A realidade na América segundo Tom Wolfe

A realidade na América segundo Tom Wolfe

Em ensaio para o Estado da Arte, o crítico Rodrigo de Lemos escreve sobre Tom Wolfe e o desejo de dar aos americanos uma literatura tipicamente americana.

Estado da Arte

14 Outubro 2017 | 13h30

Por Rodrigo de Lemos

O ensaio “Hooking Up: um mundo americano”, de 2000, dá a perceber o quanto, em quase 20 anos, as ideias de Tom Wolfe sobre os Estados Unidos envelheceram. Ou foram os próprios Estados Unidos? Tom Wolfe se punha então como uma espécie de Horácio de um novo Século Augusto americano, em que o mais singelo operário passeava em cruzeiros nas Bahamas e gozava, como do mais comum dos luxos, de confortos inimagináveis outrora por césares e luíses. Entre o texto de Tom Wolfe e nós, os Estados Unidos foram alvo do mais espetacular ataque terrorista da história (só um ano após o ensaio), embrenharam-se em (mais) uma guerra invencível, assistiram à emergência do poderio chinês, viveram o traumatismo da crise de 2008, abraçaram o populismo de direita, foram desafiados por tiranetes risíveis do Sudeste Asiático e se deixaram dividir em uma luta identitária que só deve se acirrar em detrimento à nação.

Não se deve subestimar a resiliência dessa nova Roma, vital e semi-culta. Os que assistiram, nos anos 70, aos vexames do Vietnã e de Watergate poderiam prever, na década seguinte, sua vitória sobre o bloco soviético? Ainda assim, é comum a sensação de que já soou a hora do triunfalismo fácil que se seguiu a 1989.

O paralelo dos Estados Unidos com Roma deve ter habitado Tom Wolfe para escrever esse ensaio – junto talvez àquele dito horaciano de que a Grécia conquistada conquistara seu rude conquistador latino. Tom Wolfe sublinha o quanto, em 2000, o poder americano se estende por toda parte (a indústria, o exército, a tecnociência, o entretenimento). Ainda assim, uma área permanece inexpugnável: a cultura artística e intelectual, no Estados Unidos ainda dependente da Europa como Roma no seu auge importava filósofos e poetas de uma Grécia já há muito dominada.

Do outro lado do espectro ideológico, Tom Wolfe parece partilhar com Camille Paglia o desgosto de ver a intelectualidade americana sucumbir aos charmes intelectuais parisienses e às excentricidades de Heidelberg ou de Viena.  Camille Paglia opõe o vigor da cultura popular dos EUA à French theory (invenção americana!) reinante nos departamentos de humanidades. Tom Wolfe aparece nostálgico do que ele chama de filosofia americana (Emerson, William James, John Dewey).  Ambos são sensíveis a um certo nativismo artístico-intelectual da América.

Esse nativismo está no centro do projeto literário de Tom Wolfe. À época de “Hooking up”, ele estava às voltas com a divulgação de Um homem por inteiro, romance sobre a alta sociedade de Atlanta. O livro foi destruído por gente como John Updike, Norman Mailer e John Irving. Para Wolfe, a reação negativa do meio literário tinha em parte a ver com o fato de o romance haver vendido bem, o que não foi o caso das produções recentes das três vacas sagradas que o criticavam. Essa diferença de acolhida do público traduziria, por sua vez, uma questão propriamente literária: a partir de Henry James, o mandarinato americano havia se contaminado pelo esteticismo francês e produzido uma literatura formalista, distante das preocupações do homem comum. Um homem por inteiro, com seu método jornalístico, sua imersão na realidade imediata, teria marcado, segundo Wolfe, o caminho que a ficção americana deveria tomar no século XXI.

Muito dessas opiniões de Tom Wolfe respondem à angústia literária americana. Por certo, no século XIX e XX, não faltaram ao país grandes autores (Melville, Roth, James), mas de que modo não pensar que resta algo daquela constatação de  Tocqueville em 1830: como podia a cidadela sobre a colina não ter uma literatura? País novo projetado precocemente à superpotência, é natural que fosse considerável a diferença entre a importância de seus meios de domínio material e sua relativa simplicidade literária; uma grande literatura nacional é sempre produto de elites plurisseculares. Tocqueville já sugeria que a condição social dos americanos não contribuiria a reverter esse quadro. Como poderiam esses homens da democracia, inquietos e atarefados (“produtivos”, em suma), ombrear em cultura com as elites ociosas e patrimoniais do velho continente, totalmente dedicadas à arte de viver, de pensar e de dizer? Emily Dickinson viveu isolada. Poe foi descoberto pelos franceses. Os personagens americanos de James (e o próprio James?) são frequentemente oprimidos por um humilhante complexo de inferioridade. Eliot se fez mais inglês do que os ingleses. Pound buscou seu desvario imperial na Itália fascista. Tão tarde quanto 1930, Sinclair Lewis podia ainda proclamar, no seu discurso de recepção do Nobel (lembrado por Tom Wolfe), a necessidade de a América dotar-se de uma literatura à altura de sua vastidão.

Para consolidar esse projeto de uma literatura nacional, Tom Wolfe pretende desbancar essa aristocratie charmante americana de sensibilidade alienígena e eurófila (ele retira com ironia essa expressão do poeta simbolista francês Catulle Mendès). Para tanto, sua busca é a de uma forma romanesca como que genuinamente americana, que fale ao leitor comum e que apresente uma concorrência ao cinema; trata-se, enfim, de consolidar finalmente no país uma literatura. Os meios para isso? O interesse pela “realidade”, ou seja, pela realidade social do país, com o intuito de instruir o leitor sobre os descaminhos da vida entre os homens.

Nisso, Tom Wolfe acerta uma corda da sensibilidade intelectual americana que  Lionel Trilling expusera no ensaio “Reality in America”. Trata-se, em primeiro lugar, da ideia de que há uma oposição entre a mente e a realidade. O artista deve aspirar a ser nada mais que um veículo dessa realidade, entendida como um material cru, desordenado, pesado, informe. Toda obra que demonstre vivacidade de intelecto (e Henry James é o exemplo dos exemplos) tende a ser vista com suspeição, como uma retirada quanto ao caos da realidade em favor de uma ordem perfeita mas fictiva, do insubstancial, do fantasmagórico. O verdadeiro artista é aquele que monta em tratores, ajuda no arado, limpa latrinas – enfim, tem o contato com a realidade, essa coisa avivadora que se encontra em estado puro em tratores, arados e latrinas. Trilling sugere que há algo de político nessa divisão: não é essa realidade material facilmente acessível por todos algo de naturalmente mais democrático do que os jogos da mente, por definição privados e necessitados de cultivo, logo suspeitos de elitismo? O mais importante, conhecendo a realidade, pode-se fazer algo com ela, dar vazão à vontade de aperfeiçoá-la. Tocqueville já identificara nos EUA uma inclinação pelo que chamou de perfectibilidade indefinida

Dificilmente o conservador Tom Wolfe se daria um objetivo assim reformista. Ainda assim, ele quer se fazer um espectador objetivo da realidade para nos mostrar no que ela consiste e, sobretudo, o que podemos fazer com ela, ao menos individualmente, moralmente. Dois aspectos, entretanto, chamam a atenção nesse projeto literário. O primeiro é que Tom Wolfe não vai buscar na própria tradição americana de realistas como Steinbeck o modelo para sua empresa literária, mas precisamente… na França – durante palestra proferida no Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre, em 2009, depois de escandalizar a intelligentsia local afirmando que Matisse não sabia pintar, Wolfe se reclamou de Balzac e de Flaubert e de Zola como o tipo mesmo dos romancistas do real que nos advertem sobre o quanto there are bad people out there. Para Tom Wolfe, seriam os Estados Unidos tão província cultural da Europa que seria novamente a França a afiançar sua independência (agora artística)?

Podemos também nos perguntar: se a realidade é rainha, por que precisaríamos mesmo de ficção? Para que fabular essa realidade? Apenas para a afirmação cultural de uma nação poderosa e jovem? Não bastaria essa forma, americana entre todas, que é a do jornalismo literário, precisamente aquela em que Wolfe se ilustrou antes dos romances e em que ele nos deixou retratos cômicos e desabusados da nossa época, como em Radical Chic e From Bauhaus to our House?

Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.