‘Thomaz vive através dos meus trabalhos sociais’, diz dona Lu

Sonia Racy

30 Outubro 2017 | 00h25

LU ALCKMIN. FOTO DENISE ANDRADE/ESTADÃO

Primeira-dama paulista conta, em livro, o peso da
família em sua vida e como convive com
perda do filho mais novo

Era véspera de Páscoa e dona Lu Alckmin estava em Campos do Jordão esperando o restante da família chegar para o feriado. Enquanto lia um livro – seu maior hobby é ler – recebeu um telefonema que mudou sua vida para sempre. Do outro lado da linha, seu marido, o governador do Estado, Geraldo Alckmin, pedia que ela voltasse para a cidade. “Ele não quis falar, mas na hora eu soube que era algo com o Thomaz.”

O caçula de seus três filhos – ela também é mãe da blogueira de moda Sophia Alckmin e do executivo de banco Geraldo Alckmin Neto – tinha acabado de morrer em um acidente de helicóptero. Piloto, Thomaz não estava no comando da aeronave no momento da queda, em São Paulo, no dia 2 de abril de 2015, aos 31 anos. “Mesmo sem saber, mas já sabendo, rezei a estrada inteira. Foi o momento em que me conectei com Deus e com o Thomaz”, disse a primeira-dama de SP à repórter Sofia Patsch, com um pacote de lenços nas mãos, sentada em um sofá de uma das salas do Palácio dos Bandeirantes. Apesar de chorar, dona Lu faz questão de dizer que é uma pessoa feliz. “Eu choro, mas um minuto depois já estou sorrindo.”

Dois anos e meio depois do trágico acontecimento e após percorrer os 201 km da Rota da Luz – caminho de peregrinação feito a pé por romeiros de Mogi das Cruzes até Aparecida – dona Lu lançou — no último sábado, pela editora Planeta, o livro Amor Que Transforma, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

“O meu objetivo com esse livro é somente um: fazer o bem”. Além de espalhar uma mensagem de amor, ela pretende realizar o maior sonho de seu filho, que ela chama carinhosamente de ‘meu melhor amigo’. “Ele me disse que queria fazer coisas extraordinárias e a Rota da Luz foi só o início.”

Outra lição que dona Lu tirou disso tudo foi a importância de se viver o presente. Questionada se tem vontade de ser a primeira-dama do Brasil, ela responde: “Seria uma honra. Quero levar todos esses projetos que faço no Estado de SP para o Brasil inteiro. Mas também, se não for, não vou ser infeliz. Não estou preocupada com isso, estou preocupada em viver o agora.” Aqui vão os melhores momentos da conversa emocionada e exclusiva.

A ideia de escrever o livro surgiu quando a senhora estava fazendo a caminhada da Rota da Luz. Como foi esse processo?
O Thomaz acompanhou a criação dessa rota desde o início. Costumava me dizer: “Mãe, quando a senhora fizer essa caminhada, vou junto de moto ou a cavalo”. Quando eu estava completando o projeto do percurso, ele partiu. Finalmente, no momento em que consegui fazer a caminhada, não houve um só momento em que eu não sentisse a presença dele. Ele voltou e entendi que minha missão é levar a sua luz para o resto do mundo. Decidi escrever o livro para espalhar uma mensagem que transforme a dor e a angústia em amor.

Qual foi a primeira reação quando soube da morte do Thomaz?
Quando entrei no carro para voltar para São Paulo, mesmo sem ninguém ter dito nada claramente, pressenti e pedi a Deus que me desse sabedoria e força para entender a partida do meu filho. Lembro que era noite, já estava escuro, eu olhava pro céu, via uma estrela e falava: é o Thomaz. Tinha certeza de que aquela estrela era o Thomaz. Essa conexão com Deus me fez ser forte e lembrei muito da minha mãe.

No livro, uma das coisas que a senhora conta é que sofreu muito quando sua mãe morreu. A relação era parecida com a que tinha com o Thomaz, né?
No momento em que soube da morte do Thomaz pensei: quando a mamãe partiu, eu tinha o consolo dos meus três filhos. Chorei um ano, tinha febre toda noite. Me perguntei então: vou ficar chorando outra vez e perder a oportunidade de viver ao lado daqueles que estão comigo? Foi aí que compreendi os desígnios de Deus. Thomaz cumpriu sua missão na Terra. Foi Deus que me mostrou esse caminho. E todos nós estamos aqui de passagem, né? Era a hora de ele partir. E, graças a Deus, eu tinha estado um dia antes com ele – e ele estava muito feliz.

Sim, no livro a senhora cita esse encontro como uma despedida.
É. Nós sempre tivemos muita afinidade. Ele não deixava um dia de me ligar, de vir me ver.

A senhora o descreve no livro como seu ‘melhor amigo’.
Amo todos os meus filhos por igual. Mas o Thomaz era muito ligado a mim, acompanhava todos os meus projetos sociais. Ele sempre foi muito especial. E eu lembro que no dia do acidente eu estava lá, ao lado do caixão, fiquei o tempo todo ao lado dele. Eu pensei assim: Thomaz, você vai continuar a viver por meio do meu trabalho social. E na hora em que o caixão saiu eu ainda virei para as meninas e falei: “Me deem um mês, daqui um mês eu volto a trabalhar, e quero trabalhar três vezes mais do que trabalho hoje”.

E foi assim que a senhora fez…
Sim, voltei com força total. Sinto a presença dele muito forte quando estou fazendo qualquer trabalho social. Quando alguém vem me falar ‘ai, dona Lu, agora estou podendo pagar as contas da minha casa’, digo baixinho: Thomaz é você que está fazendo isso através de mim. Quando partimos, não levamos nada material. A única coisa que levamos é o bem que fazemos por aqui.

A senhora é muito religiosa?
Sou. E fiquei mais, por incrível que pareça. Vou à missa todo o domingo. Antes, não ia. Sou católica, mas também leio livros sobre o budismo. Respeito todas as religiões.

‘SERIA UMA HONRA
SER PRIMEIRA-
DAMA. MAS NÃO
PENSO NISSO AGORA’

Hoje a senhora comanda as Padarias Artesanais e as Escolas de Moda, Beleza e Construção Civil, frutos de seu trabalho como presidente do Fundo Social de Solidariedade. Como começou a fazer trabalho voluntário?
Comecei em 2001, com as Padarias Artesanais. Dona Lila Covas ainda era a presidente do Fundo Social de Solidariedade. Lembro que foi nessa época que comecei a fazer uma das coisas de que mais gosto, que é estar na periferia de São Paulo, ouvindo as pessoas. É nessa hora que faço a avaliação dos projetos, a hora em que adoro ouvir as pessoas, o modo como elas veem as coisas. Aprendi com Cleuza Ramos, uma grande líder comunitária que mora no Itaim Paulista e minha amiga, que as pessoas não querem esmola, elas querem qualificação e trabalho. E é isso que tento dar a elas com os cursos que desenvolvo com minha equipe.

A senhora é a sétima filha de uma família de doze irmãos, perdeu seu pai aos onze anos, foi criada por sua mãe em um sítio perto de Pindamonhangaba e não fez faculdade. Mesmo assim, seu maior hobby é ler. Como foi a sua infância?
Lembro que comecei a estudar, mas não era em uma escola, eram grupos escolares e a sala de aula ficava dentro de uma fábrica de farinha. Eu chegava toda arrumadinha, de saia pregada, e voltava branca, porque a farinha entrava na sala e sujava todo mundo. Tive uma infância maravilhosa, em contato com a natureza. O Thomaz também adorava a natureza, os animais, nessas coisas ele me puxou.

No livro, a senhora conta como a sua família é unida…
Somos, mas toda família tem que ser, não é mesmo? Família é a base de tudo.
Como a senhora reage a todas as notícias que saem na mídia sobre a disputa de seu marido com o prefeito João Doria pela vaga de candidato à presidência pelo PSDB?
Quando o Geraldo entra por aquela porta, ele não toca mais no assunto política. E eu, como também não sou de política, respeito. Se ele fala alguma coisa eu até dou a minha opinião, mas o fato é que ele nunca fala nada. Nunca. Ele é uma pessoa muito tranquila, graças a Deus. Não adianta a gente ficar preocupada com o que vai acontecer, sabe? O que aprendi é que a gente tem que viver o momento presente. Nós não sabemos nem se vamos estar vivos amanhã, quanto mais no ano que vem.

Mas a senhora tem vontade de ser a primeira-dama do Brasil?
Seria uma honra. Quero levar todos esses projetos que faço no Estado de SP para o Brasil inteiro, mas também, se não for, não vou ser infeliz. Não estou preocupada com isso, estou preocupada é com viver o agora.

Ser primeira-dama é uma posição que representa sempre muita pressão. De que forma lida com isso?
Quero ser sempre a Lu. Eu “sou”, eu não “estou”. Estar é passageiro. Tem pessoas que assumem uma posição e se acham mais importantes do que as outras, acham que são melhores, e daí, o que acontece? No dia em que, por qualquer motivo, deixam essa posição, entram em depressão.