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Sonia Racy

06 Janeiro 2016 | 01h30

Foto: Caiuá Franco

Foto: Caiuá Franco

Marjorie Estiano estreou, anteontem, no papel da beata Mariana de Santanna, na minissérie Ligações Perigosas, da Globo. Para a coluna, a atriz contou como se preparou para viver uma das protagonistas do romance, que é uma adaptação escrita por Manuela Dias do clássico francês de Choderlos de Laclos, de 1782. A seguir os melhores trechos da entrevista.

A minissérie é uma adaptação do clássico francês que trata dilemas da sociedade. Você já conhecia o romance?
Conheci a estória através do filme do Stephen Frears. Li o livro quando entrei no projeto – e o formato é simplesmente delicioso, a entrega da estória através de cartas, a escrita coloquial, o contexto histórico… O livro é muito rico e forneceu muito material. São épocas distintas, a Paris do final do século 18 não se assemelha ao Brasil do início do século 20, em que a história acontece. O “quando” e o “onde” contextualizam questionamentos, comportamentos, mas a meu ver o foco principal é atemporal, universal. Uma das coisas que mais me impressiona é a ingenuidade de todos em acreditar que têm absoluto controle sobre si. Uns se arriscando mais, criando personas mais frias, e outros menos. 

A minissérie aborda os reais sentimentos por trás da moral e dos chamados bons costumes. Como avalia a forma de tratamento do tema?
No início das leituras ficamos discutindo sobre o que é Deus, o que é fé, discordando, concordando – e chegamos ao consenso de construir uma personagem que tivesse muita fé. Meu desejo era apresentar uma mulher religiosa, com uma relação intensa e íntima com Deus, e que isso não gerasse distanciamento, mas, pelo contrário, aproximação. Acho que a intolerância que hoje impera é fruto da distância e da ignorância. Tem-se a impressão de que o politicamente correto está voltando porque havia a impressão de que ele não estava tão presente. Ele está. Sempre esteve, e com alguma discussão é revelado. O Brasil é mestre em disfarçar preconceitos. Com o sobrenome multirracial, ele faz de conta que não é racista, não é machista, é unido e tem orgulho de cada Estado… E através de debates, às vezes proporcionados pela dramaturgia, é que nos damos conta do quanto ainda temos que discutir. A dissimulação, em determinada medida, é necessária para a convivência. A definição de respeito varia muito de pessoa pra pessoa. A honestidade primordial é em relação a você mesmo, e a conquista dela pode determinar por quanto tempo esse tema ainda será atual.

A história se passa nos anos 1920, num período de vanguarda cultural. Estudou a época para viver a personagem?
Sim, muito embora a quebra dos padrões se revele, em Mariana, de maneira muito mais interna, íntima. O entorno forma o indivíduo. A música, a literatura, os hábitos. E preencher esse dia a dia que era muito diferente de hoje não foi muito fácil. A relação com o tempo concreto mudou… A quantidade de informação a que se tinha acesso na época, comparada ao que temos hoje, já coloca seu corpo e sua cabeça em outro estado.

Sua personagem é devota e carola. Foi fácil para você assimilar? Você segue alguma religião?
O fato de Marianna ser devota e carola revela, para mim, tanto sobre ela quanto sobre os outros personagens. Era uma mulher que, enquanto todos se dedicavam a se divertir, dedicava seu tempo a fazer algo pelos outros. Tinha com a religião um elo de confiança e equilíbrio, era uma mulher de fé. Eu tenho a minha fé, acredito em preceitos de diferentes origens. Procuro diferentes alternativas para entrar em contato com meu espírito, me fortalecer. Mas sobretudo acredito em energia, em algo que conspire a favor. /SOFIA PATSCH

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