Biodança, reiki, shantala, psicanálise, a literatura e o vazio

Biodança, reiki, shantala, psicanálise, a literatura e o vazio

Estado da Arte

01 Maio 2017 | 10h49

Por Thiago Blumenthal

Afinal o que somos senão corpos controlados por uma massa gelatinosa, que não sabem muito bem o que querem, quando querem, e o quão dependentes são de fatores externos que configuraram sua atual e deprimente situação evolutiva (nem tão deprimente assim, podem dizer alguns)?
Se a noção de livre-arbítrio, a bíblica e a histórica, cai a cada nove foras com a neurociência contemporânea, o que somos, posto que parte do que somos feito em tese viria de nossas escolhas? Somos algo que não nos pertence, ou até nos pertence, mas sobre o qual temos pouco ou quase nenhum controle. Pleno século 21, acabamos “escolhendo” a biodança, o reiki, a shantala, a terapia comunitária integrativa, a ioga, práticas que foram complementadas pelo SUS no começo deste abril (hoje são 19 terapias alternativas). Sim, basta chegar no postinho de saúde do seu bairro com o seu cartão do SUS, esperar o atendimento e dizer “queria marcar uma ayurveda”. Sinceramente não fiz o teste, mas estou curioso para ver a reação da pobre atendente de 60 anos, funcionária pública, que mal sabe digitar meu nome corretamente, quanto mais saber o que é uma ayurveda. Bem, duvido que terão um iogue à disposição no posto de saúde do meu bairro. A bem da verdade, eu também não sei bem precisar e fujo do assunto e pulo para algo sobre o qual tenho um pouco mais de domínio.
Converso com um amigo behaviorista, para quem a psicanálise é uma farsa ainda pior que a biodança ou a dança circular. Diz ele que “essa farsa toda começou com a psicanálise, aí deu nisso que, se for ver, no fundo, não é muito diferente”. Bem, estamos diante de um Skinner paulistano, mais radical impossível. Tendo a discordar dele, pois entendo e até gostar do gracejo com a psicanálise e com as biodanças todas. Nunca esperei cura nenhuma da psicanálise e meus interesses na área (que, lembrando, não é uma ciência, nem medicina, sequer graduação) vão além dos terapêuticos. Devorei tudo que pude do Freud ao longo da vida, por motivos variados: primeiro, o monoteísmo, depois uma abordagem antropológica comparativa, para então criar um interesse bastante entusiasta em sua biografia, em especial na sua relação com a cocaína e em seus últimos de vida, com o suicídio assistido.
Depois de Freud pouca coisa me interessa e me incomoda um pouco a fixação que as pessoas têm por Lacan, que para mim só acertou em uma única frase: “o gozo não convém ao sexo”. Sei que mulheres, em geral, gostam e se imaginam saindo com seus terapeutas lacanianos, tomando vinho e dando boas risadas (enquanto eu praticamente só faltava apanhar do meu primeiro psicanalista, freudiano ortodoxo – judeu ortodoxo também – do qual fujo até hoje, atravesso a rua, evito etc). Jung, bem, Jung, o que falar de um antissemita místico que acreditava na posição das estrelas, na lua, afinal, já dizia o bardo, há muito mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Um ficcionista, o Jung.
Faço parte de um grupo de leitura composto somente de médicos do Hospital das Clínicas. Todo mês lemos um livro diferente e debatemos seus principais temas, motivos, suas possíveis relações com questões orgânicas e psiquiátricas. Tem sido muito instigante falar de literatura que não com autores, alunos de letras, artistas, livros-objeto, designers. E como meu interesse em medicina, em especial em neurologia, tem se intensificado, cada encontro é um aprendizado, uma maneira nova de ler um livro. Um livro pode ser lido de diversas maneiras, é a primeira lição que deveriam ensinar as crianças. Nem todas estão certas, algumas, aliás, estão erradíssimas, mas o que faz da literatura ser literatura é justamente sua “plurissignificação”, como dizem os professores de letras: um texto vai muito além do que se lê.
“Quando acordei, o dinossauro ainda estava lá” não significa só isso, pense um pouco, mas pense direito, não force muito a barra. Conheço quem veja Annie Hall e veja algum conflito de classe na relação entre Woody Allen e Diane Keaton. Diferentemente de literatura, ou cinema, é uma livre-associação psicanalítica obcecada e influenciada por uma tradição marxista-uspiana onde o mundo se divide entre opressores e oprimidos. He-Man é uma alegoria cristã. Clara, de Aquarius, é Dilma Rousseff (afirmação do próprio diretor que comentei aqui). Deste modo, saindo um pouco da literatura e voltando às práticas alternativas do SUS, a shantala seria uma prática da esquerda ou da direita? Pergunta fácil essa.
Penso se tudo é válido, quando me pego pensando na questão da “consciência” e na velha imagem de que somos um cavaleiro noturno cavalgando achando que temos algum controle sobre a fera que nos leva. Não temos, contudo. O conto “Um Médico Rural”, de Franz Kafka, cujo cavalo sai à disparada noite afora, sem controle de seu condutor, é um bom exemplo, até chegar a casa do moribundo enquanto crianças aterrorizadas (e o cavalo) observam das janelas. Quem de fato está sob o comando naquele conto, um dos mais assustadores do autor checo? Quem está sob o comando da escrita daquele narrador e do próprio que o cria para organizar sua trama? Depois dessas medidas, eu penso um pouco nas novas propostas do SUS, na biodança, na shantala. Jorge Amado (respeite-o ou não) tomava sua caninha antes de escrever. Tantos usaram tanta coisa, a lista é variada. Do que somos feitos? Gelatina gosmenta que atua conforme índices variados de humor, em especial a serotonina e a dopamina, muito sangue, em que toda nossa vida está ali. Não somente nossa vida, mas A vida, com A maiúsculo. Como ela é, como a concebemos, como achamos que é, como achamos que vai ser depois. Nossas memórias, nossos amores, nossos desejos e principalmente nosso inconsciente, o imponderável, o incontrolável, o que foge de nosso controle.
Exemplo primário, mas o sonho. De acordo com a tese “internalista” (ou seja, de que a “consciência” é gerada apenas após alguma atividade neural no cérebro, nunca ao mesmo tempo ou antes – a ideia de que o cérebro é mais rápido que a “mente”), podemos até supor, veja bem, supor, que qualquer experiência que tenhamos em vida nada mais seja do que uma alucinação, tal qual um sonho. Confiável, mas ainda assim, um processo alucinatório, como um sonho. Por outro lado, se tomarmos uma perspectiva externalista, nos aproximamos quase de um ideal filosófico aos moldes de Baruch de Spinoza, em que a “consciência” é o “mundo” que “experienciamos” dia após dia. (desculpe, caro leitor, as aspas são de fato necessárias ao atacar esse problema). Como o mágico diz a Jep Gambardella, ao fazer desaparecer uma girafa, “in fondo, è solo un trucco”. Esse truque é o que costumeiramente se chama de “hard problem”.

Cena de “A Grande Beleza” (2013) na qual o mágico faz desaparecer a girafa

Trato de três temas aqui para chegar a uma reflexão, primeiro de saúde, depois de ordem mais cultural (literária), e por fim de sociedade (quem somos, por que estamos sendo assim): primeiro, o rol de práticas alternativas novas do SUS; depois, uma investigação pouco binária e muito introdutória de como o cérebro parece funcionar; e por fim, onde entram nossas histórias nesse processo todo. Por partes e de trás para frente.
Tenho comigo que somos feitos de histórias, sejam elas reais, vividas de fato, ou imaginadas por um cérebro que nos exibe e nos faz crer que as vivemos dentro de um vazio profundo que sequer existe – como em um antigo conto chinês, nem o vazio existe. Ainda assim, contudo, todos temos nossas histórias, uma vez “conscientes” delas e com a memória em dia. Do que mais somos feitos, o que transmitimos às próximas gerações? São essas histórias, são os livros que escrevemos ou os que lemos, os que nos ensinam a sermos mais sinceros conosco mesmos, o retrato do que fomos, do que foram os que passaram antes. É para isso que também, e fundamentalmente, serve a literatura.
A psicanálise, por mais que tenha sido tão maltratada quase um século depois de seu auge, buscou investigar as histórias que não contamos. Um projeto de imensa dificuldade, razoável e discutível aplicabilidade médica, mas que mereceu um enorme respeito pelo que se propôs, e por ter quebrado tabus dos mais variados, acertadamente. Estranha-me o fato de que em 2017 seja usada como base única de tratamento a tanta gente que precisa ser medicada. Acho bastante anacrônico que se associe tudo à psicanálise, passado tanto tempo. A literatura por exemplo. Relacionam Proust à psicanálise, mas a Recherche foi concebida e escrita com uma base neurológica, não psicanalítica, por dois simples motivos, inclusive já citados en passant neste Estado da Arte: Proust era um entusiasta da neurologia; a psicanálise ainda levaria um tempão para nascer. Jesus Cristo era um psicanalista? Por favor. Deixem a literatura quieta.
Em um momento da ciência em que já se coloca em xeque a própria noção de mente, daí as aspas acima, como podemos conceber qualquer tipo de psicanálise? Sequer podemos conceber alguma noção de identidade, se não a recuperarmos e a refizermos de outros modos. Falar em religião então é algo ainda mais complicado, não no sentido de ateísmo (que não prego – aliás, nada prego aqui), mas de uma revisão de uma série de conceitos em relação à própria concepção de vida, morte, livre-arbítrio e o papel de um deus, ou deuses, no caso oriental (hindu, por exemplo – evidentemente que os indianos ririam de tudo isso e certo estão eles).
Por isso que meu amigo behaviorista, apesar da boutade, pode ter alguma razão em relação às práticas alternativas do SUS. Embora não esteja muito claro pra mim o que seja uma biodança, uma shantala, uma senhora aula de arteterapia, aquele reiki bem gostoso, com todo o respeito aos profissionais da área, incluindo os da dança circular, me parece haver algum sentido. Os hindus, que citei acima, dizem que estamos em Kali Yuga, um período de trevas e caos, e que vai demorar muito tempo para acabar. Que abracemos isso e que deixemos isso marcado em nossos livros. A psicanálise talvez não mais faça sentido. O custo alto, o status elitizado, a penetração invasiva em outras áreas culturais, pensadores pós-Freud que comprometeram muitos de seus conceitos, recém-formados que hoje usam até tarô depois de 5 anos de graduação em uma universidade de psicologia, tudo isso acabou. Vivemos outros tempos. Vivemos o tempo da dança circular. No SUS. Procure no seu bairro. E aceite o vazio.


Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.