‘Dark like souls in want’: as teodiceias de Cormac McCarthy (Parte 3)

‘Dark like souls in want’: as teodiceias de Cormac McCarthy (Parte 3)

Na terceira e última parte de sua análise dos romances de Cormac McCarthy, Fabrício Tavares de Moraes trata de 'A Estrada' e seu mundo pós-apocalíptico.

Estado da Arte

13 Agosto 2017 | 00h06

Por Fabrício Tavares de Moraes

Quando a revista científica Nautilus publicou, em abril deste ano, um artigo de Cormac McCarthy, talvez injustamente designado de o primeiro ensaio não-literário do autor, seus leitores e estudiosos receberam nova luz sobre alguns dos temas que recorrentemente perpassam ou lampejam em meio às entrelinhas de seus romances.
O ensaio em questão, “The Kekulé Problem”, versa sobre as origens da linguagem e sua relação com o inconsciente. Para McCarthy, “o inconsciente é uma máquina para operar um animal”, ao passo que a linguagem, segundo conversas com o presidente do Santa Fe Institute (grupo do qual participa como pesquisador), atuou, nos primórdios da consciência humana, como uma “invasão parasitária”.
Apesar disso, de acordo com suas conjecturas, a linguagem, não sendo um sistema biológico, também não é produto de um processo evolutivo orgânico – para desconforto e impugnação de muitos linguistas. Antes, as línguas são variações de uma “língua primordial”, uma espécie de lamarckismo que ele não se esforça em ocultar.
Segundo o breve comentário de apresentação de David Krakauer, presidente do instituto supracitado, o artigo de McCarthy ensaia uma resposta à tensão entre os dois sistemas evolutivos paralelos – o cérebro animal primitivo e a linguagem.
O que isso nos revela com relação ao pensamento de McCarthy, tomado aqui em sua amplidão existencial, é que ele resulta de um esforço de conciliação de linhas ou forças atávicas e primevas que se manifestam e moldam não apenas os conglomerados orgânicos ou as formas inorgânicas, mas também a consciência humana.
Em outras palavras, sua obra é uma exploração tanto da desordem e do consequente absurdo ocasionados pela presença do mal quanto dos mais altos sentimentos que cirzem os abismos humanos. É por isso que mesmo nas descrições de terras calcinadas, salgadas por crimes e pela crueldade humana, são perpassadas por uma “frágil agonia da graça” (Outer Dark).
E é provavelmente em A Estrada, romance publicado originalmente em 2006 e filmado três anos depois, que encontramos essa providência que se insinua de modo tão sutil e, por isso mesmo, eficaz. Num mundo pós-apocalíptico, no qual tempestades de fogo e um miasma de fuligem destruíram toda a fauna e flora e encobriram o sol, dois vultos se deslocam num eterno êxodo sem terra prometida, ou mais precisamente, numa caminhada pelo ermo sem fim. Acrescente a isso o fato de que os homens que restaram são tão ferozes que não hesitam, como pequenos Cronos, em devorar os próprios filhos, ou escravizar jovens para lhes servirem de catamitas.
Esses dois vultos são um pai e um filho jamais nomeados, mas cujas personalidades estão de tal maneira entrelaçadas e mutuamente dependentes que o sentimento entre eles se torna tão tangível quanto um cordão umbilical. Em suma, um homem, guiado pelo imperativo absoluto de cuidar e guardar seu menino num mundo de cinzas e de formas (inclusive humanas) mumificadas, e o garoto que, como um avatar luminoso, também guia seu pai nas veredas tênues porém candentes da bondade: “Dormiram amontoados nas colchas malcheirosas no escuro e no frio. Ele abraçava o menino bem junto do corpo. Tão magro. Meu coração, ele disse. Meu coração. Mas sabia que se fosse um bom pai ainda assim poderia ser como ela disse. Que o menino era tudo o que havia entre ele e a morte”.
Curiosamente, é nesse cenário cujas descrições retratam um mundo ora terminal, ora primevo – ambos, no entanto, brutais –, que McCarthy descreverá a beleza da delicadeza da vida humana, tanto no seu autossacrifício em prol do outro quanto na sua confiança em Deus. O homem “sabia apenas que a criança era sua garantia. Disse: Se ele não é a palavra de Deus, Deus nunca falou”.
E como um novo Moisés, percorrendo o deserto chamuscado, o pai também tem um entrevero com Deus numa fenda; só que, diferentemente do profeta hebreu, ele se depara, num primeiro momento, com o silêncio: “Desceu para dentro de uma fenda na pedra e ali se agachou tossindo e tossiu durante um longo tempo. Depois ficou apenas ajoelhado nas cinzas. Ergueu o rosto para a manhã pálida. Você está aí? ele sussurrou. Vou te ver enfim? Você tem um pescoço que eu possa estrangular? Você tem um coração? Maldito seja eternamente você tem uma alma? Oh Deus, ele sussurrou. Oh Deus”.
Ao final da narrativa, contudo, ele percebe que também conduzira pelo ermo uma tenda onde residia a glória: “Ele parava e se apoiava no carrinho e o menino seguia em frente e então parava e olhava para trás, erguia os olhos cheios de lágrimas para vê-lo parado ali na estrada, fitando-o de algum futuro inimaginável, luzindo na desolação como um tabernáculo”.
É, portanto, o fogo conduzido no interior da alma de ambos, e que se inflama ao ponto da transfiguração em seu filho, que se contrapõe aos incêndios que abrasaram a terra. A generosidade do menino, que se reflete em amor e proteção incondicionais do pai, faz dele a palavra de Deus, ou mesmo “o último deus” andando na terra, terrível em sua luz que sorrateira e tenuamente afasta as trevas, em especial as que sitiam o coração daquele homem, um Dante guiado pelas regiões infernais por alguém ainda maior que Virgílio, a saber, a carne de sua carne.
Em McCarthy, de fato, deparamo-nos com a polimorfia do mal, cuja ação se manifesta simultaneamente na composição de um mundo hostil ao homem e em atos brutos e absurdos de indivíduos; porém, ao longo de seus romances, percebemos a consciência cada vez mais grave de que a vulnerabilidade humana, quando efetivamente percebida, conduz o homem à confiança dos mistérios que o precedem e o transcendem.
Nesse sentido, a evidência que se contrapõe à crueldade são os valores que, embora sublimes, só existem enquanto encarnados: o amor e o imperioso cuidado dos que amam. Isto é, um ato que se contrapõe à toda expectativa. Além disso, assim como o menino é uma palavra de Deus num ambiente silencioso e desamparado, a vida em si é uma epifania que bruxuleia na tensão entre as forças austeras que modelam esse mundo.
McCarthy nos apresenta, assim, sua releitura da “graça severa” de Flannery O’Connor. E, de modo mais intenso, o autor, em A Estrada, nos descreve a forma como um homem, à semelhança do peregrino de John Bunyan, lança seu fardo, num momento de contemplação, sobre a bondade que reina invisivelmente:

Você se lembra daquele menininho, Papai?
Sim. Eu me lembro dele.
Você acha que ele está bem aquele menininho?
Oh sim. Acho que ele está bem.
Estou com medo de que ele estivesse perdido.
Acho que ele está bem.
Mas quem vai encontrar ele se ele estiver perdido? Quem vai encontrar o menininho?
A bondade vai encontrar o menininho. Sempre encontrou. Vai encontrar outra vez.


E, dessa maneira, é nessa “fragilidade de todas as coisas finalmente revelada”, que encontramos uma esperança tão improvável quanto a daqueles que aguardavam Godot; porém talvez essa fé encarnada no fogo que um pai e um filho carregam consigo seja o lampejo de um mundo outrora trilhado por Deus. “Nos vales estreitos e profundos em que eles viviam todas as coisas eram mais antigas do que o homem e num murmúrio contínuo falavam de mistério”.

Fabrício Tavares de Moraes é tradutor e doutor em Literatura (Universidade Federal de Juiz de Fora/ Queen Mary’s College London)

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