Especial Benedetto Croce – A ‘Estética como Ciência da Expressão e Linguística Geral’

Especial Benedetto Croce – A ‘Estética como Ciência da Expressão e Linguística Geral’

Estado da Arte

01 Outubro 2016 | 08h00

Estado da Arte tem o prazer de abrir o especial Benedetto Croce (1866-1952) nestes 150 anos de seu nascimento com a publicação exclusiva de trechos da tradução de sua Estética.

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O filósofo italiano Benedetto Croce. (Foto: arquivo/divulgação)

Historiador, crítico literário e das artes, liderança política e, sobretudo, filósofo, Croce foi a figura intelectual de maior destaque na Itália da primeira metade do século XX. Autor de uma obra vasta e complexa que vai da história política e econômica à filosofia da arte, Croce exerceu grande influência no pensamento estético de tradições tão díspares como a filosofia analítica da arte nos Estados Unidos e a crítica literária brasileira de meados dos novecentos. As livrarias brasileiras receberam recentemente uma de suas obras-primas, a Estética como Ciência da Expressão e Linguística Geral (1902), que ganha tradução cuidadosa em edição caprichada da É Realizações Editora.

Para celebrar os 150 anos de nascimento do autor, o Estado da Arte publica com exclusividade trechos desta obra decisiva para os estudos de filosofia da arte.

Estética como Ciência da Expressão e Linguística Geral

(Tradução de Omayr José de Moraes Jr. É Realizações).

I. Intuição e expressão (Do Capítulo 1)

Duas formas tem o conhecimento: conhecimento intuitivo ou conhecimento lógico; conhecimento pela imaginação ou conhecimento pelo intelecto; conhecimento do individual ou do universal; conhecimento das coisas singulares ou das relações entre elas: em suma, conhecimento que produz imagens ou que produz conceitos.

No dia a dia, continuamente, faz-se apelo ao conhecimento intuitivo. Diz-se que não é possível dar a definição de certas verdades; que elas não são demonstráveis por silogismos; que convém aprendê-las intuitivamente. O político critica o pensador abstrato, que não possui a intuição viva das condições reais; o pedagogo insiste na necessidade de desenvolver, antes de tudo, a faculdade intuitiva; ante uma obra de arte, o crítico considera um ponto de honra deixar de lado as teorias e as abstrações a fim de julgá-las por intuição direta; enfim, o homem prático professa viver mais de intuições que de raciocínios.

Mas a esse amplo reconhecimento concedido ao conhecimento intuitivo na vida comum, não corresponde um igual e adequado reconhecimento no campo da teoria e da filosofia. Do conhecimento intelectual há uma ciência muito antiga, admitida sem discussão por todos, a saber, a lógica; mas poucos admitem, e timidamente, que haja alguma ciência do conhecimento intuitivo. O conhecimento lógico apropriou-se da melhor parte; e, quando não devora de imediato o seu companheiro, cede-lhe apenas o lugar humilde de empregado ou de porteiro. – O que seria do conhecimento intuitivo sem o lume do conhecimento intelectual? É um empregado sem patrão; e, embora o empregado seja útil ao patrão, para o empregado o patrão é uma necessidade, já que ele é quem lhe garante o ganha-pão. A intuição é cega; o intelecto lhe empresta seus olhos.

Ora, o primeiro ponto que deve estar bem estabelecido na mente é que o conhecimento intuitivo não precisa de um patrão; nem tem necessidade de se apoiar em nada; não precisa pedir emprestados os olhos dos outros, pois tem olhos próprios, excelentes. E se é indiscutível que em muitas intuições podem-se encontrar conceitos misturados, em outras não há qualquer vestígio de tal mistura, o que vem a provar que ela não é necessária. A impressão de um luar, retratado por um pintor; o contorno de um país, delineado por um cartógrafo; um tema musical, suave ou enérgico; as palavras de uma lírica suspirante, ou aquelas com as quais pedimos, mandamos, e nos lamentamos na vida diária, podem muito bem ser todos fatos intuitivos sem sombra de referências intelectuais. Seja o que for que se pense desses exemplos, e admitindo também que se queira e deva sustentar que a maior parte das intuições do homem civilizado estão impregnadas de conceitos, resta algo ainda mais importante e conclusivo a ser observado. Os conceitos que se acham mesclados e fundidos nas intuições, na medida em que estão realmente mesclados e fundidos, deixam de ser conceitos, pois perderam toda a sua independência e autonomia. Eles foram conceitos, mas por ora tornaram-se simples elementos de intuição. As máximas filosóficas, postas na boca de um personagem de tragédia ou de comédia, realizam aí a função, não de conceitos, mas de características daqueles personagens; da mesma maneira como, em uma figura pintada, o vermelho não está como conceito da cor vermelha dos físicos, mas como elemento caracterizante daquela figura. O todo determina a qualidade das partes. Uma obra de arte pode estar cheia de conceitos filosóficos, pode tê-los em maior abundância, e mesmo de modo mais profundo do que em uma dissertação filosófica, a qual, por sua vez, poderá ser rica e transbordante de descrições e intuições. Mas, apesar de todos esses conceitos, o efeito total da obra de arte é uma intuição; e, apesar de todas essas intuições, o efeito total da dissertação filosófica é um conceito. Os Esposos Prometidos [de Alessandro Manzoni] contém copiosas observações e distinções éticas, mas nem por isso perde, em seu conjunto, sua característica de simples romance ou de intuição. De maneira semelhante, as anedotas e efusões satíricas que podem ser encontradas nos livros de um filósofo como Schopenhauer, não privam essas obras de seu caráter de tratados intelectuais. A diferença entre um trabalho científico e uma obra de arte, isto é, entre um ato intelectivo e um ato intuitivo, está no resultado, no distinto efeito total pretendido em cada uma delas, e tal resultado determina as partes desse conjunto, e não apenas as partes separadas e consideradas abstratamente em si mesmas.

No entanto, para se ter uma ideia verdadeira e exata da intuição, não basta reconhecê-la como independente do conceito. Dentre os que assim pensam ou que ao menos não fazem com que a intuição dependa explicitamente da intelecção, surge outro erro que ofusca e confunde a sua própria índole. Por intuição, frequentemente se entende a percepção, ou o conhecimento da realidade, a apreensão de algo enquanto real.

Certamente, a percepção é intuição: as percepções da sala em que estou escrevendo, do tinteiro e do papel que estão diante de mim, da pena de que me sirvo, dos objetos que toco e faço uso como instrumentos de minha pessoa, a qual, se escreve, portanto, existe, são todas intuições. Da mesma maneira, porém, a imagem, que agora me passa pela cabeça, de um eu que escreve em outra sala, em outra cidade, com outro papel, pena e tinta, também é intuição. Isso quer dizer que a distinção entre realidade e não realidade é estranha e secundária à verdadeira índole da intuição. Supondo uma mente humana que intui pela primeira vez, parece que ela não pode intuir senão a realidade efetiva, tendo, portanto, apenas intuições do real. Mas já que o conhecimento da realidade baseia-se na distinção entre imagens reais e imagens irreais, e uma vez que tal distinção não existe no primeiro momento, essas intuições não seriam, em verdade, intuições do real nem do irreal, não seriam percepções, mas puras intuições. Onde tudo é real, nada é real. Certa ideia, bastante vaga e bem de longe aproximativa desse estado ingênuo, pode ser encontrada na criança, com a sua dificuldade de distinguir o real do imaginário, a estória da fábula, que para ela são uma coisa só. A intuição é a unidade indiferenciada da percepção do real e da imagem simples do possível. Nas intuições, não nos contrapomos, enquanto seres empíricos, à realidade externa, mas simplesmente objetivamos nossas impressões, sejam quais forem.

Leia mais fragmentos da Estética de Croce no Teatro do Mundo, que compõe a plataforma multimídia integrada de cultura, educação e debate de ideias do Estado da Arte.