A alucinação de todos nós

A alucinação de todos nós

Estado da Arte

17 Abril 2017 | 15h43

Por Felipe Pimentel

A nossa mente deforma a realidade. Nós já a enxergamos dentro de uma perspectiva específica, restrita e singular, porém um processo mais profundo ocorre com o passar do anos: de acordo com a nossa história particular, pensamentos e afetos se estabelecem, tornando-se as lentes pelas quais olhamos o mundo. Criamos um modo de enxergar o amor, as amizades, o futuro, o passado, a civilidade urbana, a política, a ética, os valores morais. São ideias e sentimentos que podem mudar com o tempo, mas regularmente tendem a tomar lugar e assumir a tarefa de interpretar a realidade à nossa volta. A partir daí, a despeito da pluralidade de eventos que ocorram, nossa mente passa a selecionar os eventos do mundo que ratificam essa determinada perspectiva, ou, no mínimo, a interpretar de modo monotônico o que se nos apresenta. Independente do que a paisagem apresente, lá estamos nós capturando e pinçando dela os eventos que se ajustam à nossa visão – não há visão de mundo, por mais maluca que seja, que a realidade não ofereça elementos para sustentar. Para enxergar a realidade por inteiro, teríamos de nos situar fora dela, o que não é possível. Resta-nos, por fim, aceitar que todos, em algum nível, alucinamos.

Com o tempo, nossas vivências cristalizam ideias em nossa mente. Estas ideias, num jogo que se retroalimenta, direcionam nossa atenção e, por conseguinte, nossa interpretação, para os eventos que a confirmam. A cada vez que um novo evento é compreendido dentro dessa perspectiva, ele a fortalece e a prepara para compreender novos eventos nesse mesmo espectro. Lentamente, nossa visão de mundo se estreita e se enrijece – atingindo, inclusive, o ponto de não mais perceber os eventos que poderiam desdizer essa visão ou interpretar eventos cuja compreensão está fora dessa perspectiva. Eis a fonte de tantos desentendimentos entre as pessoas, que enxergam sempre sob um prisma próprio e distinto. É essa visão de mundo enraizada em nossa personalidade, que orienta não só nosso modo de se relacionar com os outros, mas também nossa tomada de decisões (ou as premissas que a fundamentam), nosso otimismo ou pessimismo com o futuro, nossa visão de nós mesmos e dos outros. Quando pensamos, para dar exemplos (sempre falhos), que a virtude compensa (seja como retribuição da competência, seja como ideal mágico de justiça cósmica), que o amor não se sustenta, que as pessoas são egoístas e autointeressadas, que um determinado povo não tem civilidade e outro tem, enfim, essas interpretações do mundo contagiam nosso olhar e – curiosamente! – passamos a encontrar somente eventos que as confirmam.

“O Contador Antropomórfico”, Salvador Dali, 1936

A multiplicidade da realidade, suas cores mais diversas, seus matizes e sutilezas são todas dilaceradas e diluídas por uma interpretação afunilada e viciada, que termina nos empobrecendo, fingindo nos fortalecer ao, aparentemente, nos conferir certezas. São estas ideias que soldam nossos pés em procedimentos e comportamentos padronizados e repetitivos; que nos criam justificativas para inviabilizar transformações em nossas vidas; que emperram, inclusive, nossa capacidade de perceber as mudanças que ocorreram em nossa mente a despeito dessas forças contrárias; que solidificam pensamentos que nos aferram em contextos que nos infelicitam; que criam impeditivos, até mesmo para percebermos nossos erros e nossas falhas, pois, convictos, jogamos para o outro a responsabilidade de não ter se encaixado no nosso esquema mental.

O entorno também trabalha nesse sentido. As escolhas que fazemos fora desse padrão assombram os que nos circundam, como se a saúde, afetiva e intelectual, fosse a permanência, a escolha perene ou algum tipo de coerência. Não se trata de fazer apologia da constante transformação, de caráter errático, mas, pelo menos, de fazer um convite à fluidez ao transitar na vida, à desconfiança com as nossas próprias certezas, à erosão permanente de convicções e comportamentos, não para cairmos em algum vazio, mas para reconstruirmos, com aquilo que sobrou, novos modos de vida.

Felipe Pimentel e psicanalista e historiador.