‘Bom comportamento’ e a intensidade do verdadeiro cinema

‘Bom comportamento’ e a intensidade do verdadeiro cinema

O crítico Willian Silveira analisa 'Mãe!', de Daron Aronofsky, e 'Bom comportamento', de Benny e Joshua Safdie.

Estado da Arte

28 Outubro 2017 | 21h14

Por Willian Silveira

Força sem direção é um vício difícil de ser corrigido. Prova disso, o terceiro ato de Mãe! (2017), de Darren Aronofsky, pontua uma carreira de ótimos filmes, como O Lutador e Cisne Negro, com constantes rompantes de incontinência metafórica e redundância referencial. Boa parte dos problemas de direção cinematográfica passa pela falta de um “chega”, “that’s enough”, “mon dieu, arrête”, como faziam os produtores do passado. Sem a advertência, quem brada hoje é o público, e o filme, que é unidade, acaba tardiamente comprometido pela extravagância de uma sequência. Responsável por cenas de epifania antológicas, quando deslize, a potência sem compromisso pode encaminhar até mesmo o melhor suspense psicológico dos últimos tempos em direção ao precipício do kitsch. A atração pela excesso que desarticulou Aronofsky continua a reverberar na sala escura, desta vez, por sorte, com o domínio pleno da narrativa por parte de Benny e Joshua Safdie, em Bom Comportamento.

Revelação do Festival de Veneza de 2014, os irmãos Safdie mantêm o espaço urbano que os lançou em Amor, Drogas e Nova York para dar sequência ao retrato impactante de personagens atormentados pelas circunstâncias. Os jovens de outrora são agora Connie e Nick Nikas, adultos, irmãos e assaltantes. A dupla rouba 65 mil dólares de um banco, em uma operação aparentemente bem sucedida. No entanto, perceberemos em seguida, o imprevisto que os colocará como perseguidos pela polícia é apenas a regra de uma vida caótica e sem perspectivas, a qual adentramos de supetão, sem convite. Do nosso lugar, não podemos vislumbrar o erro inicial, mas descobriremos que qualquer movimento representa um novo problema.

Escrito por Josh Safdie e Ronald Bronstein, colaborador de longa data, o ícone adolescente Robert Pattinson certamente viu no roteiro do longa – e no próximo filme de Claire Denis, a ver – a oportunidade definitiva para redesenhar uma carreira marcada pela afasia interpretativa. O movimento de retomada, iniciado desde a atuação algo robótica no original e limitado Cosmópolis (2012), de David Cronenberg, transforma o ator na irreconhecível figura de Connie. Tomado pela culpa e pela obrigação moral que advém da fragilidade de Nick (Benny Safdie), o personagem de Pattinson ingressará em uma série incessante de eventos a fim de livrar o irmão da prisão.

Na arquitetura de thriller, a direção dos irmãos Safdie se utiliza da estrutura do gênero como esqueleto para um ousado suspense de perseguição. Tendo a ação em primeiro plano, os diretores fundem o movimento como operador de sentido do cinema de John Cassavetes aos personagens irrecuperáveis de Harmony Korine, em Kids e Vidas Sem Destino. Ao encontro dessa fusão peculiar soma-se a predominância de planos fechados ao som dos sintetizadores do norte-americano Daniel Lopatin, premiado em Cannes sob a alcunha de Oneohtrix Point Never. A combinação cria um ambiente de opressão e urgência raramente visto, onde a claustrofobia dos personagens chega ao espectador na forma de angústia, ritmada pelo desenho de som excepcional de Ryan Price, como nos melhores momentos de Drive  (Nicolas W. Refn, 2011).

O movimento é menos o propósito do que o recurso derradeiro – talvez o sentido possível na paisagem – de Bom Comportamento. Apesar de obliteradas, as motivações de Connie e Nick não deixam de apontar para um grupo de sentimentos nobres, normalmente invisível ao olhar do julgamento rudimentar, que enxerga na violência um vetor único. Porém, assim como no longa de estreia, o caos está a iluminar o improvável, permitindo que não duvidemos do profundo afeto entre os irmãos. E nisso questionamos, como no conto de Raymond Carver encenado em Birdman (2014), o que é o amor quando confundida a sua forma com a de qualquer outra coisa.

A resposta certamente não é imediata. Conjugadas, a vulnerabilidade de Nick e o destemor de Connie os tornam presas fáceis para a excêntrica moldura hiper-realista proposta pelo filme. Sem conseguir adulterá-la, os personagens assumem, por motivos distintos, a postura de párias radicais do mundo contemporâneo, dimensão em que a sordidez de Trainspotting (1996) se assemelha a de um desenho infantil.

Willian Silveira é editor da revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).