A reforma de ensino: por que demoramos tanto para fazê-la?

A reforma de ensino: por que demoramos tanto para fazê-la?

Por que se passou tanto tempo até que o sistema de eletivas fosse criado no país? Responda nos comentários e ganhe um brinde se acertar até a publicação no próximo artigo.

Estado da Arte

01 Agosto 2017 | 13h58

Por Heloisa Pait

O presidente Michel Temer sanciona, ao lado do ministro da educação, Mendonça Filho, a Reforma do Ensino Médio. FOTO: Senado Federal.

A aparentemente singela reforma do ensino médio implementada pelo Ministro Mendonça Filho, que permite aos estudantes escolherem as matérias de estudo, pode ter sido a mais profunda e de efeitos mais duradouros da história recente da educação brasileira. Outros educadores mais badalados pela intelligentsia nacional propuseram expansões de ensino, partindo do princípio de que o que é bom para a Maria Antônia é bom para o Brasil. O ensino disciplinar e exegético dos jovens franceses lá nos anos 1930 foi apenas replicado, e não adaptado pragmaticamente a um país em modernização acelerada, como foi o Brasil no século XX.

Nossas universidades produzem cientistas ou, melhor, estudiosos críticos das ciências em escala industrial, enquanto deveríamos ter formado cidadãos e profissionais para uma economia em expansão numa sociedade democrática. No ensino básico, isso se refletiu em professores que sabem discorrer sobre os problemas conceituais dos vários enfoques educacionais, mas pouco sobre o ensinar e menos ainda sobre a matéria.

Como outras reformas deste governo, esta foi feita de supetão, sem o amplo debate que em tese aprimoraria a proposta, na prática a descaracterizaria. Ilustra bem isso a volta das ciências sociais ao currículo obrigatório, matéria importante para os anos intermediários do ensino superior, quando os jovens já acumularam experiência e conhecimento suficiente que mereça o esforço de síntese do pensamento social.

Mas o mais relevante não é o rol de matérias optativas ou obrigatórias, sobre o qual naturalmente o debate se deu, e sim a possibilidade em si de escolha, a que os grupos corporativos não conseguiram se opor, dada a dificuldade de defender, na esfera pública, o direito de obrigar.

Já houve no passado escolha no colegial. Minha mãe fez o científico, pois as outras opções, o clássico, o normal e o secretariado, para ela “eram curso de espera-marido”. Já eu fiz biológicas, pois era isto ou exatas. Não eram bem escolhas, o leitor convirá, no sentido de espaços de experimentação para estudos futuros ou de formação para quem fosse a seguir usar o conhecimento adquirido. Tratavam-se apenas de especializações precoces.

Nesses modelos de escolha geral, o aluno se dirige a um tronco de disciplinas afins, a um caminho portanto. Sua visão individual não é explorada. Uma vez ouvi um professor universitário reclamar que hoje em dia os jovens não sabem mais o que querem. Como exemplo, citou um vestibulando que estava em dúvida entre medicina e jogos eletrônicos. Ora, é exatamente desses jovens, que conseguem conectar conhecimentos aparentemente díspares, que precisamos: a medicina hoje faz uso intenso de formas remotas de exames e intervenções.

O ideal é que o aluno na verdade não seja obrigado a “saber o que quer”, ou seja, a replicar o conteúdo na forma exata em que foi transmitido, e possa ao lado da medicina dialogar com seus colegas nos jogos, nas comunicações e na computação, de modo a criar equipamentos médicos inteligentes, precisos e de uso fácil. Tanto o sistema de tronco único como o sistema de escolhas por tronco, como os que citei acima, vedam ao estudante essas pontes inesperadas. E o modesto democrata pernambucano botou uma cunha nesse sistema entre nós aceito sem reservas, com implicações também no ensino superior.

O aluno, quando chega à graduação, não tem hoje o hábito de escolher. Ele conta envergonhado que não sabia de que o curso tratava antes de as aulas começarem e se empenha em vestir uma identidade profissional às vezes arbitrária, mas em geral inexistente. Suas reivindicações acadêmicas e assistenciais são do estilo mais-do-mesmo, pois lhe faltou o treino para identificar o que quer saber, por que, e em que será útil. Quando traz para a aula um ponto de vista inesperado, tende a fazê-lo em tom desafiador, como se sua visão particular não tivesse lugar ali.

Quando, finalmente, se dá conta que não se encaixou no curso, resolve fazer outro vestibular com sentimento de derrota, como se demérito seu fosse não suportar todas aquelas disciplinas iguais. No momento em que começarem a entrar no ensino superior os alunos do novo ensino médio, por mais precárias que sejam suas atuais escolhas, quem está na sala de aula verá a diferença. Os alunos perceberão que o saber é como todas as outras coisas que fazem parte da vida deles, sobre as quais exercem seu direito de escolha. Virão mais ativos, por um lado, e mais questionadores, por outro.

A busca pelo conhecimento é, na sua essência, um ato de liberdade. Um movimento de corpo e alma em direção ao desconhecido. Essa verdade óbvia pode ter chegado ao nosso sistema de ensino sem que tenhamos nos dado conta. Os gestores que administram currículos arcaicos favorecendo seus feudos particulares enfrentarão percalços, enquanto os professores de estilo mais contemporâneo, isto é, posterior à invenção de Gutenberg, se sentirão, acredito, mais em casa.

Os americanos foram os precursores da introdução de eletivas no ensino superior; em Harvard, o presidente Charles William Eliot a implementa na década de 1870, ou seja, há 140 anos. (Escrevi sobre a história da educação superior americana em meu artigo “As Faculdades de Artes Liberais Americanas: raízes, adaptações e desafios atuais”, na coletânea Os Estados Unidos no Mundo Atual, da Editora Juruá). Na Europa continental, berço orgulhoso do conhecimento disciplinar, o sistema de eletivas se expande com o programa Erasmus de intercâmbio, que exige equivalências entre disciplinas de países com tradições muito distintas. Tanto o trânsito interdisciplinar como internacional se faz absolutamente necessário hoje, dada a complexidade de nossos problemas urbanos, ambientais, de segurança ou comunicativos.

Se o enorme passivo financeiro que resultou da grande marcha para trás dos últimos governos torna-se depressivamente visível nos déficits públicos e obras inacabadas, o passivo de conhecimento gerado por uma educação arcaica e enclausurada em disciplinas é de muito mais difícil mensuração. Como saber quantas startups deixaram de ser criadas pelos criativos jovens brasileiros? Como saber que métodos educativos ou de enfermagem deixaram de ser imaginados? Como calcular o benefício de algo que não chegamos a ver? A pequena reforma de Mendonça Filho poderá nos dar uma ideia disso, nos próximos anos. O ideal, entretanto, é que ele tenha força de propor algo semelhante no ensino superior. A ver.

A pergunta que fica, no entanto, é a seguinte: por que se passou tanto tempo até que o sistema de eletivas fosse criado no país? Responda nos comentários e ganhe um brinde se acertar até a publicação no próximo artigo.

 

Heloisa Pait é socióloga e professora da UNESP.