Clássicos para o Nosso Tempo – Lewis Carroll e o Sonho dentro do Sonho

Clássicos para o Nosso Tempo – Lewis Carroll e o Sonho dentro do Sonho

José Francisco Botelho começa uma série de artigos dedicados a clássicos da literatura universal. No primeiro deles, Lewis Carroll e o tema do Sonho dentro do Sonho.

Estado da Arte

08 Outubro 2017 | 11h22

Alice Através dos Espelhos: Tim Burton levou Lewis Carroll para o cinema em 2016.

Por José Francisco Botelho

A literatura, escreveu Borges, é um sonho dirigido; e a própria existência humana, em reiteradas páginas, foi apresentada como experiência onírica ou pesadilhesca (neologismo que acabo de inventar, porque estava fazendo falta). A contaminação da vigília pela maré às vezes ameaçadora do sonho é um recurso antigo na ficção e na poesia. Lembremos do mito grego: muitas vezes os deuses usaram as sombras da inconsciência como forma de guiar ou desencaminhar os mortais. No Livro II da Ilíada, Zeus envia a Agamenon um sonho alado, maligno e enganador, para convencê-lo a atacar Troia de forma temerária; e muitas almas gregas desceram ao Hades porque o rei foi ludibriado enquanto dormia. Em 1611, Shakespeare colocou na boca de Próspero, em A Tempestade, certas linhas que seriam parafraseadas séculos depois em O Falcão Maltês, clássico noir de John Houston: We are such stuff as dreams are made on, and our little life is rounded with a sleep (“Somos feitos da mesma matéria dos sonhos, e nossa pequena vida se completa entre o dormir e o despertar”). Cerca de vinte anos após a estreia d’A Tempestade, a mesma ideia ecoaria do outro lado do Canal da Mancha, na inesquecível obra de Calderón de La Barca, La vida es sueño. Preso entre as ilusões da vigília e as fantasias verossímeis do mundo onírico, o príncipe Segismundo nos deixou aquele monólogo que jamais será suficientemente citado:

¿Qué es la vida?Un frenesi.


¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño:
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.

Todos esses exemplos tratam o sonho como metáfora da vida, ou a vida como província do sonho; na segunda metade do século XIX, uma outra volta no parafuso foi efetuada pelo Reverendo Charles Lutwidge Dodgson, professor de matemática em Christ Church, Oxford, fotógrafo diletante, aficionado por enigmas e trocadilhos, e mais conhecido pelo nom de plume Lewis Carroll. Hoje todos sabem, naturalmente, que sua imortal personagem, Alice, saiu certo dia a perseguir um coelho branco, enveredou por uma região de dimensões cambiantes e população fantasticamente híbrida, para então descobrir-se de volta à “morosa realidade”, bocejando na relva soprada pelo vento. Publicado em 1865, Alice no País das Maravilhas despertou o fervor imediato de batalhões de leitores (entre eles, segundo reza a lenda, a Rainha Vitória); mas é sua vertiginosa e perturbadora continuação, Alice Através do Espelho, publicada em 1871, que nos interessa hoje.

A história da literatura oferece estranhas e reveladoras simetrias: de certa forma, o destino póstumo de Lewis Carroll é um reflexo invertido de Jonathan Swift. No século XVIII, Swift escreveu As Aventuras de Gulliver, livro para adultos amargos, cujo objetivo era fustigar com mordacidade toda a raça humana ‒ mas que agora é lembrado como uma história para crianças. Em Alice Através do Espelho, Carroll escreveu um livro declaradamente voltado à fantasia de meninas em idade pré-escolar ‒ mas que hoje é lido principalmente por adultos. Se algo desviou essas obras de seu sentido original, foram precisamente suas virtudes: o livro de Swift encanta pela sucessão sempre surpreendente de peripécias e perigos, fazendo-nos esquecer a moral pessimista do autor; o livro de Carroll intriga e estonteia pelas piruetas lógicas e a ousadia da linguagem, deixando em segundo plano o caráter propriamente aventuresco da narrativa. Essas inversões e espelhamentos compõem, talvez, um sentido secreto e maior: os deuses da literatura sorriem ao nos pregar esse tipo de peça.

O Rei Vermelho dormindo.

Ao fim da primeira aventura de Alice, somos deixados com a impressão de que as andanças da protagonista em um mundo governado por naipes e povoado por animais falantes não passou de um sonho; na continuação da história, o recurso onírico torna-se mais complexo, dando origem a um motivo específico na história das narrativas universais, cujas propagações foram abundantes na literatura do século XX e repercutem  até em recentes sucessos da televisão. Não darei um resumo do livro: basta saber que, exatos seis meses após a primeira aventura, Alice atravessa o espelho de sua casa e começa a desbravar uma nova região feérica. Se a estética do baralho dominava o País das Maravilhas, a Terra Além do Espelho segue o esquema existencial de um grande tabuleiro de xadrez. Os recônditos desse labirinto metafísico são mais inquietantes e cerebrais que a viagem anterior ‒ em diversas passagens de Finnegans Wake, James Joyce deixou claro seu débito à segunda jornada de Alice. Mas o que nos interessa, agora, é certa passagem do capítulo 4, em que Alice se depara com o Rei Vermelho adormecido em um bosque. Segue-se um dos diálogos mais importantes na literatura dos últimos duzentos anos.

‒ Ele está dormindo agora ‒ disse Tweedledee. ‒ E você sabe com que ele está sonhando?

Alice respondeu:

‒ Isso ninguém pode adivinhar.

‒ Ora, está sonhando com você! ‒ Tweedledee exclamou, batendo as mãos em triunfo. ‒ E se ele parar de sonhar com você, onde você acha que vai parar?

‒ Onde eu estou agora, é claro ‒ disse Alice.

‒ Não mesmo! ‒ Tweetledee retrucou, com desprezo. ‒ Você iria parar em lugar nenhum. (…)Porque você é apenas uma das partículas do sonho. No fundo você sabe que você não é real.

‒ Eu sou real! ‒ disse Alice, e começou a chorar.

Alice está sonhando com o Rei Vermelho, que está sonhando com Alice, que está sonhando com o Rei Vermelho, que está sonhando com Alice… A proeza de Carroll nessa passagem é um dos mais perfeitos exemplos literários do que André Gide chamava mise en abîme: um objeto que contém a si mesmo, numa regressão ao infinito, como dois espelhos postos frente a frente. Algum leitor arguto terá, a estas alturas, pensado em Borges: xeque-mate. As Ruínas Circulares ‒ um de meus relatos favoritos no cânone borgeano ‒ conta a história de um mago persa que decide “sonhar um homem” e “impô-lo à realidade”; nas linhas finais da história, o personagem compreende, “com alívio, com horror, com humilhação, que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando”. Publicado como parte de Ficções, em 1941, As Ruínas Circulares é diretamente inspirada na obra de Carroll: prova disso é a epígrafe do conto, extraída da passagem que reproduzi acima.

O Sonho dentro do Sonho é um dos paradoxos narrativos mais férteis, reveladores e profundos na ficção literária. Suas possibilidades narrativas talvez sejam infinitas, como o espelho refletido no espelho; suas repercussões mentais nos fazem transitar pela Caverna de Platão, pelas aporias dos céticos antigos, pela dúvida universal de David Hume, em busca de uma resposta para a pergunta feita por Alice nas linhas finais do romance de Carroll: “Vamos considerar agora: quem está sonhando, de verdade?”  Os admiradores de David Lynch certamente acharão algo de familiar nessas palavras: há uma paráfrase delas em uma cena crucial de Twin Peaks: o Retorno. O agente Gordon Cole ‒ interpretado pelo próprio Lynch ‒ sonha estar na mesa de uma cafeteria, conversando com Monica Bellucci. As palavras por ela pronunciadas contêm a cifra secreta desta série aparentemente indecifrável: “Somos como um homem que sonha, e vive dentro do sonho. Mas quem está sonhando?”

Gordon Cole (David Lynch) e Monica Belluci em ‘Twin Peaks: o Retorno”.

A madura aceitação da instabilidade existencial confere uma dignidade sombria a essas criações especulares da mente humana: por isso, Alice Através do Espelho é minha primeira proposta de leitura à nossa época viciada em mórbidas certezas.

José Francisco Botelho é escritor, jornalista e tradutor. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico (Zouk – 2011) foi finalista do prêmio Açorianos. Suas traduções de Chaucer e Shakespeare foram publicadas pela Companhia das Letras.