Diário de um tradutor em São Petersburgo 7 – Dostoiévski, Tchaikovsky e Rasputin

Diário de um tradutor em São Petersburgo 7 – Dostoiévski, Tchaikovsky e Rasputin

23 a 25 de março de 2018.

Estado da Arte

28 Março 2018 | 11h00

por Flavio Quintale

Chego à Praça Sennay. Muita movimentação. Pessoas, carros, ônibus. Gente entrando no metrô. Já não é a mesma dos tempos de Dostoiévski. Para imaginar como teria sido é preciso ler Crime e Castigo. Caminho pela rua Sadovaya e logo entro à direita na rua Stolyarnuya, onde está o apartamento em que Dostoiévski escreveu o romance. Uma quadra adiante, no cruzamento com a rua Grazdanskaya, está o prédio onde, no romance, viveu Raskólnikov num quarto no último andar. Uma placa homenageia o famoso personagem. Poucos metros dali tem-se o prédio onde teria vivido a personagem Sônia. Eles são tão vivos na obra que se tornaram imortais. Mais celebrados e lembrados do que a grande maioria dos seres vivos. Um dia eles morrem e, esquecidos, não sobrevivem na memória por mais do que uma ou, com sorte, duas gerações. Fiz o percurso de Raskólnikov até chegar ao apartamento da anciã agiota no cais do canal Griboiedov. Com o machado na mão, depois de muito transtorno, Raskólnikov cometeria o crime. Crime e Castigo é uma obra-prima. Mas ele escreveu outras, como Os demônios e Os irmãos Karamazov, apenas para encurtar a lista. Entre 2003 e 2005 dei aulas no curso de direito da FMU. Adotei Crime e Castigo. Quando anunciei que trabalharíamos com esse livro em boa parte do curso, alguns alunos contestaram. “Para que serve o nosso manual de Sociologia do Direito se agora temos quer ler um romance?”. Pedi para eles mesmos responderem a essa pergunta depois de acompanharem as aulas e ler a obra. Por sorte, deram-me crédito. Um aluno organizou uma lista de encomendas e bateu na porta da Editora 34. Na aula seguinte, lá estavam as caixas repletas de Crime e Castigo. Alguns trechos do romance impressionam tanto, que no fim do mês já tinham alunos empolgados e alguns com má vontade ou falta de interesse resolveram ler também. Acompanhar a tormenta do indivíduo que está preste a cometer um crime e sua angústia após a execução, entre outras coisas, impressiona qualquer aluno de direito sério. Certamente ajuda a compreender a questão humana envolvida em processos penais complexos. No final do curso, ninguém lembrava mais do manual.

A algumas quadras da zona onde tramitava Raskólnikov, tem-se a Praça dos Pioneiros. Nesse lugar, em 22 de dezembro de 1849, Dostoiévski aguardava sua execução. Segundos antes, foi anunciada a mutação da pena para o exílio na Sibéria. Ele foi condenado à morte por ler publicamente a longa carta de Bielínski a Gogol, hoje um dos documentos mais importantes da história da cultura e da literatura russa. Na mesma praça está uma estátua de Griboiedov, autor contemporâneo de Púchkin. Sua peça Горе от ума, A infelicidade de ter demasiado espírito, provavelmente jamais publicada no Brasil, é um clássico da dramaturgia russa. Está constantemente em cartaz. O nome do canal Griboiedov é uma homenagem da cidade a ele.

Saindo da praça, caminha-se por duas longas quadras até se chegar diante da estação Vladimir do metrô, onde há uma estátua de Dostoiévski.  Entra-se na rua Kuzneknuy, anda-se uma quadra e lá está o museu Dostoiévski. Nesse apartamento ele escreveu Os irmão Karamazov e viveu até a morte. Jan Brokken dedica a ele um capítulo em O esplendor de São Petersburgo contando como a sua morte foi pequena para a grandiosidade de seu talento. Visita-se os cômodos do modesto apartamento. Móveis e objetos que pertenceram ao escritor, como sua biblioteca e escrivaninha.

Junto à Praça Santo Isaac está o célebre Hotel d’Angleterre. John Reed, famoso por seu Os dez dias que abalaram o mundo, estava hospedado nele quando os bolcheviques tomaram o poder. Não é longe do Palácio de Inverno. Mas o hotel ficaria marcado também porque em 1925 o poeta Esenin, marido de Isadora Duncan, suicidou-se no local, depois de escrever com sangue um verso de despedida. Há uma placa em homenagem ao poeta onde funciona um café e restaurante da rede счастье, “Felicidade”. Nome um tanto inadequado para o lugar. Uma das especialidades da casa é a salada Olivier, também conhecida no Brasil como salada russa. Nem todo russo entenderá se você pedir uma salada russa. Salada russa não há. É o que eu digo, se for… existe Olivier humano.

Outros lugares de São Petersburgo com histórias são o teatro Mariinsky e o Palácio Iusupov. O primeiro é o mais importante local de representações de óperas da cidade. Está muito associado a Tchaikovsky. Depois da estreia de A dama de espadas, Tchaikovsky estava convencido de que sua ópera havia sido um fiasco completo. Ao passar pela Catedral de Santo Isaac, ele cruzou com três jovens que cantavam um dueto da ópera. Parou e perguntou de onde eles conheciam aquela música. Eles eram os fundadores da revista Mir Iskusstva (Mundo da Arte). Elogiaram Tchaikovsky pelo êxito na tentativa de fazer renascer os ideais clássicos de São Petersburgo como capital do gosto e da cultura. Entretanto, Tchaikovsky não acreditou. Balançado a cabeça em sinal de reprovação, prosseguiu pelos últimos metros que faltavam até chegar em casa. O Palácio de Isupov, no cais do rio Moiki, é conhecido porque nele Rasputin passou as últimas horas de vida. Depois de envenenado na ceia, acreditava-se já estar morto. Ao tornar ao lugar do delito, o príncipe Félix Iusupov encontrou Rasputin ainda vivo. Os dois lutaram, mas Rasputin conseguiu fugir para o jardim. Seguido por outros conspiradores recebeu diversos tiros. Seu cadáver foi jogado no rio. Foi encontrado três dias depois junto a uma das pontes. Mas não ressuscitou. Viver é muito perigoso.

São Petersburgo é assim. Quando não tem mais nada para contar, tem ainda muitas coisas a contar…

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha. Atualmente, prepara a tradução de O esplendor de São Petersburgo de Jan Brokken para a Editora Âyiné.

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