Clássicos para o nosso tempo: Xerezade e a Astúcia da Ficção

Clássicos para o nosso tempo: Xerezade e a Astúcia da Ficção

Os relatos das "Mil e Uma Noites" não se prestam ao exemplo moralizante, ao paradigma, à interpretação didática ou redutora: são estórias de infinito sabor, em que a variedade, a sordidez, a beleza, o horror e a hilaridade de ser-se humano se encadeiam e se entredevoram.

Estado da Arte

23 Dezembro 2017 | 10h15

 

por José Francisco Botelho

Em Bagdá, às margens do Rio Tigre, existe um monumento a Xerezade ‒ ou Sharhazad ‒, a Contadora de Estórias. Encomendada pelo Partido Baath, de Saddam Hussein, e assinada por Mohamed Ghani, a obra mostra a incansável narradora com cabelos soltos e mãos fluidas, desenovelando seu vertiginoso repertório de contos diante de um indolente Rei Xariar ‒ cujo hábito de degolar as próprias esposas encontra-se aqui eternamente suspenso, no afã de ouvir o próximo capítulo em uma narrativa que poderia ser infinita. Desde a invasão americana, a estátua de Xerezade passou por infortúnios dignos dos personagens das Mil e uma noites ‒ livro cuja redação decisiva, aliás, foi contemporânea à devastação de Bagdá pelas hordas mongóis, há quase oito séculos. A partir de 2003, o monumento foi sacudido por bombas, roçado por balas de metralhadoras, respingado de sangue e pilhado por vândalos; a mão de Xariar foi arrancada com um maçarico e o rosto de Xerezade tem os olhos vazados. A população da cidade, contudo, continua a visitá-la: não faltam boas almas para dar-lhe um eventual banho de mangueira ou aparar os canteiros que lhe envolvem os pés.


Para o causo que acabo de contar, existem muitas exegeses possíveis; fiquemos apenas com duas. A primeira delas é deprimente: a figura de Xerezade, que usou seu engenho proverbial para ludibriar um tirano, acabou sendo usurpada por déspotas futuros e alvejada nos intermináveis embates entre os sátrapas da Terra; suas Estórias postergaram a morte, mas não derrotaram a História. É uma interpretação razoável, claro; mas eu prefiro a outra. Através das tribulações dos séculos, em uma cidade repetidamente devastada e reconstruída, o conto de Xerezade continua a ser contado, driblando todas as tentativas de reduzi-lo, domá-lo e aliciá-lo; suas Noites ramificaram-se em outras literaturas e agora integram, triunfalmente, a herança de muitos idiomas, inclusive o português ‒ a tradução do brasileiro Mamede Mustafa Jarouche, publicada em 2005, é uma glória para nossa língua e uma riqueza para as futuras gerações. A astúcia de Xerezade, que também é a astúcia da Ficção, enganou não apenas o rei da Pérsia, mas o próprio Tempo.

Até hoje os detetives literários não conseguiram descobrir quem criou Xerezade, nem quando ela veio ao mundo. No Oriente Médio, já no século IX da Era Cristã (ou século III da Hégira), havia referências a um livro chamado Alf Layla, “As Mil Noites”, no qual figuravam uma narradora, Shirazad, e sua irmã e ouvinte, Dinar Zad. Não se sabe quais histórias integravam essa versão primordial das Noites; é possível que se tratasse de uma tradução, em árabe, de relatos vindos da Pérsia e da Índia. Com o passar do tempo, a grafia dos nomes se alterou, o caudal de narrativas engrossou e o numeral do título ganhou um mínimo e infinito acréscimo: entre os séculos XIII e XIV, na Síria, as Noites passaram de Mil a Mil e uma. Jamais uma simples adição teve tanto impacto na história literária: surgia ali o Kitab alf layla wa layla, o Livro das mil e uma noites, título que Borges considerava o mais belo da literatura. No ramo sírio, é-nos revelado que Xerezade viveu na Pérsia sassânida, pré-islâmica; também descobrimos aí o motivo pelo qual ela conta seus contos: não apenas para salvar a própria vida, mas também a de suas conterrâneas, as moças do antigo Irã, ceifadas pela sanha sanguinária-sexual do monarca. Outra reelaboração, no Egito do século XVIII, daria novo molde a esse livro de múltiplas formas; a história de suas vertiginosas transformações, assim como a saga heroica e às vezes picaresca de seus disseminadores no Ocidente, pode ser encontrada na introdução de Mustafa Jarouche a sua magnífica tradução; no ensaio do próprio Borges, Os tradutores das Mil e uma noites; e na obra The Arabian Nights: A Companion, do arabista inglês Robert Irwin.

Xerezade é um dos personagens mais intrigantes na história da literatura. Dela, sabemos muito pouco: a narradora se revela apenas através das estórias que conta, de maneira oblíqua e incessante. No preâmbulo da versão síria, recebemos as únicas informações diretas sobre sua personalidade: “tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda a gente como as palavras dos sábios e dos reis; conhecedora das coisas, sábia e cultivada, tinha lido e entendido”.

Espécie de criatura enciclopédica, Xerezade não recorre diretamente à ciência, à história ou à religião para despertar o monarca de seu pesadelo assassino: ela submete todas essas áreas do saber à magia astuciosa da fábula, invertendo as hierarquias do intelecto humano. Seus relatos não se prestam ao exemplo moralizante, ao paradigma, à interpretação didática ou redutora: são, simplesmente, estórias de infinito sabor, em que a variedade, a sordidez, a beleza, o horror e a hilaridade de ser-se humano se encadeiam e se entredevoram sem parar. É no entremear das vidas alheias, numa trama de almas que abarca saqueadores, comerciantes, marinheiros, bufões, dervixes, dançarinas, fugitivos, reis, princesas, feiticeiras, gênios e demônios, que Xerezade soergue o véu de si mesma e se deixa entrever. Lendo ou ouvindo suas histórias, podemos vislumbrar uma ironia velada, mas certeira, contra o poder e seus detentores; um gosto de connoisseur cômico e refinado pelo sexo; uma generosidade sem condescendências e uma curiosidade ao mesmo tempo ácida e insaciável quanto a tudo o que diz respeito à existência humana.

As Mil e uma noites são fruto de uma cultura altamente letrada, mas o livro que conhecemos hoje também é obra do Acaso, esse autor caprichoso cuja pluma é o inconsciente dos povos e a tinta o imaginário das gerações. Os acréscimos de sucessivos reelaboradores, tradutores e copistas colocaram na boca da moça persa, em um império pré-islâmico, histórias que só poderiam acontecer séculos depois, sob a civilização muçulmana; o efeito dessa circunstância, para o leitor de hoje, é de vertigem temporal. Tem-se a impressão de que a fantasia de Xerezade, de tão poderosa, subverte a ordem dos séculos: e o Rei Xariar, sem saber, contempla um mundo onde seus exércitos foram destruídos, onde sua dinastia já não existe, onde seu próprio nome é apenas uma lembrança esbatida e o fragmento de uma estória a ser contada.

José Francisco Botelho é escritor, jornalista e tradutor. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico (Zouk – 2011) foi finalista do prêmio Açorianos. Suas traduções de Chaucer e Shakespeare foram publicadas pela Companhia das Letras.

 

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