A geografia invisível de “Acre”, de Lucrecia Zappi

A geografia invisível de “Acre”, de Lucrecia Zappi

"Acre" é o romance em que ficamos esperando o momento de ver tudo ruir.

Estado da Arte

07 Dezembro 2017 | 12h00

Thiago Blumenthal

Há uma geografia muito bem realizada em Acre, romance de Lucrecia Zappi, publicado pela editora Todavia há alguns meses. Os locais reais estão todos ali, presentificados pela linguagem como de quem fala com tiques agudos, como de quem conhece São Paulo e se orienta sempre pela memória mais recente: o edifício onde moram Marcela e Oscar (o narrador), a praça Rotary, as lanchonetes do entorno da Vila Buarque, o edifício Jacobina, a biblioteca Monteiro Lobato, a gótica Santa Casa, mas carregados de uma tensão, de um botijão de gás que está prestes a explodir pelos ares.

Converso com um amigo meu e lhe pergunto qual o grande romance brasileiro dos últimos dez anos. Não temos resposta, faltam autores, falta alguma ousadia, e, penso eu, mais do que tudo, faltam autores que tenham alguma história para contar. Zappi tem uma boa história para contar e o faz, em suas mais de duzentas páginas, com um elemento de mistério quase aterrador, misturando o ultra-urbano (o centro da maior cidade da América Latina) com o litoral de Santos. As pequenas paranoias da cidade grande – como em Paul Auster –, as brigas com os surfistas de Santos, o affair do passado que se encontra num local que não é nem ali nem aqui, mas no terrível espaço da memória; todos esses ingredientes fazem de Acre não o melhor romance dos últimos dez anos – continuo não tendo a resposta para a pergunta fatal – mas um grande concorrente.

Acre é construído por imagens ora singelas ora destruidoras, o que me fazem lembrar daquelas literaturas que parecem prêt-à-porter, que enganam em uma primeira leitura, mas que se desencarnam em um laboratório cuidadoso de figuras de estilo bastante típico da literatura simbolista. É o sinteco que se machucava com a luz do sol (qualquer luz), é a borra de café com a qual um dia Marcela há de se envenenar, a casa de máquinas, o pãozinho com presunto no guardanapo, os tiques que são calos de dona Vera, a vizinha e mãe de Nelson, o antagonista e o amor de verão de um passado distante no tempo e no espaço de Marcela: Santos, décadas atrás. O problema é que Nelson voltou. Eles sempre voltam. Como um anzol que nos puxa pela garganta, reflete Oscar.


Com essas imagens dispostas em cenas contadas ora em um passado em Santos ora em um presente paulistano, a autora reverbera a geografia local como uma geografia do cérebro de Oscar, onde cada esquina desempenha um evento iminente que lhe ultrapassa, como se os neurotransmissores não dessem conta de ali estarem. A casa de máquinas, o sinteco mal instalado, a desistência de tudo, o indiferença de Marcela, traceja um mapa mental em Oscar, acompanhado de perto pelo leitor mais atento. O traumatismo craniano sofrido por Oscar em Santos, depois da porrada que leva dos surfistas e de Nelson, acarreta uma série de consequências para o romance.

Abro um parêntese e penso na literatura brasileira contemporânea. Um golpe bem dado por um surfista na cabeça de um garoto da capital poderia dar jeito em nossa escrita. Fecho o parêntese.

Conhecemos os personagens por um narrador atormentado, Oscar, que não consegue se desprender de seu passado, e daí a estrutura de capítulos ser um vaivém entre Santos e a capital. Na verdade conhecemos tudo o que se passa através do olhar de Oscar. Contudo, eis um olhar enviesado, ciumento, traumatizado, como se o traumatismo craniano tivesse a implicação de um sol do tamanho do céu paulistano. Não que seu relato não seja confiável, mas o que Oscar nos conta está tampado por esse enorme sol, o mesmo que estraga o sinteco.

Mapa do século XVII (Castle Fraser, Aberdeenshire, Escócia – Foto: Scotclans).

O retrato da classe média paulistana por vezes se mostra indolente, por vezes cai no grotesco do cotidiano. O episódio da festa de aniversário do síndico por exemplo é uma ode a Balzac, a Nelson Rodrigues, a alguns contos mais ferinos de Clarice Lispector. A atenção aos detalhes dos comportamentos tem um quê proustiano, embora pouco psicológico; é mais físico, palpável, suado e calorento. Zappi manipula bem as pecinhas de seu tabuleiro sem derrubá-las, sem dar xeque-mate, mas em constante xeque com as figuras que vamos presenciando em momentos distintos.

O “cara sólido”, de “jeitão analítico”, na descrição de Nelson, um “bicho sobrenatural que se espalhava pelo seu corpo”, na descrição de Oscar. São combates verbais, porradas que não vemos, mas sentimos, pensamos, realizamos com as palavras, ou mesmo com o silêncio das sílabas. Assim se contorna toda a linguagem de Acre, em silêncios, pensamentos ou pequenas explosões verbais que unem um passado mal resolvido a um presente que vai explodir no futuro. Socialmente o livro me parece muito afim aos temas presentes em O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, inclusive.

Se há alguma informalidade no tom de Acre é graças à primeira pessoa de Oscar e ao cuidado estético de Zappi. Lê-se o romance como se ali morássemos, no mesmo edifício, ou ali avizinhado, como se estivéssemos acompanhando muito de perto as intrigas daqueles personagens. E essa informalidade vem carregada de uma potência figurativa que lembra os melhores momentos das neuroses de um Saul Bellow. São todas referências decerto muito caras a Zappi, ou, se não o são, possuem uma conjunção misteriosa dessas que somente a arte e os tempos podem unir. Na geografia mental de Oscar e do romance, a Doutor Vila Nova a Marquês de Itu, a Major Sertório, o Arouche, por vezes parecem deslocadas do que são no real, na mesma sintonia de uma neurose profunda de quem está perdido em sua própria cidade, mas se encontra sem saber o endereço certo. A experiência do paulistano, a experiência do cosmopolita que se quase se afoga no mar e, ao sair dele, apanha e tem sequelas para o resto da vida.

O Acre entra no romance de maneiras distantes: no filtro da capa, no Estado por onde Nelson passara um tempo antes de voltar a São Paulo, e na sensação de azedume que acompanha o romance. Há uma ambiguidade inclusive na questão geográfica, tanto quanto é ambígua a Vila Buarque do romance: o Acre se confunde com a Bolívia, como Vila Buarque ora se confunde com Santa Cecília ou com Higienópolis (oficialmente, para a prefeitura de São Paulo Vila Buarque, Higienópolis e Pacaembu formam o bairro da Consolação). Mais do que tudo, o Acre é uma obsessão.

A capa do livro revela a fachada de um prédio na própria Vila Buarque um prédio antigo e o filtro, quase “acre”, ofusca os tons modernos que o subdistrito da Consolação ganhou hoje. O prédio continua lá para quem quiser vê-lo. As persianas, semiabertas, idem. A praça Rotary, o edifício Jacobina, na rua transversal, a biblioteca Monteiro Lobato, mas já não há mais tantos usuários de crack. Há, pelo contrário, hoje lojas modernas, cafés, doçarias, floriculturas. A Vila Buarque rejuvenesceu. E no entanto o prédio da capa tem um quê de um Dakota polanskiano.

Em Acre, nada é um erro arquitetônico, mas sim um erro de lugar, como observa o narrador lá pelas tantas. E é por esta chave que devemos entender o romance de Zappi, onde as forças da natureza são mais potentes que a intervenção humana ou sua tentativa de intervir, como os prédios de Santos que parecem se apoiar uns nos outros, tais quais os prédios da Roosevelt, ou os muros do Mackenzie, que parecem que vão tombar a qualquer momento. Acre é o romance em ficamos esperando o momento de ver tudo ruir, de ver a natureza destruir, delicada e aos poucos, e assistimos ao desespero irremediável da redenção entre o amor nas fiações das cidades e a neurose no mapa invisível da cidade.

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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