De Palma: o cineasta essencial, cult e pop

De Palma: o cineasta essencial, cult e pop

Brian De Palma é mesmo o herdeiro de Hitchcock, porque age como o mestre: pensa cinematograficamente.

Estado da Arte

19 Maio 2017 | 15h30

Por Jeffis Carvalho

Obeso, um tanto arqueado; a barba característica, mais curta e totalmente branca; o sorriso, sempre constante, ainda lhe confere um ar de bonachão, do tiozinho amigo que está sempre pronto a nos ajudar com suas orientações e a nos fornecer ensinamentos por meio de suas histórias sempre saborosas, engraçadas, às vezes picantes. Essa é a descrição possível do senhor que surge diante de nós como tema, protagonista, narrador e comentador do documentário De Palma, dirigido por Noah Baumbach e Jake Paltrow, em cartaz no Now. Sim, esse “tiozinho” é mestre Brian De Palma, um dos cineastas mais talentosos, influentes e iconoclastas de todos os tempos.

Ao abrir a câmera diante do cineasta para que ele fale sobre sua vida e seus filmes, a dupla de diretores dá a Brian De Palma a voz que, talvez, nunca tenha conseguido ter como diretor, produtor e roteirista em Hollywood. Claro, sempre podemos afirmar que sua verdadeira voz está e sempre estará em sua obra, por meio de cada um de seus filmes. Mas é simplesmente um deleite vê-lo – e ouvi-lo – falar sobre cada filme, do primeiro curta experimental ao último longa lançado em 2013. Aos 76 anos (11/9/1940), Brian faz um balanço sincero e se revela um artista convencido de seu enorme talento, consciente de seus erros e acertos, grato à sua trajetória e, por que não, à sua boa estrela. E, claro, sabedor de que é mesmo um cineasta influente – porque reconhece o quanto foi influenciado, principalmente pelo gênio de Alfred Hitchcock. Lá pelo final do documentário, sem meias palavras, ele reivindica para si o próprio legado do Mestre do Suspense, ao lamentar que o incrível patrimônio do vocabulário narrativo criado por Hitchcock possa se perder, já que ele vê apenas a si mesmo como seu fiel depositário.

Narrado na primeira pessoa – sem comentaristas, outros entrevistados ou qualquer tipo de análise, o Brian De Palma que emerge do documentário é um artista mais do que nunca antenado com a cultura de seu tempo. Em uma carreira, que vai do final dos anos 1960 até o presente, o que se percebe quando vemos todos os seus filmes apresentados e comentados de forma cronológica é o percurso de um artista que ouso definir como pop – o mais pop dos cineastas –, aquele que inventou a estética pop no cinema. Se muitos filmes fizeram a cultura pop – De volta para o futuro, Star Wars, Indiana Jones, Os Goonnies etc –, Brian De Palma criou o cinema pop. Toda sua estética está em seu primeiro grande sucesso cult – e, não à toa, cult: O Fantasma no Paraíso. Mais do que um filme sobre rock, Phantom é um filme-rock. Assim como em Senso Luchino Visconti criou a maior ópera no cinema – não um filme sobre, mas uma ópera cinematográfica –, De Palma concebeu um rock cinematográfico. Do mesmo modo, a estética do terror pop, que vai inundar o cinema americano nos anos 1980 e 1990, está muito bem delineada em Carrie, A Estranha, lançado pelo diretor em 1976.


Enquanto seus detratores – e foram muitos ao longo de sua carreira – o acusavam de diluidor de Hitchcock, De Palma construiu uma obra em que a grande afinidade com o mestre do suspense é a sua impressionante capacidade de fazer cinema, isto é, de elaborar narrativas puramente cinematográficas. Toda história contada por Brian De Palma em seus filmes é narrada essencialmente de forma visual: cada tomada, cada movimento de câmera, cada plano-sequência, cada contra-plano, cada corte “fala”, nos diz algo, informa, comenta, desconstrói ou avança a ação, o conflito. Costuma-se dizer que só se consegue falar bem em uma língua se, antes de falar, pensarmos naquele idioma. Pode-se dizer, então, que Brian De Palma é mesmo o herdeiro de Hitchcock, porque age como o mestre: pensa cinematograficamente.

Outra grande afinidade com o mestre inglês é a sua “pulsão” de medo e morte. Se para Hitchcock o seu flagrante roubando quando garoto, e sua ida à delegacia, o marcou profundamente, para De Palma foi sua experiência de esconde-esconde com os irmãos – a que ele se refere no documentário. Brian experimentou um evento que deixou com ele uma sensação de terror intenso: seus dois irmãos estavam brincando e o jovem Brian se escondeu atrás de uma geladeira e ficou preso; teve, então, que gritar para fora para a ajuda. Evidentemente, esse evento reforçou o complexo de inferioridade de De Palma em relação os seus irmãos, e acrescentou-lhe o medo de ser humilhado por perder o controle.

O fato se torna um motivo recorrente em seu trabalho, que alimenta seu retrato da morte. O desamparo é uma constante, uma inferioridade (ou impotência) de meios físicos e emocionais. Um protagonista seu raramente tem controle sobre os eventos em que se encontra enredado – aliás, como os de Hitchcock também. Isso vem de uma falta de comunicação, muitas vezes uma remoção verbal ou sexual das pessoas ao seu redor. Emoções que correm de forma desenfreada, traduzidos cinematograficamente por movimentos fluidos da câmera de De Palma. No final, alguém sempre acaba morto.

Constatamos isso em Dublê de Corpo (Body Double, de 1984): o último thriller abrangente dos anos 80 do diretor já trabalha os impulsos pós-modernos que ele explorará em Síndrome de Cain (Raising Cain, de 1992). O Jake Scully interpretado por Craig Wasson é exemplar do protagonista impotente de De Palma. Um ator de Z-movie interpretando um ator de Z-movie pode parecer uma piada muito óbvia, mas é essa falta de personalidade que dá ao Body Double seu poder expressivo. Se fosse Kirk Douglas ou John Travolta enfeitado com trajes de vampiro no filme de abertura dentro de um filme, então a desintegração lenta da expressão facial de Scully em terror abjeto embalaria tudo de forma mais amena. Mas nos identificamos e, claro, isso é uma destilação do relacionamento de De Palma com seu público – seus melhores filmes são sobre identificações (entre personagens, público e diretor) traduzidos, claro, em momentos puramente cinematográficos.

O auge dessa proposta é o thriller Vestida para Matar (Dressed to Kill, de 1980). De Palma nos brinda com o muito falado assassinato no elevador – com ecos de Psicose (1960) – , no qual Kate Miller (Angie Dickinson) é cortada pela transexual Bobbi. A cena culmina com a introdução da prostituta Liz Blake (Nancy Allen) como testemunha e portadora de uma espécie de norte moral. Envolvida em seu próprio sangue, Kate alcança o horrorizado rosto de Liz, e De Palma retarda o filme para ampliar os olhos de ambas as atrizes, enfatizando a conexão. Neste momento estamos sujeitos ao ponto de vista moribundo de uma mulher ao passar sua verdade emocional para a consciência de outra.

Cena do elevador em “Vestida para Matar”

De Palma joga com esse tipo de identificação ao longo de sua carreira: é como Gillian (Amy Irving) que se torna uma trágica máquina de matar em A Fúria (The Fury, de 1978), como Eriksson (Michael J. Fox) se torna uma testemunha silenciosa do estupro central que assombra Pecados de Guerra (Casualties of War, de 1989). Desse modo, o ponto de vista que ele adota se torna fundamental para compreendermos a humanidade que se manifesta em seu trabalho. Como muitos de seus personagens tecnicamente obcecados, é por meio da forma cinematográfica que De Palma encontra verdades humanas. Mas, claro, como os filmes exigem as crises para manter o interesse, ele usa a morte como uma forma de desafiar as certezas e as zonas de conforto do público.

Depois de assistir a De Palma, só nos resta correr em busca de seus filmes para que possamos compartilhar com ele a sua rica proposta cinematográfica. Podemos escolher entre seus grandes thrillers para vivenciarmos o mais puro cinema; ou podemos optar por seus grandes filmes de ação, entre os melhores no gênero dos últimos 30 anos: o primeiro Missão Impossível e o já clássico Os Intocáveis. Eu escolhi rever a obra-prima Um Tiro na Noite (Blow Out, de 1981).

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista, cinéfilo e consultor de comunicação.

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