Bolívar Lamounier: “O que no Brasil se costuma chamar de liberalismo é apenas bom senso”.

Bolívar Lamounier: “O que no Brasil se costuma chamar de liberalismo é apenas bom senso”.

Estado da Arte

03 Outubro 2016 | 16h35

O cientista político Bolívar Lamounier fala ao Estado da Arte sobre o resultado das eleições municipais de 2016.

O Partido dos Trabalhadores viu seu eleitorado ser reduzido dramaticamente. Que lições o senhor acredita que o partido será capaz de tirar desse resultado?


Que lições “será capaz” de tirar, não sei. Nisso o PT nunca foi muito bom.  As lições que “deveria” tirar são muitas, vou mencionar só três. Primeiro, se renovar drasticamente. Ele sempre foi e continua a ser um partido caudilhesco, quero dizer, obediente a um chefe: Lula. Lula nunca abriu espaço para a ascensão de outro nome, temendo que se tornasse um rival. Admitiu apenas “postes” como Dilma Rousseff e Haddad.  O resultado é a simbiose que conhecemos: o PT não existe sem Lula, Lula não existe sem o PT. Segundo, deixar de lado sua ideologia dinossáurica, se é que a mescla do culto populista a Lula com o paternalismo como princípio de política social e o antiliberalismo econômico  merece ser chamada de ideologia. Terceiro, esclarecer de uma vez por todas se aceita a democracia representativa ou se vai prosseguir tergiversando quanto a este ponto, com um pé dentro e outro fora do sistema, ora se apresentando como quase revolucionário, ora como o mais manso dos cordeiros.

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O cientista político Bolívar Lamounier: “PT sempre foi e continua a ser partido caudilhesco”. (Foto: divulgação/ Augurium Consultoria).

A campanha de João Doria (PSDB) em São Paulo esteve muito associada a posições liberais: empreendedorismo, desburocratização, privatizações, organizações sociais, etc. No entanto, setores não desprezíveis do PSDB paulista rechaçaram a candidatura de Doria e sua plataforma. Para onde vai o PSDB paulista?

O que no Brasil se costuma chamar de “liberalismo” é apenas bom senso. Quem discorda de tais posições deve necessariamente abraçar uma visão estatizante como a da Dilma Rousseff, cujos resultados estão aí à mostra. Sem  uma participação muito maior do setor privado na economia, o país jamais absorverá sua massa de desempregados e semi-empregados e jamais criará uma verdadeira classe média. Não preciso lembrar que a “nova classe média” inventada por Lula e Dilma foi apenas uma brincadeira de mau gosto.

O atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), foi derrotado em todas as zonas eleitorais da cidade e fez uma votação pouco expressiva (pouco mais de 16 por cento). Há chances de que se torne uma voz ativa e influente nacionalmente, como querem setores que insistem na renovação dos quadros petistas?

Não vejo como, mas política é política. Já vi muita coisa estranha acontecer.

Sem  uma participação muito maior do setor privado na economia, o país jamais absorverá sua massa de desempregados e semi-empregados e jamais criará uma verdadeira classe média.

Haddad errou ao não se dissociar de Lula e da cúpula petista envolvida diretamente nos escândalos de corrupção investigados pela Lava Jato?

Não tinha como se dissociar de Lula e do PT. Se faturou a proximidade enquanto ela era rentável, tinha que conservá-la em alguma medida. Engana-se quem diz que o eleitor brasileiro tem memória curta. Só meia dúzia de gatos pingados esqueceu o desastre econômico que o PT provocou e a ampla maioria que detém na  fila de investigados pela Justiça.

Lideranças políticas derrotadas, especialmente à esquerda no espectro ideológico, estão insistindo em uma tecla: os altos índices de abstenção e de votos nulos e brancos. Esses índices são significativos para avaliar a legitimidade de a representatividade dos candidatos eleitos ou que passaram para o segundo turno?

Como toda reviravolta eleitoral, a de ontem teve duas faces. De um lado, muita gente desencantada, sem ânimo até para votar contra o status quo.  Do outro, a ampla maioria que usou o voto como arma. Basta observar que centenas de milhares de eleitores – talvez metade deles – esperaram até a última hora para saber quem teria melhores condições de derrotar Lula e o PT. Foi na véspera – nos últimos três dias da campanha- que adotaram Dória, daí sua fulminante ascensão.

O PSOL, que foi ao segundo turno no Rio de Janeiro com Marcelo Freixo, apresenta alguma novidade no ideário e nas práticas políticas da esquerda latino-americana?

A única novidade que micropartidos de esquerda podem representar é serem ainda mais arcaicos que os de alguns anos atrás. Não percebem que política se faz somando, não subtraindo. E que para somar é preciso ter um pensamento atual e denso, não  meros respingos do século 19.

Por que a Rede, de Marina Silva, que se apresentava como uma força nova na política, teve um desempenho tão fraco?

Porque não é uma força nova na política. Marina é outro exemplo do que disse na resposta anterior: acha que política se faz subtraindo, se apresentando como ungida por alguma divindade, capaz de conhecer o país e de mudá-lo, ao contrário do que todos os outros. Todo mundo sabe que futebol é futebol-association, mas esse tipo de político ideologizado não entende que a política também o é.