo do comunismo e como a democracia poderia superá-lo.

A terrível Susan Sontag e um grupo de esquerdistas britânicos não gostaram quando falei mal do socialismo. Um deles falou, no maior estilo poputchik, que se a União Soviética tinha Stálin, a Grã-Bretanha tinha Margaret Thatcher. Miłosz atravessou a sala e me disse em voz alta para que os outros ouvissem: “Não sinto nada mais que desprezo por essas pessoas”.

Ao escreverem a partir de suas experiências pessoais com o fenômeno totalitário, Raymond Aron, Hannah Arendt, Victor Serge, Gustav Herling, Primo Levi e Arthur Koestler deixaram uma literatura especial para o século XX. Czesław Miłosz também faz parte dessa elite. Publicado em 1954, Mente Cativa é parte livro de memórias, parte uma investigação sobre o comportamento condicionado pelo comunismo. O Partido tem o poder de fazer o que quiser, e cada indivíduo deve fazer o que puder com isso. Para proteger sua identidade, Miłosz faz relatos superficiais e levemente ficcionais dos amigos e colegas que representavam todos os “porquês” e “comos” do comunismo. A racionalização da moral é o resultado inevitável. A ideologia comunista descobriu como demonstrar traços negativos de caráter, como a ambição, a ganância e a cobiça pelo poder, como positivos, e a hipocrisia, assim, passou a ser virtude.

Esse livro brilhante, é claro, destruiu a percepção que os poloneses emigrados tinham de que Miłosz era um “vermelho” que deveria ser afastado a todo custo. Ele finalmente conseguiu seu visto para entrar nos Estados Unidos e aceitou a proposta para ensinar literatura polonesa em Berkeley. Em 1980, recebeu o prêmio Nobel, mas sua vida difícil ainda não chegaria a um final feliz: Janka morreria de uma doença do neurônio motor. Quando o conheci, em uma conferência em Budapeste em 1989, época em que bloco soviético desmoronava, ele havia se tornado um senhor de respeito, bonito, íntegro e bem vestido, assim como teria sido se tivesse passado sua vida em Szetejnie sob comando do czar. A terrível Susan Sontag e um grupo de esquerdistas britânicos não gostaram quando falei mal do socialismo. Um deles falou, no maior estilo poputchik, que se a União Soviética tinha Stálin, a Grã-Bretanha tinha Margaret Thatcher. Miłosz atravessou a sala e me disse em voz alta para que os outros ouvissem: “Não sinto nada mais que desprezo por essas pessoas”.

A última coisa que Miłosz escreveu foi uma solicitação ao Papa João Paulo II: “Nos últimos anos, escrevi poemas nos quais conscientemente aderi à ortodoxia católica, mas não estou certo de que fui bem-sucedido nisso. Assim, peço suas palavras para que confirme minha busca do nosso objetivo comum”. O Papa respondeu, “é um prazer confirmar suas palavras sobre a ‘busca do nosso objetivo comum’”. Ela pode servir como mensagem de Miłosz para a posteridade. Após retornar à Cracóvia, morreu no ano de 2004, já cidadão americano.

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