A história por trás do traje

A história por trás do traje

Mesmo para quem afirma não seguir modismos, a escolha de uma gravata, uma saia ou um sapato está carregada de significados e de História

Estado da Arte

19 Maio 2017 | 08h00

Por Laura Ferrazza

Todos os dias ao acordar e parar em frente ao seu guarda-roupa, você pratica um ato aparentemente simples: o de se vestir. Essa ação, contudo, não é tão corriqueira, frívola e inconsequente quanto tendemos a acreditar. Mesmo para quem afirma peremptoriamente não seguir modismos, a simples escolha de uma gravata, uma saia ou um sapato está carregada de significados e de História. A moda vai muito além de revistas especializadas e desfiles: ela é uma criação humana e uma manifestação da cultura, fortemente relacionada com o indivíduo, capaz de gerar polêmicas e inflar os ânimos. Tem o poder de expressar as trocas entre diferentes culturas e grupos sociais, estampando os desejos de ser e de se colocar no mundo.


Quando foi que a sociedade Ocidental viu nascer esse fenômeno cultural que está no cotidiano de todos nós? A resposta não é unânime entre os estudiosos do tema, mas uma das correntes me parece a mais pertinente. O nascimento da Moda estaria relacionado ao surgimento da noção de indivíduo na modernidade. Existe um parentesco etimológico, aliás, entre as palavras “Moda” e “Modernidade”. Ambas derivam do latim “modus”, que significa modo ou maneira. Daí vem a palavra latina “modernus”, que indica algo feito à maneira de nossos dias.

Foi no meio urbano, no período que Johan Huizinga chamou de Outono da Idade Média – referindo-se à Europa do Norte, à França e às cidades mercantis italianas – que a moda começou seus dias. Esse período assistiu ao crescimento das cidades e de sua rica classe mercantil. Nesse novo meio, os grupos abastados passaram a dividir o mesmo espaço com os menos favorecidos. Acentuou-se assim, a necessidade de diferenciação entre os grupos através das aparências externas, nas maneiras de se vestir e de se comportar. Naturalmente, o hábito de diferenciar grupos sociais por meio das vestimentas não nasceu nesse momento: apenas se intensificou.

Gravura do Catálogo de Indumentárias de August Racinet (1888) – Modas femininas italianas do século XV.

No Ocidente a distinção entre o que cada grupo social pode ou não vestir data da Antiguidade Clássica. Na Grécia, as cores claras ou vivas eram reservadas aos ricos, enquanto as camadas baixas usavam marrom. O próprio custo de obtenção de um pigmento dava às roupas coloridas uma distinção nobre; exemplo clássico é a púrpura, que, por sua raridade, tornou-se a cor imperial por excelência na antiga Roma. Tanto na Antiguidade quanto na Idade Média, as mudanças no vestir ocorriam de forma muito mais lenta do que em períodos posteriores; por isso, pode-se dizer que nesses períodos existiram indumentárias próprias, mas ainda não o fenômeno da moda. A diferença entre os dois conceitos é simples. Indumentária é tudo que alguém porta junto ao corpo: roupas, armaduras, armas. Trata-se de um conceito mais abrangente e técnico. A moda, por outro lado, é o desejo de alteração constante das aparências e de expressão individual por meio do traje. Ela desponta no momento em que os membros de um mesmo grupo não aceitam mais a uniformização das aparências, passando a expressar sua individualidade e posição através de uma disputa de elegância. O desejo de se diferenciar, de sentir-se único: é este o cerne do indivíduo moderno e da própria moda.

Esse desejo não deixou de parecer perturbador, e houve quem quisesse contê-lo. Prova disso é a existência, entre os séculos XIV e XVIII, de uma quantidade significativa de leis suntuárias: normas que procuravam reger as vestimentas com caráter legal, numa tentativa frustrada de conter o frenesi das alterações indumentárias. Os exemplos abundam nas mais diferentes regiões europeias: entre alguns grupos protestantes, tanto ricos quanto pobres deveriam usar preto; a cor branca aparecia nas golas e nos punhos, e a diferença social se fazia notar na qualidade do tecido. Mesmo nesse meio, contudo, nem todos seguiam as regras. A França do século XVII viu uma enxurrada de leis suntuárias, principalmente no governo de Luís XIV. Em meados do seu reinado, ele decretou a obrigatoriedade do uso de seda e renda fabricadas na França. Era uma tentativa de alavancar a indústria local; nesse ponto, ela deu certo.  Mas talvez tenha dado certo demais: os nobres passaram a usar tanta renda que, em algumas décadas, a produção nacional já não dava conta da demanda. Houve um aumento de importações do produto, o que desestabilizou a balança comercial. Consequentemente, o Rei Sol decretou nova lei suntuária, desta vez proibindo o uso excessivo de rendas – nacionais ou importadas.

Retrato póstumo de Simonetta Vespúcio por Sandro Botticelli (1476-1480)

Apesar de todo esse esforço, o fenômeno da moda não foi subjugado. O desejo de mudança continuou impelindo os trajes em direção ao novo, com velocidade crescente. Na Idade Média, alguns modelos de vestido permaneceram inalterados por mais de um século. Já no Renascimento florentino, os vestidos usados pelas damas mudam num espaço de apenas cinco décadas. A velocidade das mudanças se acelera ainda mais a partir do século XVI, com a internacionalização do Renascimento. Na França do século XVII, surge a imprensa de moda, exemplificada no jornal Mercure Galant (1672). No século XVIII, a moda passa a ser considerada uma das artes decorativas, agora variando mesmo de década para década.

Paradoxalmente, a moda, desde os seus primórdios, buscou inspiração no passado para criar o novo, através da idealização de uma época ou lugar dos quais extrai elementos para suprir um desejo social – ou seja, o gosto retrô não é uma peculiaridade dos nossos tempos. Ainda no Renascimento, as damas italianas procuravam usar trajes inspirados naqueles das gregas ou romanas antigas, recorrendo aos vestígios materiais dessas civilizações e efetuando uma idealização da antiguidade, semelhante ao que acontecia na poesia e na arte. Assim como Dante recorria a Virgílio para subir ao Paraíso – depois de ter passado pelo Inferno, claro –, as mulheres da Renascença se inspiravam no drapeado fluido dos trajes das estátuas greco-romanas. Em vez de vestidos com um volume maior na barriga, como se usava ainda no Norte da Europa, as italianas preferiam a cintura livre, com corte logo abaixo do busto.

Assim, a moda segue seu caminho. Com um olho no passado e outro no futuro personifica como poucos o presente.

Laura Ferrazza é doutora em História da Arte (Sorbonne/PUCRS), pesquisadora na Pós-Graduação de História da UFRGS.