Curadora fala sobre a 28ª edição do Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo
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Curadora fala sobre a 28ª edição do Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo

André Carmona

22 Agosto 2017 | 19h14

‘A Passagem do Cometa’ é um dos destaques da programação. Foto: Juliana Rojas

Desta 4ª (23) até 3/9, a 28ª edição do Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo exibe 365 filmes de 55 países, sob o tema ‘Humor em Tempos de Cólera’, que destaca obras que usam a comicidade para tratar de temas polêmicos.

Além de homenagens a Jacques Rivette, grande expoente da Nouvelle Vague, e Carole Roussopoulos, cineasta que documentou o movimento feminista na França, a seleção conta com curtas premiados, como o chinês ‘Uma Noite Suave’ e o português ‘Cidade Pequena’.

Antes de conferir alguns destaques da programação, leia a entrevista que Zita Carvalhosa, uma das curadoras e diretoras do evento, deu ao Divirta-se. Toda a programação é gratuita.

Como você vê a importância do curta dentro da produção cinematográfica?
O curta tem uma posição muito privilegiada na linguagem cinematográfica, pois é um universo em que se tem uma liberdade de criação muito grande. Então, você está mais próximo das questões contemporâneas, da realidade, por dois motivos: um é o ciclo de realização, mais rápido; o outro, a liberdade de não estar tão vinculado a uma economia de mercado. Há espaços mais alternativos de exibição, pode passar no cinema, pode passar na televisão; mas não tem, de qualquer maneira, obrigações tão sérias. Além disso, com os curtas, é possível dar uma volta no mundo em pouco tempo. Tem filme do Nepal, das Filipinas, do mundo todo.

Por que o humor é tema latente desta edição?
Acho que o humor é a forma mais sofisticada de tratar assuntos polêmicos. Usar o humor é uma arte. Estamos em um momento muito duro, não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro, e isso precisa ser abordado de alguma forma. Realmente, a arma do humor é um jeito bacana de lidar com as coisas. No curta-metragem, vemos que essa possibilidade existe. Há muitas formas de humor: politicamente correto, politicamente incorreto, e, na hora de fazer essa retrospectiva, buscamos na história do festival filmes que retratam seu tempo, de uma maneira mais universal e mais livre. Nesses anos todos, nos demos conta de que o que faz rir também traz mudanças.

A ideia do tema veio antes ou vocês o notaram presente nos filmes recebidos?
O tema veio antes, como programa especial, na vontade de procurar filmes que lidam com a realidade triste, com um certo desânimo que impera na sociedade, mas que, ao mesmo tempo, fazem as pessoas pensarem. A ideia não é que o espectador se sente na poltrona e gargalhe. Não funciona assim. É um humor de dizer: “Temos que refletir sobre isso.” Por essa razão, escolhemos filmes que, em diferentes momentos e lugares, lidaram com temas polêmicos por este viés. Mas, no festival todo, o humor não é imperativo, seria uma inverdade dizer isso, ao passo que há bons filmes que usam dessa estratégia.

Como foi feita a seleção dos programas?
É um processo que começa em março e acaba em junho. Nós recebemos as inscrições e fazemos uma seleção em cima; várias pessoas participam. Discutem-se todos os filmes recebidos. Este ano, foram mais de 3 mil filmes, de países do mundo inteiro. São várias pessoas que se dedicam, durante quase um semestre, a assistir às produções. Nos programas especiais, por exemplo, preferimos filmes que revelam tendências da época ou que apresentam uma escola específica. Há várias coisas que gostaríamos de conversar a respeito. Uma sessão de cinema é uma oportunidade de estarmos juntos para conversar sobre temas relevantes.

O que você destacaria da programação?
Como curadora, fica difícil citar um ou dois filmes em meio a 30 de que gostei. Seria injusto com as produções. Mas temos filmes premiados com Palma de Ouro, Urso de Ouro, ou seja, filmes já consagrados no exterior, ao lado de estreias mundiais que a gente tem uma certa expectativa, como ‘A Passagem do Cometa’, da diretora Juliana Rojas. Um programa que destaco, também, remete a filmes em língua portuguesa. Há produções de Angola, Moçambique, Portugal e outros países.

Há alguma escola que se destaca na produção de curtas?
Este ano, estamos fazendo um programa com filmes de Israel. Não afirmaria que é a melhor escola do mundo, pois este não é o critério, mas é muito boa. Outro lugar que tem uma escola de cinema maravilhosa é a Polônia, além, é claro, da Inglaterra, que tem uma produção de curtas muito tradicional e especial.

Qual é o balanço que vocês fazem do evento ao longo dos anos? O público de curtas cresce ou é estável?
Podemos dizer que o público de curtas é grande e bem estável. A gente tem seis salas, das melhores da cidade, e uma ocupação muito interessante. É raríssimo vermos uma sala com menos da metade dos assentos ocupados, sendo que, à noite, estão sempre cheias. A variação de espaço diminui as filas também e leva os filmes para diversos locais da cidade. E isso é muito importante para nós.