Diário de um tradutor em São Petersburgo 6 – Akhmátova, Brodsky e Lênin.

Diário de um tradutor em São Petersburgo 6 – Akhmátova, Brodsky e Lênin.

19 a 22 de março de 2018.

Estado da Arte

23 Março 2018 | 13h26

por Flavio Quintale

Nenhum poeta do século XX está mais associado a São Petersburgo do que Ana Akhmátova. Jan Brokken dedica quatro capítulos a ela em seu livro O esplendor de São Petersburgo. E não apenas isso. Ela permeia o texto inteiro. É a linha condutura, figura primordial de sua narrativa. Não à toa, seu retrato de 1914, pintado por Natan Altman, tela exposta no Museu Russo, está na capa na edição holandesa.

A poesia de Akhmátova é pungente. Concilia força e beleza. Potência e elegâcia. Há quatro estátuas  da poeta espalhadas pela cidade. A mais bela e mais importante é a localizada entra o cais Robespierre e a rua Chilarnaia, bem próximo ao rio Neva. Do outro lado do rio está a antiga prisão Kresty, “cruz”, porque tem esse formato. O monumento foi estabelecido no local em 2016, por ocasião das comemorações do cinquentenário de sua morte. No poema Requiem (1935 – 1940), Akhmátova escreve  que se algum dia decidissem erguer um monumento a ela no país, ela estaria de acordo desde que fosse nesse lugar.  Não é, de maneira nenhuma, um capricho. Desse local avista-se a prisão onde o filho, Lev Gumilyov, esteve preso por motivos políticos durante o período stalinista. Por quase três anos, ela foi proibida de ver o filho e nem mesmo sabia se ele estava vivo ou não. Akhmátova já havia perdido o marido, o poeta Mikhail Gumilyov, executado em 1921 pela polícia secreta soviética, e temia que o filho tivesse o mesmo destino. É nesse contexto que deve ser lido e entendido o poema Requiem, um dos mais belos já escrito em língua russa.

Akhmátova não foi a única mãe angustiada em busca de informações sobre filhos encarcerados. Também por essa razão o poema teve impacto avassalador. Milhares de pessoas reconheciam o próprio desespero nos versos de Akhmátova. Muito dificil, conhecendo o contexto, não se emocionar com a leitura dessa obra-prima. A estátua esculpida por Galina Dodonova, em que Akhmátova olha para a prisão, com o corpo virando-se para o outro lado, é uma clara referência à mulher de Lot do Antigo Testamento. Esbelta, alta, delgada, a reconhecida elegência que fascinou Modigliani, Isaac Berlin e tantos homens de cultura, está bem representada na obra de Dodovana. Solitária, aproximo-me. Junto-me a ela. Ninguém nos incomoda. Olho para a prisão. Leio seus versos. Schopenhauer está certo: a arte é uma forma de ascese.  Lev sobrevieu à polícia stalinista. Tornou-se um importante historiador, antropológo e tradutor da língua persa. Faleceu em 1992.

Monumento a Ana Akhmátova. G. Dodonova, 2006.

No apartamento comuntário, Kommunalka, onde viveu Akhmátova há um museu, também conhecido como “Casa Fontanka”, dedicado a ela. Reproduz-se como teria sido a vida da poeta no local e como é a vida num apartamento comunitário. Existe ainda muita gente morando neles na Rússia. E provalvemente continuará a existir sempre. Cozinha, banheiro, sala, corredor. Tudo em comum, divido por pessoas que, na maioria dos casos, não se conheciam antes. Privado, apenas o quarto, mesmo para famílias. As paredes são finas. Escuta-se praticamente tudo o que acontece nos dormitórios. A maior torcida dos moradores de um Kommunalka é para que ninguém tenha indisposição estomacal, principalmente de madrugada.

No térreo há um espaço dedicado a Joseph Brodsky com objetos e móveis que perteceram ao escritor laureado com o Prêmio Nobel de literatura. Estão ali a espera da abertura do futuro museu, na Avenida Liteiny 24, onde ele viveu. Dizem que será inagurado em breve. Breve, entenda-se, para os padrões russos. Pode demorar anos. A reabertura do museu Maiakóvski em Moscou, por exemplo, está cinco anos atrasada. Brodsky, admirador e amigo pessoal de Akhmátova, foi um dos principais difusores de suas obras no exterior. Brokken narra alguns episódios dessa amizade entre mestre e discípulo.

Na rua Italiana, n. 4, há o Café-Arte “бродуса собачка” (Cão vadio). Inaugurado em 1911, a taverna era o local de encontro de escritores e artistas de vanguarda, notadamente os futuristas, durante a segunda década do século XX. Fotos de dezenas deles estão expostas. Akhmátova, Gumilyov, Blok, Maikovsky, Khlébnikov, apenas para citar alguns. Revive-se a época e compreende-se melhor o longo poema de Akhmátova, Poema sem herói, que retrata o período.

Outro personagem ligado à cidade é Lênin. Junto ao rio Neva, não distante da antiga prisão Kresty, está a famosa Estação Finlândia por onde chegou Lênin cruzando livremente a Alemanha e a Escandinávia para preparar a revolução. Essa é uma das viagens mais misteriosas da história. Há muitos livros e muitas especulações sobre o assunto. Ao chegar, ele foi recebido por uma multidão de bolcheviques e simpatizantes. Na estação é possível ver a locomotiva que trouxe Lênin da Finlândia. Na praça em frente à estação está um dos seus monumentos mais famosos. Lênin, imponente, junto a um tanque de guerra. Da praça avista-se o antigo prédio da KGB.

Mais adiante, do outro lado do rio Neva, encontra-se os impressionantes Convento e Catedral de Smolny, projeto de Bartolomeu Rastrelli, do final do século XVIII. Foram destruídos pelas tropas nazistas e reconstruídos como eram anteriormente. Ao lado do complexo tem-se o Instituto Smolny, local onde Lênin organizou a tomada do poder em 25 de outubro de 1917. Foi sede do governo bolchevique até março de 1918, quando as tropas alemãs invadiram a Rússia e a sede foi transferida para Moscou. Desde então, São Petersburgo deixou de ser a capital. Também no Instituto foi assassinado Sergei Kirov em 1934 dando início ao período mais violento do governo de Stálin. A foice e o martelo que decoravam o palácio foram substituidos pela águia de duas cabeças que simboliza a Rússia Ocidental e Oriental unidas.

Petersburgo tem inifinitas histórias. Algumas delas ainda estão para ser contadas…

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha.