A consciência do amor em Proust, uma questão de espaço

A consciência do amor em Proust, uma questão de espaço

Quando Proust pondera que o homem só se dá conta de maneira integral de sua realidade externa na mudança de posição fica fácil notar o quanto esse movimento é capital para os sentidos entre mente e o espaço que ela (mente) consegue captar, em especial ao narrá-los. Esses locais estão perdidos, já não fazem mais parte do que o narrador chama de sua “realidade”, e portanto sem mapa, sem localização precisa na imensa organização de seu romance.

Estado da Arte

03 Agosto 2017 | 09h50

Por Thiago Blumenthal

Decerto a Recherche de Marcel Proust encontra guarida em um canto da estante reservado aos romances que nascem do acaso dos tempos, íntimos e coletivos, e de uma necessidade de uma articulação interna bem desencadeada, com um senso divisor em períodos compridos, nomes próprios (lembremos o “Noms de pays: le nom” e também o “Noms de pays: le pays”, segunda parte do segundo volume), gestos desesperados, raciocínios por abraçar ou refutar. E é em Balbec, mais do que Combray, que podemos encontrar uma fundamentação geográfica, espacial, que representa de fato os aparatos pelos quais o homem se põe em contato com os sentimentos (e o que fazer deles? o que interpretar do que sentimos?) mais profundos da misteriosa jornada humana em busca do tempo perdido.

Marcel Proust

Se, para Barthes, Proust e seu herói permanecem como um enigma característico da criação moderna, centrado em uma primeira pessoa que se desenrosca de seus inúmeros eixos narrativos (autor, narrador e personagem), em que a ordem estética dimensiona o significado dos acontecimentos na vida de um personagem, talvez seja em Balbec que muitos desses eventos, a partir de sua intersecção com as impressões geradas a partir deles – e do consequente pesar, consciente ou não, em seguida – se plantem, de maneira quase hortícola, em camadas de memória. Plantas essas que resultam de uma cuidadosa botânica do narrador, uma certa botânica do desejo de escrever.
É neste resort na Normandia, a partir da real Cabourg, a pouco mais de 200 quilômetros de Paris, que temos um retrato da arena social da Belle Époque, onde as classes parecem se tocar umas às outras, uma vez fora dos salões restritos da capital francesa. Na segunda parte do segundo volume, Marcel viaja com a avó e com Françoise a Balbec, buscando melhor saúde. A princípio, frustrante, conhece Robert de Saint-Loup e seu tio, o enigmático Barão de Charlus; com Saint-Loup, trava contato pela primeira vez com o pintor Elstir, figura-chave da Recherche, cujo estúdio lembra um laboratório que busca uma recriação do mundo, tema este muito caro a toda obra. É justamente Elstir quem apresenta Albertine a Marcel, parte desse bando de raparigas em flor, que dá título ao volume. É, portanto, em Balbec, neste paralelo com a criação artística de Elstir, no romance com Albertine e na amizade com Robert, que surge um universo de possibilidades sem limite, muitas delas frustradas, e que pontuam as extremidades entre o desejo e a tristeza do narrador.
Se no primeiro volume, as experiências deixaram um rastro de revelação (ou semi-revelações) no narrador, com um desejo de ver mais claramente “aquela espécie de lanço luminoso, recortado no meio de trevas indistintas” e ver mais claro em seu próprio encantamento, sempre que não contentava-se com palavras opacas, Balbec configura-se como o arrebatamento natural.
Quando o narrador diz passar em revista os seus próprios pensamentos, para checar se dormindo ou acordado (À un moment où je dénombrais les pensées qui avaient rempli mon esprit pendant les minutes précédentes, pour me rendre compte si je venais ou non de dormir), ao trazer isso à pena, ao relato literário, é como se houvesse, no subtexto, um projeto de autoconsciência que se desdobra em duas vias: a do narrador/personagem e a da obra em si, ou seja, do relato de um instante exato em que se coloca a mão na cabeça e se reflete sobre algo que acaba-se de sentir e, então, de escrever ou contar.
É próprio da literatura moderna, e em especial do romance, essa narração que se volta para si, como um redemoinho em direção à própria consciência. Se Tristram Shandy, de Laurence Sterne, obra de 1759, um dos ápices literários do século XVIII, é considerado por muitos críticos a obra que abriu as portas da modernidade, decerto depreendemos que a Recherche proustiana pode ser lida como uma evolução dos processos de autoconsciência daquele narrador sterniano. Em Proust, Marcel se vale da palavra “incertitude” para ponderar os dois estados em que poderia encontrar-se neste trecho, do livro e do caminho a Balbec: o estado de sono e o estado de vigília.
Eis um período complexo, que em uma leitura mais apressada tem seu significado turvo: o que o narrador quer dizer aqui é que todas as vezes em que ele não estava bem certo se tinha ou não acabado de dormir terminavam por revelar-lhe que sim, que dormira (a resposta afirmativa). É na incerteza que Marcel ancora sua resposta, esta carregada de certeza. Não é um movimento simples, mas também não é simples o momento de acordar-se num trem com a paisagem pela janela em movimento. De modo que o texto confere àquele espaço a liga necessária entre o que se conta e o que acontece de fato, em um interessante exercício estilístico, bastante típico da prosa proustiana. É pela sensação, demarcada pela incerteza, que aquele que escreve certifica seu leitor de seus caminhos e também de seus descaminhos.
Balbec, esse abrigo onde Marcel encontrará guarida de sua doença e encontrará, sabemos, Albertine, se desenha de modo diverso de Combray, ainda que a chegada das duas cidades seja por trem. Vejamos.
Desde as primeiras páginas da Recherche acompanhamos o trabalho estilístico do narrador em carregar as impressões da viagem de trem. Afinal, é este meio de transporte que possibilita os deslocamentos geográficos dos personagens para, em paralelo, desenvolver também os deslocamentos sensoriais e emocionais do narrador em especial. O trecho a seguir nos momentos iniciais da jornada proustiana, serve como um déjà vu (ou um déjà vécu) de uma experiência que será repetida e prolongada muitas vezes no livro (J’y étais inquiet, comme dans une chambre d’hôtel ou de chalet où je fusse arrivé pour la première fois en descendant de chemin de fer.).
Aqui, a menção ao trem se dá em compasso com a longa e célebre reflexão inicial do narrador sobre o sono, a noite, a memória e o quanto dela captamos. Para Marcel, tal estado cerebral muito se aproxima do despertar-se quando a bordo de um trem. São nossos pensamentos que são pegos em movimento, mas um movimento sobre o qual não temos controle algum. Como se o trem (e o próprio ato de buscar-se consciente no apagar ao sono e no despertar-se dele) fosse o veículo que melhor simbolizasse, ou representasse, tal fenômeno de nossas impressões fugazes e de nossas vidas.
Deste modo, e isto parece dar uma chave interpretativa bastante racional da obra, o conflito entre a precisão cartográfica e a imprecisão da memória se concretiza na escrita por uma falência do romance. Não no sentido de que sua obra não cumpriu sua função máxima, mas no sentido de que tudo o que é contado fica sempre no meio do caminho. O que Proust, assim, problematiza, é a própria noção do romance como uma entidade homogênea que foge do controle daquele que o escreve e, internamente à obra, o narra.
Quando Proust pondera que o homem só se dá conta de maneira integral de sua realidade externa na mudança de posição (a despedida de alguém, a passagem do trem pelas montanhas, o mar de Balbec e a janela de seu quarto), fica fácil notar o quanto esse movimento é capital para os sentidos entre mente e o espaço que ela (mente) consegue captar, em especial ao narrá-los. Esses locais estão perdidos, já não fazem mais parte do que o narrador chama de sua “realidade”, e portanto sem mapa, sem localização precisa na imensa organização de seu romance, entre amores, por exemplo. As mulheres amadas por Marcel ganham ou perdem o seu afeto a partir do momento em que este se desloca no espaço e no tempo.
Neurologicamente falando, quanto mais removida estiver uma região do cérebro visual da retina, mais poderosa será a influência da consciência. Em outras palavras, expectativas podem representar um papel ainda mais importante quando avistamos algo, enquanto o seu caráter externo, dito “real”, perde força de maneira correspondente. Podemos, assim, associar esse terreno acidentado ao qual Marcel adentra na estação de trem citada a uma expectativa criada anteriormente, com a influência do campo visual em um estado de vigília recente (acabara de acordar).

Do mesmo modo que nossos olhos podem avistar detalhes aos quais nossa mente não está atenta, nossa consciência, ao acordarmos, leva alguns segundos para “ligar”. Até que nos reorientemos em nosso mundo e nos reacostumemos à realidade exterior, a experiência da visão já está ativada, uma vez que este mesmo mundo real, como uma boa interface, já está sendo trabalhado sob a superfície do que vemos. A vazão do olho não depende de a pessoa estar ou não consciente. Pode-se ver algo sem estarmos conscientes disso e é no limiar essas duas extremidades visão – experiência que Proust trabalha as sensações vividas por seu protagonista, entre o que se vê e o que se experiencia. Ainda que milhões de neurônios estejam sendo queimados no córtex primário visual, toda essa atividade não necessariamente resultará em uma experiência, ou em uma consciência do que estamos vendo, se os neurônios das regiões mais superiores do cérebro não estiverem refletindo, digamos, esse vale. E, quando isso acontece, depende da quantidade de estímulo cerebral naquele momento exato da experiência (se em estado de sonho, ao acordar, ou plenamente atento, por exemplo). Marcel, no caso, retorna de um sono, acaba de acordar, ao dar-se conta da geografia que o rodeia e, ao mesmo tempo, o esconde do resto do mundo. Na verdade, é sua própria consciência, sob esse estado da vigília, que esconde do personagem o cenário.

Como esse estado não tem sua existência aniquilada, a não ser em nós mesmos, as recordações são um “aviso da realidade”. Afinal, nossas exigências com referência ao tempo são tão exorbitantes como as que reclama o coração para mudar; diz o narrador que só há uma pessoa capaz de resolver esse impasse, “o nosso eu daquele tempo”, mas que infelizmente não existe mais e é renovado a cada instante de novo contato com o que se aproxima da “consciência da felicidade e da beleza”.

 

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42 e doutorando em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.