Diário de um tradutor em São Petersburgo 4: Aleksandr Blok e Hermitage

Diário de um tradutor em São Petersburgo 4: Aleksandr Blok e Hermitage

12 a 15 de março de 2018.

Estado da Arte

16 Março 2018 | 13h00

por Flavio Quintale

Voltou a nevar, mas ao contrário da estepe em São Petersburgo não há monotonia. Palácios, monumentos e vida cultural ativa. Quando cai a neve desaparece toda a sujeira. Tudo que não é beleza se esvanece. A cidade cobre-se de branco e tudo ganha delicadeza e leveza.

Vou à rua dos Dezembristas n. 57. No apartamento do quarto andar viveu o poeta Aleksandr Blok (1880-1921). No segundo andar apresentava-se uma exposição sobre seu célebre poema Doze. Um dos mais misteriosos e mais debatidos pelos estudiosos de literatura russa. Tomado durante o período soviético como glorificação da Revolução e de seus doze apóstolos, tem recebido inúmeras releituras levando em conta outros aspectos, notadamente de cunho teológico. Associa-se os tais doze apóstolos não com a Revolução, mas com os eslavófilos. Teria Blok, com seus mistérios, enganado várias gerações? Jan Brokken dedica um capítulo a Blok junto com Biéli, ausente em monumentos pela cidade, ainda que tenha escrito o romance Petersburgo, um clássico da literatura russa. Sua prosa não é simples: “Petersburgo é uma avenida infinita, elevada ao enésimo grau. Atrás de Petersburgo não há nada”. Ler Biéli é escutar com os olhos. Os dois poetas, talvez os maiores nomes do simbolismo russo, foram inseparáveis. Dividiram até a mulher, não sem conflitos. Liubov, atriz e filha do célebre químico Dmitri Mendeleev, criador da tabela periódica, é o elo do triângulo amoroso talvez mais comentado no “momento tititi” dos círculos literários russófilos. Brokken dedica um longo capítulo a eles. Poesia, biografia e fuxicos culturais.

Do Museu Blok pode-se passar pelo Cavaleiro de Bronze, escultura magistral de Étienne Falconet,  por ordem de Catarina a Grande em homenagem a Pedro o Grande, imortalizada no poema de mesmo nome de Púchkin. A transposição da enorme rocha que serve de base para a obra é uma história romanesca por si só. Há livros de quatrocentas páginas para relatar esse acontecimento inesquecível.  Da Praça dos Dezembristas, onde está o monumento, junto à margem do rio Neva, chega-se depois de uma caminhada sadia ao museu Hermitage.

Logo na entrada, que dá acesso às exposições, depara-se com a famosa escadaria imortalizada no filme mudo Outubro de Eisenstein. Por ela entraram os revolucionários armados em alvoroça na célebre tomada do Palácio de Inverno em 1917. O palácio esbanja tanto ouro e riqueza que ofusca as grandes obras de arte que abriga. Leonardo da Vinci, Cranach, Caravaggio e Rembrandt, entre outros. Há tantos turistas chineses que mais parece estarmos em Pequim. As relações da Rússia com a China são históricas e se acentuaram ainda mais com a aproximação cada vez maior entre os dois países depois do embargo imposto aos russos pelas potências do Ocidente por ocasião da crise da Crimeia. Com o câmbio muito favorável, os turistas chineses desembarcam em massa na Rússia. Aglomeram-se em volta do relógio do Pavão dourado, obra impressionante de James Cox, colocado no centro da sala do Pavilhão. Toda em mármore branco e ouro é uma das salas mais ricas do Hermitage. Disparam fotos. Fazem selfies. Riem. Conversam. Alguns falam alto. Quando um grupo vai embora, chega outro. Recomeça tudo. Se o pavão fosse um papagaio, já estaria falando mandarim.

A parte dedicada às exposições temporárias abriga nesses dias uma coleção de porcelanas do período soviético. Algumas peças comemorativas de aniversários da Revolução e outras de propaganda. Lênin, Stálin, pessoas comuns representadas trabalhando ou praticando esporte. Chama a atenção um tabuleiro de xadrez em que os peões, tantos brancos como pretos, são barris de petróleo. A rainha preta é uma barra de ouro e o rei preto tem uma nota de dólar no corpo e uma águia preta na cabeça, muito semelhante à da Alemanha Ocidental. O rei branco tem os muros do Kremlin em vermelho no corpo e a rainha, uma imagem de uma mulher russa. Xadrez da Guerra Fria. O idealizador esperava a vitória das peças brancas. No mais, um prato comemorativo com todos os líderes bolcheviques.

Outro destaque do Palácio é a biblioteca de Nicolau II, o último Romanov. Toda em finíssima madeira inglesa escura com escada e mezanino trabalhados. Teto requintado. O ambiente é esplêndido para leitura se não fosse um museu. O vigia está sempre atento para ninguém cair na tentação de tocar nos livros ou subir no mezanino.

Do outro lado do complexo, atravessando a majestosa praça do Palácio dominada pela coluna de Alexandre, chega-se ao palácio do Estado Maior onde está o resto da coleção do Hermitage. Entre outras obras de arte, lá estão quadros de importantes artistas impressionistas e de vanguarda. Não conheço maior concentração de obras impressionistas, exceção feita ao Museu d’Orsay em Paris, do que essa. Monet, Matisse e Degas. Gaugin, Picasso e Kandinsky. A Dança e o Estudo para a Dança de Matisse são exemplos. As telas são bem grandes, 260 por 391 cms.

Impossível ver tudo com atenção em uma visita. Moradores da cidade dizem precisar de pelo menos trinta anos para ver tudo. Quase todo mundo morre antes. Temos de nos contentar em ver o que é possível. Depois de horas de maratona as pernas cansam, os olhos embaralham e a saída passa a ser a porta de salvação para o lugar mais desejado: a rua.

Nada mal. Depois de uma overdose de arte, não há melhor remédio para esfriar a cabeça do que perambular pelas ruas geladas de São Petersburgo.

  Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha.