Consciência e a brevidade da vida

Consciência e a brevidade da vida

A noção cartesiana de estar no mundo e as discussões acerca do cérebro quebraram paradigmas com cujos estilhaços ainda não estamos bem certos do que fazer.

Estado da Arte

26 Maio 2017 | 07h00

Por Thiago Blumenthal

A sabedoria começa no leito do doente, já ponderava o médico italiano Santorio Santorio, muito antes do divã de nossa psicanálise cotidiana. A brevidade da vida, contudo, nos aniquila com o constante retardamento das emoções inúteis, aquelas já, de tão repetidas, tão fatigadas, e isso para os mais felizes ou sortudos.

Se a grandeza, e também a decadência, de um César Birotteau começa nos delírios de sua esposa em seu leito, em uma atípica cena da vida parisiense do século 19, é de se ponderar o quanto ela está fora de si, e, mais, o quanto a linguagem nos agarra por algum tentáculo mental do qual nem sempre conseguimos um escape tranquilo. Linguagem e sabedoria estão intimamente ligados à doença e à loucura, à consciência, no que a literatura mergulha como um notívago em seu absinto, e daí a imagem do leito, um tanto quanto romântica, em processo que se destaca a partir de um realismo mais cru na transição realista em Balzac lui même.

Se a sabedoria é sempre querer a mesma coisa e sempre não querer a mesma coisa, e a vida é cheia de um material inflamável, a morte acaba sendo cheia de amor e cortesia. Como um crânio de um morto cujo hemisfério esquerdo apenas permanece intacto; o direito é um grande vazio, trevas, escuridão, o vazio que marca o diabo, poderia dizer o mais incauto jovem estudante desse órgão que abarca todo o infinito – de certo modo, podemos pensar que, por ideias socioculturais compartilhadas, temos quase 8 bilhões de infinitos. Não há fim. A arte não alcança o cérebro na corrida, que tenta lhe dar a mão para um sobressalto, mas não adianta, o cérebro é mais rápido. E, no entanto, continuamos correndo. Até quando teremos fôlego, ou algum estímulo?


O grande salto cognitivo na história da humanidade, a noção cartesiana de estar no mundo, e as mais contemporâneas discussões em torno do cérebro quebraram alguns paradigmas com cujos estilhaços ainda não estamos bem certos o que fazer. Resta juntar todos esses cacos de mente e formular – ou sugerir – a que tipo de matéria pertencemos, e se somos apenas carne fresca tentando fazer arte, ou seja, atingir algum tipo de imortalidade pelo patrimônio que deixamos, seja este composto de obras ou filhos.

Gente como Giulio Tononi, Leonard Mlodinow, Christof Koch, Steve Pinker e alguns outros trabalham neste sentido. Se a segunda lei da termodinâmica nos propõe, em seus desdobramentos, que o universo está se desdobrando a ponto de manter-se uniformemente desordenado, cabe ao homem contemporâneo buscar a ordem no tecido nervoso a partir do qual é feito tal mundo. A alma que não tem objetivo se perde, mas penso que inevitavelmente esse universo estará perdido assim que apagarmos em definitivo.

Da série “Glyptotek Drawings”, do artista plástico Jim Dine (1987-1988)

Como em um universo cyberpunk, respiramos e caminhamos por um bairro sombrio onde não somos os senhores, embora pensemos o contrário. Se Valentino Braitenberg, para citar um nome pioneiro e anterior aos mencionados anteriormente, já propunha em seu Sobre a textura dos cérebros, que, assim como todos os outros órgãos, o cérebro também é feito de bilhões de células interligadas e, mais importante, com diferentes funções, a distinção mais importante é entre o neurônio que excita ou o neurônio que inibe outros neurônios aos quais estão conectados, via sinapses, em um imenso habitat que costumamos chamar de “consciência”.

O problema maior é que a consciência da linguagem, ao escrever, ou a consciência da arte, e mesmo a consciência da vida (existimos e sabemos que existimos, diferentemente de meu cachorro) muitas vezes nos limitam e ficamos tateando no escuro, o mesmo escuro do hemisfério direito do cérebro. O tatear-se no escuro cria nossos deuses e nossos demônios, nossas ambições e nossos fantasmas.

Escrevemos, criamos, sempre em função de nossa morte, no particular e no coletivo – a morte, como o fim do mundo, sempre será a baliza à qual devemos nos guiar, como Antístenes, para quem a sabedoria mesmo estava em munir-se do máximo de provisões para a grande enchente. Après moi, le déluge.

Nascemos ou não para o nosso interesse particular, me pergunto tantas vezes e, quando tendo a responder que sim, o público me escapa pelos dedos e caio no velho dito que pondera que a pior parte é a maior. O mundo não passa de variedade e dessemelhança.

Em determinado momento de seus festins, os antigos egípcios mandavam trazer a anatomia seca de um homem para “servir de advertência aos convivas”, nos adverte, ele também ao seu leitor, Montaigne. As mortes mais mortas, afinal, são as mais saudáveis. Uma pena que algumas pessoas amem tanto a brevidade da vida, a brevidade das coisas, a brevidade dos amores. Deveríamos rezar a Deus mais brevemente.

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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