A cobrança do próximo

A cobrança do próximo

O sucesso cobra seu preço, que é o cansaço mental e a solidão; dois tributos que, a longo prazo, não compensam.

Estado da Arte

28 Agosto 2017 | 17h28

Por Felipe Pimentel

A injustiça normalmente consiste em algum uso desproporcional de força ou do poder contra os mais frágeis, ou algum tipo de privilégio para os mais favorecidos. Quase ninguém discorda dessa definição. Seria possível uma injustiça cometida contra os “mais fortes”? Antes precisaríamos definir o que significa ser “mais forte”.
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A realidade social e jurídica trabalha com uma noção de justiça mais clara: desigualdade social ou a violência contra os pobres e o privilégio dos ricos, por exemplo. A realidade psicológica é menos bruta, trabalha com definições mais abstratas.
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Na vida psicológica, a definição de força é muito variada, mas gostaria de falar de um tipo específico de força: aquela exibida por pessoas cujas capacidades psíquicas são altas, isto é, elas são versáteis no seu comportamento (conseguem se adaptar a diferentes contextos), elas são hábeis em resolução de problemas, elas são muito competentes nas mais distintas áreas da vida e elas possuem alta capacidade para suportar dores e traumas. Enfim, são pessoas que, perante a visão dos outros,  parecem altamente capazes, autónomas, quer dizer, “fortes”.
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É claro que essas pessoas retiram alguma satisfação disso. Certamente é preferível ter adaptabilidade do que se sentir um estranho em qualquer contexto diferente; assim como possuir ferramentas afetivas e comportamentais para resolver problemas e ter êxito na vida. As repercussões de se realizar, seja na vida pessoal, seja na vida profissional, são fonte de orgulho e satisfação. Ocorre que há uma possível, mas não necessária, cilada nesse jogo, quer dizer, um modo vicioso de “ser forte”, que, em ultima instância, determina um modo de injustiça com tais pessoas. Explico.
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Realizar-se e ter êxito (repito: pessoal ou profissionalmente), segundo a lógica da nossa época, parece ser legítimo somente se formos nós, de maneira independemte, os responsáveis por nosso próprio sucesso. Isso pode se tornar um vício: em cada área da nossa vida, nós lutamos autonomamente para ter sucesso, e cada vez que o conquistamos, confirmamos nossa capacidade de conseguir. Da próxima vez, estamos ainda mais convictos que somos capazes e intensificamos nosso trabalho solitário de conquista. Cada vez que conseguimos, as pessoas ao redor reconhecem que somos capazes e incrivelmente competentes. A consequência lógica dessa constatação é acreditar que não precisamos de auxílio para efetivar nossas realizações, pois temos capacidade para fazê-lo sozinho. Esse pensamento do próximo se encontra com nossa convicção de que somos capazes, e eles se alimentam mutuamente.
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Por uma questão que pode ser cultural ou até biológica, nós tendemos a auxiliar aqueles que precisam de ajuda. Assim, os menos favorecidos, seja por fragilidade, seja por dificuldade, são o alvo da nossa atenção, da nossa paciência, da nossa comiseração e do nosso cuidado. Seja lá a razão da dificuldade de uma pessoa, podemos julgar que ela é “problemática” ou “fraca demais”, arisca, irritadiça, temerária, assustadora, digna de piedade, etc., nós daremos a ela grande parte da nossa energia, seja de tolerância, seja de cuidado propriamente dito.
Do outro lado, estão os que julgamos fortes. Eles entraram numa espiral de realizações baseado na crença da sua própria capacidade e autonomia, num campo solitário e autoengendrado, de modo que a cada vez que têm êxito confirmam não só a sua própria convicção de competência, como a nossa de que não precisam de mais ninguém.
Se o único efeito desse modelo vicioso fosse somente a solidão ele já seria suficientemente condenável e digno de atenção e de alguma atitude nossa para estancá-lo. Mas não. Há mais consequências.
Essa máquina retroalimentada de conquistas e satisfação cria outra cilada para os mais fortes. Nosso olhar e nossa paciência não estão a seu dispor. Qualquer erro, equívoco ou fragilidade sua não são percebidas ou toleradas por nós. Pelo contrário, por supormos que são capazes, nós desmerecemos, ou nem enxergamos, suas dificuldades, e é exatamente deles que mais cobramos.
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Se estivéssemos lidando com noções “claras” de força ou fragilidade, isso não traria maiores problemas. Se força aqui significasse classe social ou poder bélico, é evidente que não haveria questão alguma em protegermos os mais frágeis e cobrarmos dos mais fortes. Mas estamos falando sobre uma característica psicológica.
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Falamos aqui de um tipo de cobrança automática, de exigência constante diante daqueles que parecem possuir maiores capacidades que ao mesmo tempo que protege os supostamente frágeis (reforçando um lugar de incapacidade), também que termina colocando os mais “fortes” num labirinto que conjuga sucesso e solidão. É um tipo de injustiça psicológica, para ambos, e, por que não dizer, também moral.
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Acontece muito em família com os filhos quando um apresenta maior versatilidade e autonomia e outro inspira maiores cuidados, por exemplo. Que os pais atentem ao que exibe maiores dificuldades parece óbvio. Mas com o tempo essa distinção torna-se um vício da parte do mais preservado em resolver tudo sozinho, com sentimento de ser preterido e negligenciado. Além disso, ao ser efetivamente deixado mais à própria sorte, acaba por desenvolver efetivamente mais habilidades por que precisa resolver sozinho. Por fim, ao resolver sozinho, confirma ao olhar dos pais que não precisa de maiores auxílios. O resultado é um jogo retroalimentado.
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O sucesso cobra seu preço, que é o cansaço mental e a solidão; dois tributos que, a longo prazo, não compensam.
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Os preços do sucesso e da cobrança: tributos altos demais para todos nós

Ambos requerem nossa atenção, os mais “fracos” e os mais “fortes”, cada qual a seu modo. Isso porque o mais frágil aqui precisa também, minimamente, do nosso descuido e do nosso desafio – é um modo de cuidar, que é diferente do tutelar -; e porque o “mais forte” precisa de um tipo de amparo, que consiste não só no auxílio nas suas tentativas e realizações, mas no abrigo de que tanto o seu desgaste nas suas buscas, quanto suas possíveis derrotas, não significam abandono ou desvalia – eles precisam saber que o próximo está ali para algo mais que reconhecer seu êxito e cobrá-lo constantemente, mas para estender a mão que ajuda e acolhe.

 

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.