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Testamos várias visitas guiadas a pontos clássicos da cidade

Redação Divirta-se

12 Março 2015 | 18h00

Passeios guiados podem ser um bom jeito de moradores da cidade redescobrirem pontos turísticos com olhar renovado

 

Aula prática de história, geografia e arquitetura. As visitas guiadas podem ainda ser uma maneira de (re)descobrir lugares e instituições da cidade que todo mundo acha que conhece – mas que reservam muitas surpresas a um segundo olhar.
A oferta para turistas vem crescendo: há visitas guiadas em inglês, espanhol e durante a noite. E, para saber se os passeios podem ser atraentes também para quem vive por aqui, o Divirta-se testou dez passeios desse tipo. Os segredos do Mosteiro de São Bento – que já foi reconstruído quatro vezes no mesmo local –; o teto do Teatro Municipal, que vai soar familiar para os fãs de ‘O Senhor de Anéis’; um acervo de obras de arte erótica em pleno Cemitério da Consolação. Dá pra viajar sem sair de São Paulo.

 


CENTRO

SERGIO CASTRO/ESTADÃO

 

Conhecer o centro de São Paulo pode ser uma experiência surpreendente. No projeto Caminhos do Triângulo, por exemplo, há 11 opções de roteiros que variam conforme o perfil do grupo, o horário, o dia da semana e a época do ano. Os passeios são realizados diariamente, às 10h e às 14h, por profissionais registrados no Ministério do Turismo. Para testar o programa, o Divirta-se escolheu a rota ‘Destaques do Centro Histórico’, que ocorre nas manhãs de sexta-feira. O programa básico inclui o Centro Cultural Banco do Brasil, a Catedral da Sé, a Caixa Cultural, o Pátio do Colégio e o Edifício Martinelli, mas pode ser alterado. “O Teatro Municipal não faz parte desse circuito, mas, se o grupo quer, nós vamos”, explica a guia Dione Silva. Ela dá uma aula sobre a Revolução de 32 em frente ao prédio Ouro para o Bem de São Paulo. Na Catedral da Sé, aponta os elementos naturais que substituem as gárgulas. No Pátio do Colégio, revela as razões para tocar o sino (como fez a turista na foto ao lado). A atividade é oferecida o ano todo e pode ser feita em outros idiomas. Há ainda rotas para quem tem interesses específicos, como ‘Ramos de Azevedo’, ‘Portas, Pisos e Vitrais’, ‘Cafés e Cafeterias’ e ‘Monumentos e Estátuas’.

ONDE: sede da Aliança Pelo Centro Histórico. R. da Quitanda, 80, 3101-5842. QUANDO: diariamente, 10h e 14h. QUANTO: R$ 15. COMO: chegue 15 min. antes; não precisa agendar. www.facebook.com/caminhosdotriangulo

 

Outros passeios no centro:

A Caminhada Noturna dura 2h e não necessita de agendamento. O ponto de partida e chegada é em frente ao Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº. Inf.: 96515-7171. 5ª, 20h. Grátis.

Em espanhol, o Paseo a Pie é realizado por Andrea Nehr, que aguarda os turistas de colete laranja. Pça. da Liberdade, s/nº. Inf.: 96138-3377. 4ª, 14h; sáb., 10h30. Pague o quanto quiser.

O Giro em Sampa é feito no centro velho (e ainda tem rotas temáticas e gastronômicas). Em breve, no centro novo. Pça. Pátio do Colégio, 2. Inf.: 99109-2208. Dom., 10h30. Pague o quanto quiser.

Promovido pelo Shopping Light, o Walking Tour é realizado em inglês e espanhol. R. Coronel Xavier de Toledo, 23, Anhangabaú, 3154-2299. Último sábado do mês, 10h30. Grátis (sem agendamento).

 

TEATRO MUNICIPAL

RICARDO KLEINE/DIV.

Inaugurado em 1911 para o lazer da elite paulistana, o Teatro Municipal não faz, hoje, distinção entre seus visitantes. No início do século passado, as classes menos favorecidas tinham curiosidade de conhecer as instalações do prédio, inspirado na Ópera de Paris, mas somente políticos e barões do café tinham acesso às dependências.  O movimento atual é o oposto: o teatro quer que todos conheçam sua arquitetura e sua história. Para isso, organiza passeios guiados por seu interior, que atraem mais paulistanos que turistas. No dia da visita da reportagem, o grupo de 50 pessoas – das quais apenas três não moravam na capital. A visita demora cerca de uma hora e passa por cinco ambientes: saguão, escadaria principal, sala de espetáculos, hall dos camarotes e salão nobre. Como o prédio passou por reformas e restauros ao longo de seus mais de cem anos, os educadores que conduzem o grupo apontam as diferenças estruturais e relatam muitas curiosidades – como as duas pinturas localizadas no topo do saguão, com cenas da ópera ‘O Anel do Nibelungo’, de Richard Wagner, que inspirou J.R.R. Tolkien em sua trilogia ‘O Senhor dos Anéis’. A boa condução dos arte-educadores dá dinamismo ao passeio. Não se intimide na hora de fazer perguntas. E leve a máquina fotográfica: a arquitetura e a decoração são impressionantes.
ONDE: Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, metrô Anhangabaú, 3053-2100. QUANDO: 3ª a 6ª, 11h, 15h e 17h; sáb., 11h, 12h, 14h e 15h. QUANTO: grátis. COMO: chegar 1h antes; não precisa agendar. Como as visitas aos fins de semana são mais concorridas, recomenda-se fazer inscrição pessoalmente na recepção do teatro. 

 

FUNDAÇÃO EMA KLABIN

GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

É preciso marcar um horário – há quatro opções diárias – para visitar a Fundação Ema Klabin. Mas o agendamento faz sentido. Apenas com uma visita guiada é possível apreciar devidamente os incontáveis detalhes dessa casa que virou museu. Construída nos anos 1950, sob inspiração do Palácio de Sanssouci, na Alemanha, a residência no Jardim Europa mistura linhas clássicas e modernas. Mas seu atrativo principal não está na arquitetura – e, sim, nas 1.500 peças que compõe o acervo. Ema Klabin reuniu uma coleção que mescla esculturas chinesas do século 14 a.C. a telas do modernismo brasileiro. Para conduzir o público nesse eclético percurso pela história da arte, o guia Felipe apresentou cada um dos ambientes e abriu espaço para perguntas dos visitantes. Começou pelo salão de visitas, onde ocorriam as reuniões sociais – e por isso estão expostas as obras de maior impacto, com cerâmicas gregas e pinturas italianas. A seguir, o passeio contempla a sala de música, que reúne duas telas de Marc Chagall, a biblioteca, com gravuras de Rembrandt e Albrecht Dürer, e a sala de jantar, repleta de peças do barroco brasileiro, várias entalhadas por Mestre Valentim. Antes de passar aos quartos, a exibição de um documentário sobre a trajetória de Ema. O que ajuda a entender também como os móveis e obras de arte foram adquiridos ao longo das décadas.
ONDE: R. Portugal, 43, Jd. Europa, 3062-5245. QUANDO: 3ª a 6ª, 14h, 15h, 16 e 17h. QUANTO: R$ 10 (R$ 5 para estudantes, professores e idosos); 6ª, a visita é gratuita e não há necessidade de agendamento. COMO: as visitas podem ser agendadas pelo telefone 3062-5245 ou pelo email agendamento@emaklabin.org.br. 

 

ESTAÇÃO DA LUZ

NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Na visita à Estação da Luz, o trajeto começa pelo entorno, quando o público ouve histórias sobre a expansão da região da Luz (chamada antigamente de Campo do Guaré) até a iniciativa do Barão de Mauá de construir, em 1901, a estação de trens com capital inglês. Daí surge a companhia São Paulo Railway. Mesmo envolvido com o passeio, o visitante deve permanecer atento. É comum a abordagem – por vezes, agressiva – de mendigos do local. “Esse é um dos desafios de trabalhar aqui”, diz a guia, que não deixou nenhuma pergunta sem resposta. Dentro do edifício, ela destaca a arquitetura do local, de estilo eclético e com material todo importado da Inglaterra. Fala sobre as mudanças estruturais, após o incêndio ocorrido em 1946, e sobre o restauro de 2004. Dentro do prédio, é possível também conhecer as instalações do Museu da Língua Portuguesa. Mais interativa, essa visita já começa com uma pergunta: “O que vocês entendem por língua?”, questiona o monitor. A seguir, os frequentadores são levados ao segundo andar do prédio, onde, por meio de vídeos, é possível perceber como as diversas correntes migratórias que formaram o Brasil influíram no idioma. Pra quem é tímido, um aviso: o guia propõe o envolvimento em brincadeiras como o ‘telefone sem fio’, em que fica evidente o caminho de transformação das palavras que formaram nossa língua.
ONDE: Pça. da Luz, s/nº, 3322-0080. QUANDO: sáb. e dom., 11h e 13h (visita ao museu), 12h e 14h (visita à Estação da Luz). QUANTO: R$ 6 (grátis aos sábados). COMO: inscrições na catraca do museu; não precisa agendar. 

 

CEMITÉRIO DA CONSOLAÇÃO

GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Museu a céu aberto, o Cemitério da Consolação abriga tantas obras que é o primeiro na cidade a receber a tecnologia QR Code. Os códigos permitem descobrir, a qualquer momento, o perfil do sepultado em cada alameda e também detalhes do monumento erguido sobre o respectivo túmulo. A maneira mais interessante de passear por ali, porém, não é de celular em punho. Melhor deixar-se levar pela visita guiada conduzida por Francivaldo Gomes. Conhecido como Popó, o ex-coveiro herdou do historiador Délio Freire dos Santos a paixão por narrar as curiosidades do local. De férias até terça-feira (17), Popó abdicou de seu descanso no último dia 6 para atender um grupo agendado e a equipe do Divirta-se. Mostrou que sabe de cor o nome completo, apelido, data de nascimento e de morte da maioria das pessoas ali enterradas. Estudioso do tema, desafia os visitantes: “Me diga o nome de uma rua ou pessoa que eu digo onde está enterrado.” Há quem busque obras específicas, caso de Valeria Paniccia, artista italiana que procurava por figuras eróticas. Embaixo de chuva, ela comemorou ao encontrar ‘Solitudo’ – primeiro nu do local esculpido por Francisco Leopoldo e Silva, em 1922, para a sepultura do advogado Teodureto de Carvalho. Ali, também há criações de Ramos de Azevedo, Victor Brecheret e Raphael Galvez, entre outros.
ONDE: R. da Consolação, 1.660, Consolação, 3396-3814. QUANDO: 3ª e 6ª, 9h30 e 14h. QUANTO: grátis. COMO: necessário agendamento pelo e-mail assessoriaimprensa@prefeitura.sp.gov.br

 

MOSTEIRO DE SÃO BENTO


Visitar a igreja do Mosteiro de São Bento é fazer uma imersão não apenas em um templo religioso, mas descobrir a história embutida em sua arquitetura, suas pinturas e obras de arte. Para agendar um horário, é preciso enviar um e-mail e aguardar a resposta do irmão Hugo, que recebe grupos de 7 a 50 pessoas, e os conduz por cerca de 40 minutos com simpatia e desenvoltura. A visita guiada é restrita ao interior da Basílica de Nossa Senhora da Assunção, recém-restaurada. Não é permitida a entrada de visitantes no interior dos claustros monásticos, onde vivem os monges e noviços. O prédio atual do mosteiro – fundado em 1598 pelo Frei Mauro Teixeira – é sua quarta construção, iniciada em 1902, com projeto do arquiteto alemão Richard Berndl, e finalizada em 1922, com as pinturas e decorações feitas no interior da basílica pelo beneditino belga Dom Edelberto Gressnigt. Além da igreja e do mosteiro, o complexo inclui o Colégio São Bento (1903) e a faculdade de Filosofia (1908). O passeio começa com os olhares voltados para o alto. No teto, medalhões retratam passagens da vida do padroeiro São Bento, como quando viveu isolado na gruta de Subiaco. O percurso segue ao redor da igreja, riquíssima em detalhes. São estátuas dos 12 apóstolos; a pia batismal; os textos em latim; os santos esculpidos por monges alemães ou portugueses; a capelinha que guarda o santo sacrário e onde ajoelhou-se o papa Bento 16; o crucifixo de 5 metros no altar; e ainda um órgão com 7 mil tubos, tocado na missa solene de domingo, às 10h, com cantos gregorianos. A visita termina na lojinha do mosteiro, onde estão à venda terços, CDs e os deliciosos pães,  bolos e biscoitos feitos pelos monges, como o ‘Bolo Santa Escolástica’ (R$ 70; foto), de nozes, maçã e canela.
ONDE: Largo de São Bento, s/nº, Centro, 3328-8799. QUANDO: 2ª a 6ª, nos períodos da manhã ou da tarde, conforme a disponibilidade dos monges. QUANTO: grátis. COMO: consulta de horários e agendamento com 15 dias de antecedência, pelo e-mail mosteiro@mosteiro.org.br.

 

SALA SÃO PAULO

MARINA VAZ/ESTADÃO


A visita monitorada à Sala São Paulo, feita pelo Divirta-se em uma quinta-feira, às 13h, começou com um pequeno percalço: na bilheteria, o sistema de emissão do ingresso apresentou problemas e, por conta disso, os primeiros minutos da visita foram perdidos. Mas, no saguão próximo ao café, onde se inicia o tour, a guia Carol fez questão de recapitular as informações preliminares sobre o edifício – antiga sede da Estrada de Ferro Sorocabana, que data de 1938. Com bom humor, mas sem infantilizar o grupo, ela observou como seu estilo arquitetônico ligado à belle époque destoava da arquitetura modernista, em alta na época. A segunda parada é o saguão mais próximo à linha do trem, isolado por vidros da atual estação Júlio Prestes da CPTM. Ali, é contada a história dos dois vitrais que representam deuses gregos em meio a referências à política cafeeira e ao desenvolvimento industrial paulista. Repare no letreiro original da Plataforma 2, antiga lanchonete da estação (foto). A visita termina na sala de concerto, aberta em 1999. Lá, a monitora conta várias curiosidades históricas e técnicas: entre elas, que o local era um jardim de inverno com palmeiras imperiais; e que as cadeiras foram criadas especialmente para a sala, para se manter a mesma acústica com uma ou com 1.469 pessoas na plateia.
ONDE: Pça. Júlio Prestes, 16, Luz, 3367-9500. QUANDO: 2ª a 6ª, 13h e 16h30; sáb., 13h30; dom., 13h ou 14h. QUANTO: grátis (sáb. e dom.)/R$ 5 (2ª a 6ª). COMO: é necessário agendamento prévio pelo email visita@osesp.art.br ou pelo telefone 3367-9573 (2ª a 6ª, 9h/18h). 

 

PINACOTECA


Embora a visita guiada à Pinacoteca seja ótima, chegar até ela pode ser complicado. Na tarde de sábado (7), o guichê de ação educativa estava vazio e a recepção não sabia dizer se era possível fazer um tour individual. O próprio repórter teve de ir procurar os educadores para confirmar o horário da próxima saída – o tipo de constrangimento que pode afastar quem não tem tanta familiaridade com instituições de arte. Não importa o tamanho do seu conhecimento. Leigos ou aqueles mais acostumados com o universo dos museus podem encontrar um trajeto sob medida. A guia só iniciou o percurso depois de perguntar que tipo de informações o visitante buscava e qual era o seu contato com o mundo da arte. O que se aprende sobre o próprio prédio e a exposição ‘Arte no Brasil: uma História na Pinacoteca de São Paulo’ vai de acordo com o visitante. Com quase uma hora de duração, o passeio contextualizou obras, acrescentou enfoques políticos a elas e definiu conceitos como os de ‘alegoria’ – caso de ‘América’, pintada por um autor desconhecido baseado no que ele imaginava do lugar, não no que viu de fato –, sem tom professoral. A guia mais conversava do que ensinava, o que tornou a atividade divertida. O audioguia também não fica atrás. Com efeitos sonoros e textos concisos, traz dados pontuais e pertinentes que não entediam o visitante.
ONDE: Pça. da Luz, 2, Luz, 3324-1000. QUANDO: 3ª a 6ª, 10h, 12h30 e 14h15; sáb. e dom., 10h, 11h30, 12h, 14h, 14h30 e 16h. QUANTO: Entrada do museu: R$ 6 (sáb., grátis). Audioguia: R$ 4. COMO: agendamento de visitas de grupos com até 25 pessoas, pelos telefones 3324-0940 e 3324-0944; para visitas individuais, consulte horários no balcão dos educadores, na recepção.