Diário de um tradutor em São Petersburgo 2: Púchkin e Gogol

Diário de um tradutor em São Petersburgo 2: Púchkin e Gogol

5 - 7 de março de 2018.

Estado da Arte

11 Março 2018 | 09h30

por Flavio Quintale

Peço um chá para esquentar os ossos. Estou no “Café Literário”. Na esquina da avenida Nevsky com o cais do Moiki, rio estreito que muito se assemelha aos canais de Amsterdam. Nesse lugar, Púchkin se encontrou com seu segundo, Constantino Danzas, antes do duelo com o Barão d’Anthès. A brincadeira lhe custaria a vida. Também Lermontov e Dostoiévski frequentaram esse Café. Quadros com retratos de escritores e um boneco de Púchkin com uma peruca despenteada decoram o ambiente. A ideia era fazer algo requintado. Mas, às vezes, é muito sutil o limite entre a elegância e a breguice. Terminado o chá, recupero meu casaco, bem no momento em que entra um grupo de turistas franceses todos encapotados em busca de Púchkin. Literatura também é business.

Os russos dividem sua literatura em dois períodos: a.P e d.P. Antes e depois de Púchkin. Ele é o responsável pelo surgimento de uma espécie de igreja invisível em que se cultua a literatura russa. Sem Púchkin, costuma-se dizer, não haveria Dostoiévski. Nem Tolstói. O autor de Crime e Castigo, pouco antes de falecer, em um discurso entusiasmado por ocasião da inauguração de um monumento a Púchkin, evoca seu espírito profético.

Ele é um fenômeno extraordinário e provavelmente a manifestação mais singular do espírito russo, segundo Gogol. Eu acrescentaria: ele é um fenômeno profético. De fato, no seu aparecimento há algo inquestionavelmente profético para todos nós russos. Púchkin surge exatamente na aurora de nossa verdadeira consciência, pois se passaria todo um século após as reformas de Pedro, o Grande, até que a consciência fosse despertada em nós. O advento de Púchkin, como uma luz guia, ajudou imensamente a iluminar a estrada escura à nossa frente. E nesse sentido Púchkin é profético, apontando para o futuro.

Tolstói afirmou ter escrito seu grande romance histórico “Guerra e Paz” inspirado na “Filha do Capitão” de Púchkin.

Ali nos arredores, no cais Moiki n° 12, localiza-se o museu Púchkin, casa onde o poeta viveu os últimos quatro meses de sua vida breve e que Jan Brokken diz ser “uma das mais belas memórias” de sua primeira viagem a São Petersburgo. Manuscritos, livros, desenhos, quadros. Objetos que supostamente pertenceram ao poeta, móveis da época e uma pistola do período, de onde saiu o disparo que lhe mataria. Morte banal para um gênio da literatura. Há um sentimento entre boa parte dos russos de que se Natália, a esposa, fosse menos dada a flertes, nada disso teria acontecido. Suposições. A história é o que é; não aquilo que poderia ter sido e que não foi.

Na mesma rua está o Consulado Brasileiro. Escolha de muito bom gosto. Os brasileiros são dos poucos privilegiados que podem entrar na Rússia sem visto. Não é pouca coisa, levando-se em conta a implacável burocracia russa. Controlam-se os documentos dos usuários do metrô com certa frequência.

Mais alguns minutos de caminhada e chega-se à Malaia Morskaia, rua bastante curta, mas muito famosa. Nela viveram Gogol, Dostoievski, Turguêniev e Tchaikovsky. No n° 8 viveu Gogol. Hoje, no local, funciona o “restaurante Gogol”. Os clientes passeiam pelos cômodos do apartamento no térreo, todo decorado com móveis e objetos do século XIX. As garçonetes também vestem roupas no estilo da época. Nada mais apropriado do que a casa de Gogol se transformar em um restaurante. Até o nariz, personagem de seu famoso conto, ganhou homenagem na cidade. Quem já leu Almas Mortas notou o quanto se come e o quanto se fala de comida no romance. Mesmo quem lê sem estar com fome fica com vontade de pelo menos degustar a entrada ou, quem sabe, provar a sobremesa. Gogol era um adepto da boa mesa. Panquecas, assados, caviar. No restaurante servem-se pratos tipicamente russos. Escolho, de propósito, uma mesa na sala onde há um piano. Preciso checar as impressões de Jan Brokken. Peço, de entrada, расстегаи, uma espécie de pastelzinho, de peixe. O prato principal tem de ser Pelmeni misto de carnes bovina e suína. Alguns dizem que é como ravioli. Na verdade, não é. Assemelha-se muito mais ao guioza. Não é de se admirar. A Rússia já foi domínio de Gengis Khan e de seus descendentes. Para acompanhar, chá. Na Rússia faça como os russos. Em meio um pelmeni e outro chega a pianista. Uma mulher de meia idade, loira, alta e magra. Lembro-me imediatamente de Jan Brokken:

uma pianista que toca melodias de jazz lendo partituras num piano medonho e desafinado, sem nenhuma noção de ritmo. Causa tanto horror aos meus ouvidos que peço para mudar de mesa, para uma saleta onde não se ouve o som do piano, ofendendo profundamente a pianista. Para se vingar, ela passa a tocar num volume duplamente mais alto.

Ela se senta. Abre a pasta de partitura. Começa a tocar. Eu já estava preparado para o pior. E o pior veio. Sem ritmo. Uma confusão e tanta. Mas a música não me causa horror. Abro um sorriso. A pianista se empolga. Acelera a música como se a estivesse melhorando. Se Liszt pôde parafrasear Mozart, ela também pode criar sua própria versão. A vontade de rir aumenta. Imagino a cara de desgosto do Brokken. “O humor é uma manifestação do divino”, disse Shostakovich. Gogol foi um mestre do humor. Mas a diversão tem hora para acabar. Peço a conta. A Rússia é um país acessível. Deixo o restaurante. Caminho pelas ruas geladas de São Petersburgo até a estação de metrô.

No dia seguinte viriam mais aventuras…

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha.

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