Blá-blá-blá

Blá-blá-blá

Não seríamos muito excêntricos se definíssemos a vida contemporânea como a incapacidade de estarmos em silêncio.

Estado da Arte

04 Maio 2018 | 14h01

por Felipe Pimentel

Não seríamos muito excêntricos se definíssemos a vida contemporânea como a incapacidade de estarmos em silêncio. É uma característica da vida urbana que as pessoas não parem de falar – o que não significa que elas sejam ouvidas. A linguagem, muitos esquecem, não reside somente na fala, mas também no silêncio e na escuta. E quem de nós as exerce?

Um filósofo atento a isso foi Heidegger. Era um filósofo da contemporaneidade, porém “rural” – desprezava o mundo urbano, tendo nascido na cidade interiorana alemã de Messkirch, retirando-se ao final da vida para a Floresta Negra, em uma casa isolada digna de Walden. Por certo, essa questão não se resume, nem se origina da dicotomia cidade-campo, mas esta a intensifica.

Na sua grande obra Ser e Tempo, Heidegger levantou o problema, nomeando-o “o falatório”, que bem poderíamos traduzir por tagarelice ou blá-blá-blá. O falatório de que ele fala é exatamente esse discurso cotidiano, que vemos por toda a parte. A intuição de Heidegger sobre a função do falatório no sentido existencial é precisa: nós caímos no falatório para não entrar nas questões que realmente importam – são falas dispersas que nos distraem do que nos é mais próprio.

Ao contrário do que se poderia pensar, é exatamente por não possuir nenhuma solidez que o blá-blá-blá avança, se dissemina e se publiciza. Ao se difundir, o falatório é o modo de diálogo em que (quase) todos sabemos transitar. Aparentemente, ele é muito conveniente, harmônico e é, de um certo modo, um lugar seguro. Porém, ele só é seguro primeiro porque o fazemos por repetição (outros já falaram aquelas mesmas frases, já conhecemos o roteiro daquele diálogo); e, segundo, porque ao ser algo que repetimos, que advém de um outro, é um diálogo impessoal – e a impessoalidade tem sempre uma grande vantagem, uma grande segurança: ela não fala nada de nós mesmos, nem do próximo. Não suficiente, um diálogo como este é invariável, independente da pessoa com quem se conversa, tendo como efeito o esquecimento (não sabemos com quem falamos determinado assunto), a impermanência (não se extrai nada consistente das falas) e a dispersão (a disseminação das idéias tem como efeito final também dissipá-las). Por fim, Heidegger bem o sabia, a tônica final do falatório é o desamparo – o sentimento de que por mais que conversemos, nunca falamos, nem ouvimos. O mais impressionante é que seja exatamente o modo de diálogo mais próximo e mais comum.

O que Heidegger oferece em contrapartida ao blá-blá-blá? Audaciosamente, poderíamos dizer que grande parte da filosofia heideggeriana crê que o ser se revela na linguagem: em Ser e Tempo, um dos modos de estar junto a alguém é partilhar um diálogo, bem como uma das maneiras de alguém articular quem é através do discurso; posteriormente, nas suas obras sobre poesia chegou a supor que é a palavra que confere ser às coisas”. A sua preocupação primordial é que, seja no diálogo interior que travamos conosco, seja na conversa com o próximo, nós saibamos não só falar, mas também ouvir; e neste duplo movimento, permitir um encontro no qual aquilo que é mais próprio de cada um se revele: Mas onde a linguagem como linguagem vem à palavra? Raramente, lá onde não encontramos a palavra certa para dizer o que nos concerne, o que nos provoca, oprime ou entusiasma”.

Todo diálogo, interior ou com o próximo, que atinge essa palavra certa ou essa impossibilidade de formulação possui uma capacidade de revigorar o sentido da existência: é quando topamos, ao mesmo tempo, com nossa fraqueza em saber o que se passa conosco e com a beleza de poder agora nomeá-lo. Com o próximo, é quando esfumaçamos o desamparo decorrente do blá-blá-blá, ao permitirmos, com a escuta, o acolhimento daquilo que é mais próprio para a pessoa com quem conversamos.

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.

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