Trump ‘não sabe nada de América Latina’, adverte analista americano

Trump ‘não sabe nada de América Latina’, adverte analista americano

Sonia Racy

14 Agosto 2017 | 00h40

CIENTISTA POLÍTICO RIORDAN ROETT / DIVULGAÇÃO

Riordan Roett critica ‘ação militar na Venezuela’
mencionada pelo presidente americano, diz que solução do caso
é tarefa da América Latina e avisa: o Brasil tem muito
o que fazer para se tornar um player de peso na política mundial 

Quando recebeu de FHC a Ordem do Rio Branco, no início dos anos 2000, o cientista político americano Riordan Roett já era íntimo, há tempos, dos problemas latino-americanos. Falava português e espanhol e tinha livros publicados sobre os países da região. Nessa caminhada, ele acrescentou ao seu currículo passagens, como professor e diretor, por centros de estudos na Vanderbilt University, no MIT e em Columbia. Hoje ele comanda, em Washington, a seção de Hemisfério Ocidental na Paul H. Nitze School of Advanced International Studies, da universidade Johns Hopkins.

Roett não poupa o presidente americano Donald Trump por ter dito, há três dias, que poderia recorrer a uma “ação militar” na Venezuela. “Trump não sabe nada das relações EUA-América Latina” — pois se soubesse “entenderia a história das intervenções americanas de um século atrás”, diz ele nesta entrevista por e-mail a Gabriel Manzano.

Em seu olhar sobre o Brasil, o professor também não faz concessões. Ele vê o País “isolado no Atlântico”, quando as coisas importantes estão acontecendo do outro lado, “na Parceria Trans-Pacífico”. O Brasil “tem uma economia fechada” e está fora “das grandes cadeias globais”. O presidente Michel Temer é, para a Casa Branca, “um lame duck, um pato manco”. Enfim, “as aspirações brasileiras a ser um player internacional importante estão, por ora, “em suspenso”. Roett também acha muito improvável “que o governo brasileiro receba alguma prioridade (de parte dos EUA) antes das eleições de 2018”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O presidente Donald Trump acenou com uma “ação militar” contra a Venezuela, no sábado, e os governos sul-americanos já criticaram a ideia, ontem. Qual sua avaliação do cenário na região?
Mr. Trump não sabe nada sobre as relações EUA-América Latina. Se soubesse, entenderia a história das intervenções americanas no continente, há um século atrás. O imperialismo americano está vivo, ainda, na mente dos povos da América Latina. A simples menção à possibilidade de intervenção na Venezuela reforça essa velha imagem. A ação militar unilateral não é e nunca será a resposta adequada dos EUA no conflito.

Mas o governo de Nicolas Maduro tem reprimido com força as oposições e não quer negociar.
Os equívocos do governo Trump em nada justificam a truculência dos chavistas, dia após dia. Tudo isso clama por uma resposta da América Latina – mas até agora a Unasul e outras instituições foram ignoradas, com a trágica violação dos direitos humanos e liberdades civis na Venezuela.

Os países do Mercosul têm-se mostrado atentos e tentado dialogar. Os EUA podiam fazer algo mais prático?
Por enquanto, sanções têm sido impostas a indivíduos pelo governo americano, mas outras medidas devem estar a caminho. Uma delas poderia ser, adotar sanções econômicas contra a PDVSA, a empresa venezuelana de petróleo – e principal fonte de recursos externos para o governo de Nicolas Maduro. Levando em conta a pouca eficácia das ações dos poderes regionais, como OEA ou Unasul, a Casa Branca terá de agir com cautela, para evitar qualquer pretexto dos chavistas para mais repressão interna.

Vê algum espaço, no horizonte, para uma ação conjunta de nações latino-americanas e EUA?
Se a situação se agravar, com uma crise de imigração, o Brasil, a Colômbia e os países do Caribe sentirão o forte impacto dos milhares de venezuelanos deixando aquele país. Não vejo, no momento, nenhuma indicação de que a Casa Branca esteja considerando uma ação conjunta – mas isso pode acontecer e se tornar uma opção se as coisas piorarem muito. Acho muito cedo para se dizer se tal solução seria viável.

Brasil e América Latina continuam tendo importância mínima para o governo dos EUA. Com Trump isso vai piorar?
No cenário atual, dominado por Coreia do Norte, o Oriente Médio, etc., não me parece que essa região venha a merecer grande atenção. Nada que se compare à ênfase dada no governo Obama, quando seu vice Joe Biden visitou a área diversas vezes e o próprio Obama teve encontros de destaque. Quanto a Trump, até aqui ele só se interessou por imigração, drogas e um longo muro na fronteira com o México. Muitas embaixadas não receberam ainda embaixador.

AS ASPIRAÇÕES DO BRASIL A SER
UM PLAYER MUNDIAL DE PESO ESTÃO
NO MOMENTO ‘EM SUSPENSO’

Nos anos 70, o presidente Nixon disse ao presidente Médici que para onde se inclinasse o Brasil se inclinaria a América Latina. Qual a real importância do Brasil, hoje, para a Casa Branca?
Pela crise econômica e política que vive, é difícil imaginar que o Brasil receba alguma prioridade até depois das eleições de 2018. Ele não participou da Parceria Trans-Pacífico (TPP) nem da Aliança do Pacífico. Está relativamente isolado no Oceano Atlântico, quando o polo de ação está do outro lado. O País parece incapaz de entender a importância e os benefícios das iniciativas do lado do Pacífico. Por bons ou maus motivos, o México terá prioridade – por causa da fronteira, da imigração, do acordo do Nafta. Ou seja, o Brasil tem muito a fazer para ser importante. Suas aspirações de ser um player de destaque na política internacional estão, no momento, em suspenso.

Mesmo como integrante de um grupo como os Brics?
O sonho de um papel de destaque para os Brics perdeu força. O próximo governo brasileiro precisará repensar o seu “soft power”, se quiser de fato ser um player importante no mundo.

O que significa, concretamente, “repensar o soft power”?
O Brasil tem se mostrado disposto a participar de operações de paz, do debate climático no planeta, de negociações comerciais. São atividades de “soft power”. Mas a histórica posição brasileira quanto à defesa da soberania significa que ele não está preparado, ou não deseja, juntar-se às coalizões internacionais para confrontar o Estado Islâmico, o Taliban no Iraque, ações no Afeganistão etc.

Nesse caso, ele não estaria “pronto” nem para o Conselho de Segurança da ONU?
Creio que isso complica sua candidatura a um assento permanente no CS da ONU.

O presidente Michel Temer deve ir à Assembleia-Geral da ONU, em setembro, e poderia ter um encontro, mesmo breve, com Trump. O que ele poderia dizer?
Está claro, para a Casa Branca, que o presidente Michel Temer é o que a gíria política americana costuma chamar de “lame duck”, um pato manco. Ele tem pela frente novas acusações de corrupção. Sua popularidade é muito baixa. Sua agenda de reformas caminha muito lentamente no Congresso. A possibilidade de que possa ser removido do posto não é ignorada pela Casa Branca. Assim, se houver um encontro entre os dois terá um caráter apenas simbólico.

Mas há uma agenda em andamento, de qualquer forma, e ela movimenta as diplomacias.
O Brasil tem uma economia fechada, que não é produtiva nem competitiva. Esses desafios estruturais existem há muito tempo no País. O estado precário da infraestrutura, dos hospitais e das escolas não vai mudar no curto prazo. O Brasil raramente participa das cadeias globais mais estratégicas. Todas essas barreiras precisariam ser vencidas antes de se formular uma agenda séria entre Brasília e Washington.

O Brasil destacou-se bastante, internacionalmente, pelo combate à corrupção com a Operação Lava Jato e por prender líderes políticos e empresariais. De que modo acha que isso influi na sua imagem entre os americanos?
Os americanos não sabem muito a respeito do Brasil. As informações pelos jornais são, usualmente, sobre Lava Jato, Petrobrás e políticos corruptos. Só que essas notícias de políticos e empresários indo para a cadeia simplesmente confirmam a imagem de uma sociedade profundamente corrupta, que precisará de muito tempo para mudar para melhor.

De que modo a imagem externa do País pode ser afetada pela eventual vitória de alguém à direita ou à esquerda nas eleições de 2018?
Acho que o País terá ainda menos relevância se ganhar alguém de direita ou de esquerda, se Lula voltar. Há um dito antigo aqui em Washington quando se fala de Brasil – o de que o país é sempre “um problema”. A imagem seria reforçada se isso ocorresse. O Brasil seguiria sendo “um problema” para os ocupantes da Casa Branca.

À parte a crise da Venezuela, o cenário no continente aponta para um enfraquecimento do bolivarianismo. A seu ver, isso é uma tendência dominante?
Tudo é relativo. O peronismo está de fato morto na Argentina? Melhor esperar o resultado das próximas eleições legislativas. Equador e EUA não têm, no momento, embaixadores residentes. E se houver uma vitória da esquerda ou da direita no Brasil em 2018? Se o partido de Lopes Obrador chegar ao poder no México? O fato é que as ideologias mudam muito rapidamente, no continente, e as velhas ideias demoram muito para morrer.