A falência do discurso público?

A falência do discurso público?

A maior parte dos debates são apenas competições retóricas em que cada lado prega para seus convertidos.

Estado da Arte

04 Dezembro 2017 | 10h56

Pedro Sette-Câmara

Muito antes da polarização em torno do impeachment de Dilma Roussef, verificou-se o que até hoje pode ser considerado o maior exemplo de polarização ideológica com total desrespeito pelos fatos.


A agência Reuters tinha circulado a notícia de que o papa Bento XVI teria dito que o casamento gay era um risco para a perpetuação da espécie. Houve quem se revoltasse, e houve quem adotasse a postura de “É isso aí!” No entanto, eu sabia que a expressão “casamento gay” jamais sairia da boca de Joseph Ratzinger, por isso fiquei cabreiro. Conferir o que o papa disse normalmente é fácil: as transcrições de seus pronunciamentos públicos saem todas no site do Vaticano.

De fato, o que Ratzinger dissera foi que certas políticas contrárias à natalidade colocariam em risco a perpetuação da espécie. Na Europa, com sua queda demográfica, a frase parece até mesmo uma banalidade. Um amigo gay protestou, disse que ele estava sim falando do casamento gay. Só que o papa tinha dito: “políticas”. Não faria mais sentido que ele estivesse se referindo, por exemplo, ao direito ao aborto? Ou mesmo à distribuição de preservativos? Meu amigo encerrou nossa troca de emails sem me responder.

Ativistas “pró-golpe” e “anti-impeachment” se elevam sobre o muro da discórdia erguido na Esplanada dos Ministérios para propor um amor casto (reprodução, twitter: @PTnaCâmara)

Porém, não estou querendo narrar um episódio em que lacrei lindamente. Conto o episódio porque ele me pareceu especial: diante de um fato simples, fácil de conferir, não houve acanhamento em julgar.

Lembro de quando eu também era assim. Nos anos 1990, eu sentia que furava todos os grandes bloqueios midiáticos do universo ao ler o WorldNetDaily. Ainda que eu rapidamente tenha me cansado de suas previsões da Terceira Guerra Mundial, por muito tempo acreditei no que tinha dito o editor, Joseph Farah, sobre Al Gore. Farah queria pintar Gore como uma espécie de econazi, e a prova era que em seu livro Earth in the Balance Gore teria dito que um tratamento de câncer demandava o corte de uma árvore amazônica, e que isso apresentava um dilema. A denúncia está pronta: o cara diz que árvores valem mais do que pessoas. Só que o caso é o mesmo do papa. Basta abrir o livro e ver que o que Al Gore está dizendo é que para atender todas as pessoas que demandam o tratamento, seria preciso cortar todas as árvores, e não haveria árvores novas para atender novos doentes num prazo considerável. Eu continuo não gostando do Al Gore, mas não preciso gostar dele para ver que, enfim, aí há um impasse. E tudo bem não gostar de Al Gore — só que levantar falso testemunho é outra história.

As questões presentes nisso vão além do moral. Seria muito simples continuar um artigo com um apelo para que todos déssemos ouvidos às pessoas de quem não gostamos. (Fazer isso de verdade seria também interessante.) Só que, junto ao aspecto moral está — não sei se antes, ao lado, ou depois — o cognitivo.

Primeiro, eu mesmo começo admitindo que não costumo escolher minhas leituras imaginando o que é que vai provocar os mais intensos sentimentos de discórdia em mim. Quem lê o jornal tomando seu café ou fugindo do trabalho num momento de procrastinação não está em busca de ascese. Eu não preparo o meu café especial para sentar e ler Al Gore. Não abro um vinho para relaxar lendo aquela pessoa de quem eu não gosto.

Segundo, a maior parte dos supostos debates não é um debate. O leitor já sabe que os supostos debates são muitas vezes competições retóricas em que cada lado apenas prega para seus convertidos. Um debate de verdade tem seu lado ascético, isto é, a aceitação (não apenas o entendimento) dos termos do outro e a discussão daqueles termos, não uma mudança de termos.

Nenhum exemplo é melhor para isso do que o “debate” sobre o aborto. Quem é contra a legalização enfatiza que o feto é uma vida humana. Quem é a favor enfatiza a saúde pública e os direitos da mulher. Os dois lados entendem que, aceitas as premissas, seguem-se as consequências. Porém, nenhum lado aceita as premissas do outro. Não é que as premissas sejam discutidas e rejeitadas: elas nem sequer são discutidas.

Terceiro, no que parece aproximar ainda mais o cognitivo do moral, há o menoscabo. Moralmente, o menoscabo é uma forma de arrogância. Cognitivamente, é a crença de que a opinião alheia já foi explicada e rotulada mil vezes — e por isso não merece sequer ser ouvida.

Em comunidades pequenas, o menoscabo pode não só funcionar como ser a própria base dessa comunidade, que quer se distinguir do famoso público em geral. Eu mesmo prefiro ouvir cães latindo a ouvir 99,9% da música dita “popular”, e prefiro ir ao dentista a ter contato com 100% das discussões sobre música popular, principalmente as que se julgam sérias. Os outros podem achar que é menoscabo, mas sinto que tenho vivido bastante bem.

Porém, se você acredita num sistema democrático com dezenas de milhões de pessoas, as primeiras decorrências dessa crença são dar ouvidos a essas pessoas, não levantar falso testemunho, entender e aceitar os termos que elas propõem (ok, elas também têm de aceitar os do seu lado), não desprezá-las. O discurso político para as massas terá a complexidade do cancioneiro popular contemporâneo (enfim, existem dissertações de mestrado a respeito), e é isso que você terá de levar a sério. Sim. Isso.

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ.

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