‘Todos sabem o que tem de fazer no País. Só falta fazer’

‘Todos sabem o que tem de fazer no País. Só falta fazer’

Sonia Racy

19 Março 2018 | 00h40

 

 

Para Márcio Utsch, presidente da Alpargatas,
parte da iniciativa privada
‘está acordando’ para a política

Em sua primeira entrevista desde que a Alpargatas foi comprada pela Itaúsa, a Cambuhy e Warrant, Marcio Utsch – que trabalha na empresa há 21 anos – olha o futuro do Brasil com otimismo. Tecendo vários elogios aos novos acionistas, diz acreditar que a empresa está na rota certa e que poderá crescer e muito. O País, em seu entender, também está no caminho correto – e ele pondera que a volatilidade das regras econômicas tende a diminuir. E deixa escapar, aliás, que nestes primeiros meses do ano a empresa está crescendo “dois dígitos”.

No ano passado, o faturamento aumentou 5,8%. “Abaixo do que esperávamos”. Conta que a Alpargatas criou um modelo de crescimento de quatro degraus. “Primeiro, ser líder local. Segundo, tornar a Alpargatas uma grande exportadora, para conhecer melhor a dinâmica do mercado internacional. Terceiro, torná-la uma companhia internacional, que é o ponto onde estamos hoje. E daqui a 5 ou 10 anos, subiremos no quarto degrau: ser uma companhia… global.”

Concordando que é importante, cada vez mais, a iniciativa privada inteirar-se da política brasileira, Utsch não apoia a ideia de o empresário ser político ou vice-versa. “São talentos diferentes.” Aqui vão os principais trechos da conversa com a coluna, na semana passada.

Como você vê o Brasil hoje?
A economia brasileira é bastante resiliente. Vem passando por vários desaforos e resistindo à maior parte deles. A prova é que a gente está no período da maior recessão histórica, período muito extenso de recessão, além de um PIB negativo. Essas duas coisas acontecem simultaneamente.

Mas o ano de 2018 não dá sinais positivos?
Temos alguns indicadores macroeconômicos muito bons, a Selic desabando, talvez caia mais ainda – portanto a taxa de juros como instrumento de contenção da inflação nem necessária é mais. Inflação em queda, economia apresentando sinais de crescimento. E há esse superávit bacana agora em janeiro.

Sinal de que o consumidor recuperou a confiança?
Não exatamente, mas estamos em um processo que vai levar à recuperação da confiança. Esses dados todos levam a uma constatação macroeconômica incrível, que se chama resiliência. Imagina, com toda questão ética que a gente está passando, com toda a questão política, ainda assim a economia começou a crescer.

Como isso se explica?
A economia parece uma flor no deserto. Está tudo ruim, mas nasce. Criou-se uma certa independência entre a economia de um lado, e de outro o cenário político, ético, o cenário social, onde há vários problemas. Temos uma eleição daqui a sete meses, não se sabe quem serão os candidatos, como o eleitor vai votar, e ainda assim a economia continua melhorando. A partir disso, classifico a gestão econômica do governo como um sucesso.

O Brasil tem feito movimentos de vaivém na condução econômica, vai de ortodoxa, volta heterodoxa, hoje ortodoxa novamente. Os gastos excessivos da heterodoxia quebraram o País. Qual a garantia de que o próximo governo não vai voltar o pêndulo?
Não temos garantia de que o novo presidente não vá tirar um coelho caolho da cartola. Este talvez seja um dos maiores problemas, senão o maior, do Brasil: a volatilidade macroeconômica. A gente vive um sobe-desce que não deixa planejar muito para frente. As empresas que têm investimento grande acabam tirando o pé do acelerador.

Tem como introduzir regras que garantam o crescimento?
Só acredito no crescimento consistente via investimento. Não há crescimento consistente por meio da distribuição de renda. Quando se cria condição para crescer por meio de investimentos isso gera empregos, traz a maioridade da indústria – pois ela evolui –, torna-se competitiva no mercado interno, no externo. Você mostra mais para o mundo, não só do ponto de vista de marcas, mas também de tecnologia.

O Brasil hoje é improdutivo?
Bastante. Na cadeia de exportação já tivemos 40%, 42% de produtos manufaturados. Hoje isso caiu para 18% a 20%, indústria perdendo competitividade, ficando raquítica, atrofiada, enquanto as commodities agrícolas, agroindustriais, cresceram e foram tomando o lugar dos manufaturados.

Existe algo que o Executivo ou o Legislativo poderiam fazer para diminuir a volatilidade?
Tanto o poder público quanto o privado. No público, se você perguntar ao presidente da Câmara, do Senado, da República, todos sabem o que tem que ser feito. Falta é fazer. O que nós, da iniciativa privado, podemos fazer? Pressão popular. O político vive de votos, tem medo de não ter votos. A sociedade tem agir, seja ir pra rua, seja via rede social, pressionando o seu eleito. O movimento de 2013 foi importante.

O voto do eleitor brasileiro é consciente?
Está melhorando. Mas tem muita gente que vota por interesse pequeno, por uma cesta básica e tudo mais, não por conhecer o candidato. Então você tem ali um universo de 513 deputados e 81 senadores, menos de 600 pessoas, que respondem por 204 milhões de pessoas – muitas vezes eleitos de maneira consciente, outras vezes troca de favores. Talvez seja esse o maior problema da nossa volatilidade. Porque se você perguntar se é importante a reforma da Previdência, todo mundo vai dizer que é. Se perguntar se é importante um maior controle de gastos públicos, vão dizer que é. Então não há dúvida do que se tem a fazer.

Você acha que os empresários estão acordando para esse novo momento de participação?
Acho que sim. Ontem (terça-feira) tive café da manhã com empresários discutindo um pouco a política, que caminho tomar. Hoje outro empresário me convidou pra um encontro com políticos, com futuros candidatos. Pelo menos uma parte está acordando sim. Mas a gente não tem ainda uma organização na iniciativa privada que responda ao clamor da população. Tem áreas fortes, você tem a Fiesp…

Vê algum conflito por termos um representante da Fiesp candidato a governador?
Penso que um candidato a governador, a prefeito, a presidente, tendo por trás de si uma entidade que ele represente, sempre poderá haver um conflito. Na campanha e depois, na gestão. Acho que os presidentes das entidades são pessoas preparadas, conhecem bem o Brasil, as entidades que representam. Mas, por outro lado, representam a indústria ou o comércio… E muitas vezes se faz confusão.

O poder público exige um know-how que não é exigido da indústria?
Sim, como executivo de uma empresa de capital aberto não tenho o know-how pra estar num cargo do Executivo ou do Legislativo. Na empresa, eu quero saber se meu investimento terá retorno. No poder público talvez eu tenha que fazer investimento em obra que não vai ter nenhum retorno financeiro, mas que é importante pra sociedade. São habilidades diferentes. E em geral, não complementares.

Porque a iniciativa privada não vem com mais força?
Tenho uma percepção. Quando você tem um problema que se repete, surge uma desmotivação. Você desiste de tentar de novo. Exemplo: a gente fala tanto em corrupção, por que é que continuamos sendo corruptos? Desde a pequena corrupção com o guarda de trânsito, de comprar um produto pirata… Essas pequenas corrupções estão na base, as pessoas crescem achando essas coisas comuns. Aí cria-se uma justiça que demora a punir, se manda pra cadeia, o cara sai e assalta de novo. E com isso vai se criando uma resiliência à ideia de que se pode mudar. Mas em alguns setores a gente quebrou esse negócio e caminhou. Veja a agricultura, como deslanchou.

A Alpargatas quebrou também essas barreiras?
A resposta vai parecer um chavão mas não é: foi encontrar gente boa. Conseguir trazer gente que queria trabalhar, colocar nos lugares certos. E temos marcas bacanas, tem a Havaianas, que é a mais conhecida, Mizuno, Osklen, tem a Topper lá na Argentina. Tendo gente boa, o principal desafio é ter coisas consistentes pra contar.

Vocês sentiram alguma queda de demanda na época da operação da J&F?
Agimos em cima do caso. Tínhamos acionistas com problemas, a Camargo Corrêa, que foi o principal acionista da Alpargatas e vendeu pra J&F. Que vendeu para o consórcio Itaú. Na Alpargatas, nenhum dos sócios me pediu nada errado. Quando começou esse movimento, a gente deixou claro que a Alpargatas sempre foi uma companhia de capital aberto, que existe desde 1907. A solidez da Alpargatas é muito maior do que um solavanco desses.