A perplexidade

A perplexidade

Há uma função legítima (restrita, mas firme) para o Estado, e é melhor jogar com regras ruins do que abolí-las porque os jogadores trapaceiam sem parar.

Estado da Arte

20 Maio 2017 | 08h00

Por Pedro Sette-Câmara

Escrevo o título “a perplexidade” e me parece vir a sensação de que este seria o título de um romance de Milan Kundera. São seis da manhã de quinta-feira, 18 de maio, minhas traduções estão atrasadas, e, como o apartamento onde moro fica na encosta de um morro, ouço os pássaros cantando em total indiferença à delação da JBS.

O que me surpreende é que eu me sinta mais próximo desses pássaros do que das pessoas que, paradoxalmente, espero que venham a encher as ruas no domingo próximo para protestar.

Aliás, neste momento, nada me interessa mais do que tentar descrever paradoxos, sem a menor intenção de resolvê-los.


O rei contra o guerreiro

Num discurso avidamente estudado por todos aqueles ligados à obra de René Girard, Ulisses – sim, aquele Ulisses mítico – explica o que acontece quando as estruturas sociais se dissolvem. O autor do discurso é Shakespeare, e o leitor pode encontrá-lo na primeira cena do terceiro ato de Troilo e Cressida, obra que, apesar de não ser das mais conhecidas, foi chamada por René Girard de sua “Bíblia”.

A circunstância de Troilo e Cressida é a guerra de Troia, justamente o trecho que é contado pela Ilíada. O poema de Homero, recordemos, começa com uma crise política e militar que – não que isso seja um consolo – tem nuances morais mais grotescas do que propina e carne podre. Agamêmnon é o rei de todos os gregos. O exército grego está sendo atacado pelo deus Apolo. O motivo: o próprio Agamêmnon tinha tomado a filha de Crises, sacerdote de Apolo, como sua escrava sexual. Como teve de devolvê-la para aplacar o deus, mandou pegar Briseida, a escrava sexual de Aquiles, o qual, revoltado, decidiu ficar em sua tenda, sem participar da guerra, só saindo para vingar a morte do amigo Pátroclo. A “cólera” de Aquiles, que é a primeira palavra do texto grego da Ilíada, é essa cólera: a pirraça por lhe terem tomado a escrava.

 

Um emoticon do século I a.C.

Nós, hoje, não somos guerreiros gregos ansiosos por saquear Troia. Achamos que a guerra do Iraque foi uma resposta descabida a um ato de terrorismo, e a destruição de Troia por causa do rapto de uma mulher dificilmente nos convenceria. Para piorar, Agamêmnon e Aquiles, com seus gostos por escravas sexuais, mais parecem membros do Estado Islâmico.

Mas bem. Voltemos ao discurso de Ulisses, que fala do que tem sido a nossa experiência brasileira diária: se um guerreiro questiona o rei, quem é guerreiro, quem é rei? Foi Agamêmnon quem se rebaixou primeiro? Quem tem legitimidade? Difícil saber. Só que, nessa confusão, quem começa a confundir-se são os papéis sociais. Aquiles não cumpre sua obrigação. Quem a descumpriu primeiro? Alguém tem um dever maior do que o outro?

O espectador descompassado 

Vamos tentar pensar no descompasso que isso traz para a alma. É difícil lembrar de alguma literatura política que não pressuponha ou almeje alguma harmonia entre o indivíduo e o Estado, entre indivíduo privado e autoridades. Claro, você pode fingir que é o super-homem nietzscheano e tirar de si toda a força para viver por si, mas nós, reles mortais, precisamos dar alguma credibilidade ao Estado. No momento em que ele perde essa credibilidade, no momento em que Agamêmnon não dá o exemplo e governa apenas porque sim, sentimos que é legítimo antagonizá-lo, enxergando-o como rival, alguém no mesmo nível, quando não abaixo.

Porém, se para nós o Estado tem a legitimidade de Agamêmnon, o resultado é aquela sensação de que há uma mentira fundamental e corrosiva, irradiando-se por toda parte, presente em cada ato em que o Estado está presente, da compra de uma água à transmissão de uma herança; e a consequência dessa sensação repetida é outra, já nomeada por Stendhal: a sensação de ressentimento impotente. Eu, um simples rapaz de classe média que nunca encostou num revólver, não posso matar Agamêmnon; porém, se um Aquiles pode matá-lo, por que eu choraria? Danem-se esses dois patifes.

Ou ainda: como não trasladar a falta de credibilidade do governo para o próprio Estado? Para um cidadão privado, há um contágio. Se uns são assim, se 1890 são assim, que diferença, aliás, haveria entre esses e e os demais? E entre esses todos e aquelas pessoas que sempre declararam querer fazer concurso público não para prestar um serviço ao público, mas para obter estabilidade e altos salários pagos por uma maioria que não tem estabilidade, e no mais das vezes também não tem altos salários?

Uma anedota a respeito. George Bernard Shaw teria perguntado a uma respeitável senhora se ela dormiria com ele por um milhão de dinheiros. Diante do “sim”, ele perguntou: “E por cem?”. Indignada, a senhora retrucou: “O que você acha que eu sou?”. Shaw limitou-se a constatar: “O que você é nós já sabemos, só falta saber o preço”.

Igualmente, entre delatores e delatados na Lava-Jato e concurseiros inveterados, todos são extrativistas: só falta saber o preço. Qual a diferença entre Agamêmnon e Aquiles?

Ir ao fundo das coisas, sem no entanto voltar à superfície

Existe uma função legítima (idealmente pequena e restrita, mas muito firme) para o Estado, e é melhor jogar dentro de regras ruins do que abolir as regras porque os jogadores trapaceiam sem parar. Nem há nada de mal da maioria dos pequenos funcionários públicos: por exemplo, supor que um professor da rede municipal seja movido por ganância e extrativismo seria cuspir na cara de quem enfrenta crianças espiritualmente (ou até fisicamente) abandonadas pelos pais. Claro que não é aí que vamos encontrar Aquiles ou Agamêmnon.

Porém, o efeito mais grave, por ser irresistível, é aquele que levou o leitor a me acompanhar até este ponto, que na verdade é a origem do discurso de Ulisses: a gravidade de certas transgressões dá vontade de colocar o sistema inteiro em xeque. Neste momento, a paixão só consegue querer saber dos últimos detalhes sórdidos, e a razão parece querer ir até os fundamentos. Só que não é possível acompanhar a política como se fosse uma novela de podridões e manter o respeito pelas instituições, assim como colocar as instituições racionalmente em suspenso lhes garante uma legitimidade no máximo provisória. A paralisia vem desses dois lados.

A perplexidade, senhoras e senhores. São sete da manhã agora, não faço ideia de porque os pássaros cantam, e só espero que seja porque tentam tentar colocar alguma ordem na própria alma.

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ