A música klezmer: da Bessarábia a São Paulo

A música klezmer: da Bessarábia a São Paulo

Conheça um pouco mais sobre a música judaica que nasceu para fazer as pessoas dançarem.

Estado da Arte

17 Outubro 2017 | 11h40

Por: Felipe Pait, com a colaboração de Heloisa Pais

Klezmer é uma palavra na língua yiddish que designa instrumentos musicais, e por extensão os músicos que tocam com instrumentos. A história do estilo musical que hoje se designa, de forma um pouco pleonástica, como “música klezmer” não é muito bem documentada. Ele tem origem na Europa Oriental, aproximadamente na Bessarábia e suas vizinhanças, em território atualmente incluído na Moldávia, Romênia, e Ucrânia. Os klezmorim – plural da palavra de raízes hebraicas klezmer – tinham a tarefa de conciliar na música formas apropriadas para rituais religiosos, festas populares, e celebrações em família, que de qualquer modo se confundem na tradição judaica. Para isso partiram de formas tradicionais do canto sagrado judaico, e incorporaram elementos da música folclórica regional, com destaque também para influências da música húngara, grega, turca, e especialmente cigana, a música dos roma, povo com quem os klezmorim tinham especial afinidade. Um belo filme que revela o tapete multicultural da região é o Cartas da Bessarábia, da carioca Leila Sterenberg. Através dessas últimas influências, e também por contato direto, a música klezmer se relaciona com a música dos sefarditas, judeus que se estabeleceram nos Bálcãs e na Ásia Menor após serem expulsos da Península Ibérica, mas que têm uma tradição musical distinta, como também são distintas as tradições musicais dos judeus Mizrahi, do Levante ou oriente.

Vinda de onde for, a música klezmer nasceu para ser uma música dançante. Os temas instrumentais podem ser rápidos e alegres ou lentos e melancólicos, ou até uma mistura de ambas as coisas, mas o objetivo original era fazer as pessoas dançarem. O repertório de canções yiddish, por sua vez, contém muito de narrativa e crítica social. Desses encontros brotam influências que se espalham pelo mundo afora, como se pode ver nas canções de cabaré, nos grandes temas dos musicais da Broadway, e até no tango argentino. Podemos dizer que o klezmer é a primeira “World Music”.

Durante os séculos XIX e XX, com a mudança dos centros da cultura judaica para a Europa Ocidental, para as Américas, e posteriormente para Israel, o klezmer sofre transformações. Num primeiro momento os estilos tradicionais ficam relegados às festas familiares, de forma um pouco saudosista, e também um pouco kitsch, à medida em que os músicos judeus se dedicam aos estilos mais prestigiosos na sociedade como um todo: a música clássica, os musicais americanos,  e a música israelense. Buscar influências e citações entre estas últimas e o klezmer é um divertido exercício, que talvez seja melhor praticado ouvindo a música do que por escrito. Já a relação da cultura judaica com o klezmer segue paralela a sua relação com a língua yiddish: uma mistura de rejeição, reverência, e nostalgia, ao meio de um conhecimento decrescente.

A partir dos anos 1970 começa um renascimento da música klezmer. O próprio uso do termo klezmer, que tinha uma certa conotação pejorativa, é parte desse renascimento: por muito tempo os praticantes do estilo se referiam à sua arte simplesmente como “música”, “música yiddish”, ou talvez “música freilekh”, ou seja música alegre, quando era necessário ser mais específico. Sem abandonar seu lado folclórico, o klezmer vai se tornando uma música contemporânea, incorporando elementos de diversos estilos musicais tradicionais, populares, e experimentais, notadamente o jazz. O klezmer retoma seu aspecto de fusão cultural.

Além de dialogar com outros aspectos da música atual, os klezmorim, não mais apenas músicos judeus, voltam atrás no tempo, além da música de bar e bat mitzvahs e casamentos, buscando inspiração na música religiosa e devocional, e nas fontes folclóricas mais antigas, da Europa Oriental e de outros lugares. Essa música de fusão é ouvida em concertos e clubes de vanguarda em Nova York, em Berlin, nas grandes cidades da América e da Europa. E fazendo mais um círculo, aparecem dando às festas familiares um tom mais “cutting edge”, experimental.

Dessas recuperações, uma merece menção especial. Durante a Primeira Guerra Mundial, Hirsch Lewin, nascido em Vilna, é feito prisioneiro de guerra e forçado a trabalhar numa fábrica de locomotivas. Depois da guerra decide permanecer em Berlin, montando uma loja eclética de livros judaicos e gravações musicais em diversas línguas. Durante os anos 1930, ele cria uma vasta e renomada coleção de gravações fonográficas com o selo Semer – pronunciado “Zemer”, a palavra hebraica significando música ou canção que aparece na raiz do termo klezmer. Sua loja e a coleção são destruídas pelos nazistas em 1938: todos os projetos totalitários mostram sua ferocidade contra manifestações culturais inofensivas. Hirsch Lewin e a família conseguem escapar, numa longa história que envolve deportações, prisões, e naufrágios, e se estabelecem no ramo musical em Israel. No meio de perdas e tragédias maiores, a coleção fica esquecida por mais de 60 anos.

Isso até os anos 1990. Depois da queda do Muro, musicólogos europeus viajam por toda a Europa, e milagrosamente conseguem reconstituir boa parte do catálogo da Semer. Artistas de todo o mundo convergem em Berlin e, inspirados pela coleção, fazem um túnel do tempo para a Nova Música Judaica, combinando os cabarés de Berlin, melodias folclóricas russas, hits do teatro yiddish, árias de ópera, o canto do chazan de sinagoga, e outras influências.

Podemos ouvir essa música aqui em São Paulo no Festival Internacional de Música Judaica, ou Kleztival, entre 21 e 29 de outubro, que nessa sua oitava edição focaliza o cabaret na música judaica, entre outros temas. A banda The Painted Bird, integrantes da Semer Ensemble e de outros grupos famosos como o Klezmatics, e diversos klezmorim brasileiros e internacionais vão explorar diversas vertentes da música judaica em shows e eventos, a maioria abertos ao público e gratuitos. A programação e maiores informações podem ser obtidas na página do Kleztival.

A cada ano, o festival se espalha pela cidade de São Paulo, ocupando espaços comunitários, como associações culturais judaicas, espaços culturais consagrados da cidade, como o SESC, e também espaços públicos, como o agitado metrô de São Paulo. Públicos bastante distintos se encontram para apreciar a música klezmer, que soa ao mesmo tempo familiar e exótica aos ouvintes. Na edição do ano passado, num centro cultural do bairro de Higienópolis, músicos israelenses inspirados pela música turca transportavam o público para um outro plano espiritual. Já na estação Sé do metrô, um longo show atraía e animava os paulistanos, interrompendo o dia de trabalho ou, para alguns, de dura busca por trabalho. O público “caiu” no klezmer como cai no samba, no forró, nos ritmos que consideramos como genuinamente brasileiros. Klezmer não é sutil: é uma música nas suas origens feita para dançar mesmo, é sonora, é grande. Seu som tomava toda a estação, reverberando até as plataformas dos trens. E lembrando que nossas culturas mais impactantes são feitas de elementos emprestados de outras que mal conhecemos. Num momento em que a intolerância e a xenofobia ressurgem, a alegria do klezmer e sua trajetória ziguezagueante entre as culturas só pode fazer bem.

Felipe Pait é professor no Laboratório de Automação & Controle da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Estudou engenharia elétrica na USP e na Universidade Yale

Heloisa Pait é socióloga e professora da UNESP