A justiça poética e o nanismo do debate público

A justiça poética e o nanismo do debate público

Estado da Arte

08 Abril 2017 | 16h14

Por Fabrício Tavares de Moraes

Antes de seu ostracismo do debate público, a confissão de fé na catolicidade de uma comunidade resguardava a crença na unidade da raça humana e na universalidade de determinados valores. Todavia, contrariamente à crença de Comte de que a marcha humana dar-se-ia pelo cruzamento de três estágios sucessivos, nomeadamente, o da religião, o da metafísica e o da ciência, aparentemente optamos por um politeísmo no qual os sacrifícios ocorrem nos altares de nossos caprichos.

Dentre os cacoetes prevalentes nas discussões públicas, os termos “representatividade” e “pluralismo” assumem, de modo gradual, a qualidade de hocus pocus que transubstanciam as obras mais sofríveis em paradigmas estéticos das academias e galerias de arte. Em contrapartida, qualquer livro ou filme que não contenha em si, como mosaico, as etnias, culturas ou grupos supostamente marginalizados de determinada sociedade é descartado como modelo de perpetuação do status quo. Há, subjacente a essa perspectiva, a ideia de que toda arte, por mais consciente que seja de seu material (as palavras, a imagem, os sons etc.) e por mais harmônica que sejam as interações entre seus elementos, é invariavelmente ingênua, ou pior, mancomunada com os ideais e objetivos da “classe dominante”.

A gafe no Oscar, um dos hot topics que, de modo sintomático, evidencia o nanismo do debate público, curiosamente revela as linhas dirigentes da arte contemporânea. Sob as névoas da euforia, lobrigamos a justiça poética – a vingança consumada contra as instâncias outrora opressoras e a vindicação anelada pelos justiceiros sociais. Sucintamente, as premiações de 2017 são uma espécie de propiciação à controvérsia do “Oscar So White” de 2016.


Resumindo o contexto crítico precedente ao Oscar, podemos dizer que, como de costume em tempos marcados por reducionismos de toda sorte, as apostas e debates acerca da cerimônia se polarizaram entre um entusiasmo para com La La Land e um senso de responsabilidade moral e social em relação a Moonlight.

Em parte, La La Land é um amálgama milimetricamente calculado entre Les Parapluies de Cherbourg e Meia-Noite em Paris, com pequenos acréscimos dos musicais hollywoodianos e os elementos que, até então, têm sido recorrentes na direção de Chazel: jazz, a busca pela perfeição artística e as dificuldades decorrentes de tal anseio nas relações pessoais e afetivas. É essencialmente um filme cult na definição precisa de Umberto Eco, isto é, um filme feito de alusões, constituído de camadas e mais camadas de arquétipos e designado para ser mais citado do que efetivamente apreciado.

Moonlight, por sua vez, se aproveita da estrutura geral do magistral Boyhood (2014), mas aposta alto nas tendências – para não dizer obsessão – dos chamados “estudos culturais”, que advogam que as cosmovisões das minorias étnicas, sexuais e religiosas, embora por séculos renegadas, constituem o instrumental mais adequado para a compreensão das tensões e problemáticas contemporâneas. Nessa sua ênfase, portanto, a carga dramática é excessiva.

De todo modo, o Oscar revela, talvez mais do que outros eventos e cerimônias das demais artes, a formação de um novo “cânone” mediante a imposição de lobbies, grupos políticos e, surpreendentemente, movimentos religiosos.

Em primeiro lugar, esse “cânone” (com toda a carga de ambiguidade e ironia que as aspas podem proporcionar) dificilmente será, num futuro próximo, um critério em relação ao qual medir-se-ão as novas obras. Isto levando em conta, é claro, que permanecerão no ideário artístico, ou ainda no imaginário individual daqueles que compreendem a importância da arte. Em segundo lugar, é evidente que a pressão e as demandas coletivas alteram não somente o cenário artístico, mas também a sua própria filosofia da composição, para citar Edgar Allan Poe.

Ativistas da classe artística suplicam cacetadas e gás lacrimogêneo pelo direito de ser incluídos entre os excluídos do sistema. (em CIRCA - Clandestine Insurgent Rebeldias Clown Army).

Ativistas da classe artística suplicam por cacetadas e gás lacrimogêneo em nome do direito de ser incluídos entre os excluídos do sistema. (Fonte: CIRCA – Clandestine Insurgent Rebels Clown Army).

Arthur C. Danto, em sua obra Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da história, propôs que a arte realizada nas últimas décadas se contrapõe mesmo à arte moderna na medida em que revela sua independência perante a história, tornando-se, pois, uma instância autônoma, essencialmente crítica e dotada de uma filosofia própria não atrelada a um discurso dominante. As ideias propostas por Danto são imprescindíveis para uma compreensão ponderada acerca da arte contemporânea. Talvez seja necessário, porém, indagar se a arte, embora tenha se dispensado, sob certos aspectos, das ideias e conceitos históricos prevalentes, não se permitiu atrelar a movimentos e processos especificamente políticos.

Os grupos de interesse que cobram um posicionamento de determinado escritor ou diretor pouco diferem, formalmente falando, dos rogatórios de Fandoms, que são saciados apenas pelo fanservice – a capitulação de projetos estéticos aos pendores despretensiosos dos consumidores. A diferença, é claro, está não somente nas intenções políticas e sociais por trás das demandas, mas também no sentimento de cada um dos grupos: enquanto os fãs buscam gratificação imediata, isto é, puro hedonismo, os grupos de interesse se consideram revestidos de uma aura de elevação moral e movidos em prol do bem comum.

Evidentemente não faltam exemplos históricos da submissão da arte a movimentos alheios à sua produção. Os próprios folhetins, que posteriormente eram reunidos como romances, se modulavam de acordo com a recepção e aprovação de seus leitores. Todavia, a presente questão envolve o detestável conflito não entre a liberdade do artista e as exigências do receptor, mas sim entre as moralidades de um projeto artístico e a de grupos que, não raro, jamais o consumirão.

Muitos se lembram das catequistas que protestaram em frente aos cinemas que exibiam A última tentação de Cristo (1988), de Martin Scorcese, e tomam o evento como sinônimo de intolerância religiosa; todavia, se esquecem, ou presumivelmente ignoram, que alguns anos atrás, comunidades islâmicas se revoltaram contra a exibição da peça clássica Tumberlaine, o Grande (1587), do dramaturgo inglês Christopher Marlowe, já que, ao fim da peça, numa revolta blasfema, o conquistador lança um Alcorão às chamas. Isto sem mencionar o recente episódio desencadeado pelo protesto do diretor iraniano Asghar Farhadi contra Trump, que culminou não apenas nas críticas durante toda a cerimônia, mas também na exibição pública de seu filme, O Apartamento (2016), na praça da National Gallery, em Londres, acompanhado das veementes exprobrações do prefeito Sadiq Khan, descendente de paquistaneses.

Projetos de arte se encontram, pois, em meio ao fogo cruzado, visto que por toda parte grupos de interesse exigem a satisfação de seus princípios. Há atitudes execráveis de todos os lados, por exemplo: o boicote contra o escritor Jonathan Franzen, por ter simplesmente afirmado que não tinha muitos amigos negros; e também o boicote contra a série Dear White People, inspirada no excelente filme homônimo de Justin Simien, por supostamente incitar o racismo reverso.

Resta-nos apenas o apelo inicial pelo retorno à crença na catolicidade da arte, já que, cremos nós, ela não somente abarca todos os povos de todas as épocas, mas também é capaz de absorver em si todos os sentimentos e os mais diferentes dilemas da condição humana.

Fabrício Tavares de Moraes é tradutor e doutorando em Literatura (UFJF/Queen Mary University London).