A Megalópole sem Telefone: O direito à cidade digital num país em desenvolvimento

A Megalópole sem Telefone: O direito à cidade digital num país em desenvolvimento

A cidade contemporânea é como um espaço em camadas, onde convivemos simultaneamente nos meios físicos, culturais e digitais.

Estado da Arte

06 Fevereiro 2018 | 08h00

Por Heloisa Pait

1. Scott McQuire: dilemas da participação pública na cidade em rede

Uma metrópole como São Paulo não seria possível sem todos os cabos, antenas e aparelhos que nos conectam dia e noite, numa trama impressionante de dados, vozes, mapas e imagens. Nas ruas, arranjamos nossos compromissos e nosso lazer através de telefones celulares que rapidamente se tornaram pequenos computadores. Um pouco aos trancos e barrancos, também agentes da lei começam a ter bancos de dados a seu dispor para suas rondas. Nos protestos de rua unimo-nos ao menos nisso: fomos às ruas com celular no bolso, compartilhando fotos e vídeos que mostravam nossa indignação, nossa alegria e nossas fantasias naquele longo carnaval que foram os anos 2013 a 2017.

Essa cidade não é novata no que diz respeito aos meios de comunicação. Ainda em 1919, uma multidão de torcedores se reuniu em frente à redação deste jornal para acompanhar um jogo de futebol que acontecia no Rio de Janeiro. O jogo era narrado por telefone aos repórteres, que informavam o público pendurando placares com gols e melhores lances. Na mesma época, não era raro que ativistas políticos exaltados empastelassem os jornais, isto é, que entrassem quebrando tudo e especialmente embaralhassem os tipos gráficos, transformando a retomada da atividade de impressão num pesadelo. (Meu bisavô, conta a lenda familiar, impediu um desses arroubos democráticos com uma carabina na porta de sua tipografia.) Com amor ou com ódio, divertindo-se com o esporte ou impondo sua verdade, temos nesta cidade uma velha intimidade com os meios de comunicação. Já ao final dos anos 1970, com a impressionante penetração da televisão, era possível andar pelas ruas de São Paulo ao cair da noite e ouvir ininterruptamente os diálogos das novelas, como um som de fundo de toda uma cidade.


O pesquisador australiano Scott McQuire, que esteve no Brasil em 2013 para uma série de palestras, sustenta que a densidade da rede comunicativa atual, aliada à popularização dos aparelhos digitais portáteis, reconfigura o espaço urbano de modo radical. Se Henri Lefebvre defendeu o “direito à cidade”, ou seja, o direito de vivenciar plenamente os espaços urbanos, McQuire atualiza o termo, chamando a atenção para um “direito à cidade em rede”, ou seja, um direito de participação e pertencimento a um espaço que é não apenas físico ou cultural, mas também coberto pelo digital. Em Media City, de 2008, McQuire traz uma fascinante discussão sobre a experiência da cidade moderna e as transformações da relação entre público e privado trazidas tanto pela arquitetura e pelo urbanismo como pelos meios de comunicação. Sua reflexão sobre as casas de vidro – expressão da fé modernista na generosidade dos espaços para a vida em comum – é particularmente interessante.

Em Geomedia, de 2016, McQuire se debruça sobre a necessidade de aprendermos uma nova sociabilidade urbana para que possamos aproveitar todo o potencial que a cidade digital oferece, sem entretanto despertarmos numa cidade completamente monitorada pelo Estado e por empresas de tecnologia. Ele devota um capítulo do livro ao Street View, aplicativo do Google que nos permite passear pela cidade recomposta por uma aparente fotografia contínua. Na fotografia original, registro pontual de uma cena, de um ângulo, a impressão no papel representa a cidade: nós revelamos um filme. Nesse aplicativo, a cidade é ela mesma habitada, para usar um termo de Paolo Carpignano, sociólogo italiano que se debruçou sobre temas correlatos a partir de suas reflexões sobre a televisão. McQuire cita alguns pequenos descompassos entre a cidade virtual do Street View e as cidades em concreto e aço que ela pretende abarcar. Logo nos vêm à mente, entretanto, os motoristas de nossas megalópoles que, seguindo rotas de aplicativos, não enxergam as notórias barreiras impostas pelo crime. Se pedissem orientações do modo antigo, janela abaixada, cotovelo apoiado, sorriso simpático e olhos perdidos, seriam avisados de perigos iminentes pela arcaica rede de informação dos viajantes.

McQuire enfatiza a transformação de nossa relação com o outro e com a cidade que o uso intenso dos aparelhos móveis traz. Mas qual é, exatamente, a novidade dos meios de comunicação? Em que sentido faz diferença ser testemunha de um crime por uma câmara de TV ou a 10 metros de distância? Como difere a bronca de uma mãe por skype ou no quarto de um adolescente? Que relação temos com nossos representantes que encontramos em palestras ou batemos papo pelo WhatsApp? Se você anda numa fase mais Eclesiastes – “o que já foi voltará a ser, e o que foi feito será repetido” –  do que Marshall McLuhan – “o meio é a mensagem” – a leitura da coletânea Media Witnessing, que examina os vários aspectos do testemunhar na era da comunicação, pode ser de seu agrado. O que nos dias de hoje significa estar presente quando ocorre um evento? Os meios de comunicação são partes de nós, são nossos olhos remotos? É particularmente notável o artigo de Menahem Blondheim e Tamar Liebes que resgata o conceito bíblico de “testemunho” e o compara com nossa visão atual. Por outro ângulo, eles tratam das mesmas questões de MacQuire: o que significa, hoje, estar junto do outro, compartilhar um momento e um lugar e poder depois falar dele enquanto partícipe?

Talvez seja ideal pensar na cidade contemporânea como um espaço em camadas, onde convivem as relações imediatas saturadas de sentidos; as comunicações urbanas anônimas, como os pedidos de informação casuais; os sinais luminosos e sonoros que explicam, à distância, o que acontece mais adiante; as redes de comunicação analógicas, como o rádio, a TV e o telefone, que marcaram profundamente minha geração, a que cresceu na segunda metade do século XX; e finalmente as redes digitais atuais, de cobertura crescente e enorme diversidade de uso. Pensando assim, “estar junto” passa a se dar em dimensões múltiplas, que às vezes se interpenetram. Por exemplo, nas grandes manifestações de rua dos últimos anos, havia momentos em que estávamos juntos nas ruas e também aparecíamos juntos em telas de TV ou de celular – coabitávamos a cidade em vários planos ao mesmo tempo o que, acredito, nos causava uma sensação eufórica.

Da Califórnia, o avatar de Mark Zuckerberg faz um “high five” com sua amiga de Face durante uma visita a uma cidade de Porto Rico recém visitada pelo furacão Maria, enquanto comenta com o espectador: “uma das coisas que é realmente mágica sobre a realidade virtual é que você pode ter o sentimento de que está realmente em um lugar!”

2. Problemas urbanos e comunicativos na cidade de São Paulo

Na primeira parte deste artigo, fizemos um apanhado das idéias de Scott McQuire em seus livros mais recentes sobre as experiência urbana contemporêna. Na segunda, vamos pensar, à luz dessas idéias, sobre os problemas urbanos e comunicativos da cidade de São Paulo.

Para aprendermos a coabitar a cidade mediada (media city) ou o mundo mediado (geomedia), McQuire aposta na experimentação da arte e, em particular, nas grandes telas públicas que congregam a participação de vários atores que nela se reconhecem. Para McQuire, tais experimentos abrem nossa sensibilidade para reconhecer o outro, mesmo distante e anônimo, como parte de empreitada coletiva na qual também atuamos. Seu texto, sempre inteligente e cauteloso, lembra o passado nem sempre democrático das grandes manifestações públicas e do uso simbólico da tecnologia. De qualquer modo, ele deposita esperanças nos novos eventos mediáticos, organizados em rede mas ancorados no espaço urbano, como expressão de uma nova cidadania.

Será um exercício interessante recolocar a questão de McQuire sobre a sociabilidade urbana em transformação na nossa cidade muito concreta, com seus problemas de megalópole do terceiro mundo – habitação precária, desemprego, enchentes, violência, doenças tropicais, educação precária, problemas nos transportes e na saúde. Nos últimos anos, um grande esforço foi feito por desenvolvedores de aplicativos para conferir maior transparência às eleições e aos gastos públicos, questões centrais para a nossa democracia. Também há aplicativos buscando lidar com problemas urbanos dramáticos, como aqueles que mapeiam tiroteios e atos de violência policial no Rio de Janeiro. Parece-me pouco, ainda. Será que não deveríamos explorar mais nossa criatividade para lidar com nossos problemas de terceiro mundo, com a tecnologia de primeiro?

Veja, por exemplo, a questão da falta de vagas em creches, que aflige tantas mães trabalhadoras, em várias classes sociais mas principalmente nas mais baixas. Seria acaso utópico imaginar uma plataforma que conectasse estas mães, para que compartilhassem cuidados com os filhos? Faltam a nossos estudantes de escolas públicas exemplos de profissionais liberais e empresários bem sucedidos. Não seria possível desenvolver um programa de tutoria, talvez com apoio de instituições culturais, a partir do encontro digital? O aplicativo Tem Açúcar?, de trocas de objetos entre vizinhos, tem algo de poético, de singelo, em buscar colocar esses estranhos modernos em contato, como os vizinhos de antigamente. Não poderíamos buscar nessa solidariedade cotidiana soluções para nossos problemas mais dramáticos? A plataforma Rio e Ruas, que pretende reconectar o paulistano à vida fluvial, soterrada, de sua cidade, é um exemplo perfeito da busca pela reapropriação do espaço urbano, no caso natural e histórico, de que fala McQuire. Enfim, há todo um plano urbano que precisa ser adensado com iniciativas digitais.

Cresci na São Paulo anônima e violenta dos anos 1980. Adolescente, pegava ônibus para lugares remotos da cidade, tendo como bússola indicações dadas por telefone e os valiosos guias de ruas, grossos volumes que ainda se encontram à venda nas bancas de jornais. Hoje, encontrando os amigos da época, não compreendemos como conseguíamos chegar a nossos destinos, com informações tão fragmentadas e meios de transporte tão precários. São Paulo era maior do que suas redes. Não era uma cidade propícia ao encontro casual da cidade moderna, celebrada por sociólogos e urbanistas do início do século XX, pois para que esse encontro ocorra é preciso não só estarmos no mesmo lugar físico, mas também imaginário – e as redes existentes não eram o suficiente para constituírem esse imaginário. Já era uma megalópole, mas sem cobertura telefônica, uma tecnologia do século XIX! Isso seria o equivalente a uma metrópole da virada do século sem o relógio de bolso que sincronizava os múltiplos compromissos urbanos, ou ao Império Romano sendo administrado por iletrados.

O celular, nos anos 1990, ajudou a recompor essa relação entre espaço urbano e mental. A entrada do Google nas favelas do Rio e de São Paulo, mais recentemente, incorporou regiões da cidade ao imaginário coletivo. Independentemente de quais políticas públicas possamos apoiar para essas regiões de nossas cidades, é importante que elas façam parte de nosso pensar, que existam em nossa concepção urbana, não apenas como locais idealizados ou temidos, mas reais, concretos, habitados e habitáveis. Em nossas cidades contemporâneas, estar fora do universo digital significa exclusão simbólica, com resultados muito concretos. As favelas, os rios, a periferia, as catacumbas mentais de nossas cidades, assim como os possíveis laços de solidariedade e cooperação, podem e devem ser abarcados por esse manto digital que McQuire acredita estar transformando nossa sociabilidade. Eu, mais cautelosa, acredito que se trate apenas de um manto adicional superposto ao nosso mundo social comunicativo, que começa, quando ainda somos bebês, no momento em que um sorriso ou um gesto expressivo altera relações sociais que não compreendemos completamente, e vai adquirindo camadas ao longo de nosso desenvolvimento individual e coletivo.

De qualquer modo, o exercício de cidadania digital ao qual McQuire nos convida é absolutamente necessário e deve iluminar nossas políticas públicas. Eliminar barreiras ao adensamento comunicativo é nossa tarefa primordial; podemos começar acabando com o monopólio dos correios, instituição que não tem cumprido seu papel de conectar o país e especialmente as regiões mais necessitadas. Estabilidade jurídica e simplificação da vida empresarial ajudariam empreendedores digitais locais a atacar problemas também locais, pois é pedir demais aos garotos do Vale do Silício que tenham dengue e chicungunha na cabeça enquanto escrevem seus programas. A relação brasileira com os meios de comunicação sempre foi ambígua. Através de nossa história, em vários momentos botamos o pé no acelerador da economia e o freio nos meios de comunicação, e é de se espantar que não tenhamos derrapado mais. Está na hora de deixar que as redes comunicativas alcancem todo o espaço no qual vivemos.

Heloisa Pait é professora da sociologia na Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP) e membro do conselho consultivo da Open Knowledge Brasil.

Para saber mais:

  • Media Witnessing, coletânea de Paul Frosh e Amit Pinchevski.
  • The Media City, livro de Scott McQuire.
  • “O Direito à Cidade em Rede”, artigo de Scott McQuire na coletânea No Emaranhado da Rede.
  • Geomedia, livro de Scott McQuire.
  • “Media Epiphanies”, artigo da autora e de Juliana Laet na coletânea Brazil: Media From the Country of the Future.
  • Orfeu Extático na Metrópole, livro de Nicolau Sevcenko.