‘Temos grandes atores negros, mas ainda não temos bons dramaturgos’

‘Temos grandes atores negros, mas ainda não temos bons dramaturgos’

Sonia Racy

23 Março 2015 | 01h00

Foto: João Caldas

Após brilhar como Xana Summer, na novela Império, Ailton Graça fala sobre seu novo desafio, o papel de Driss na peça Intocáveis. “Precisamos contar nossas histórias ancestrais.”

Se é verdade que todo ator usa frações da própria vida para compor seus personagens, o novo desafio teatral de Ailton Graça é quase autobiográfico. Depois de brilhar na TV na pele de Xana Summer, drag queen da novela Império, da TV Globo, ele agora se vê às voltas com um papel que remete à infância, adolescência e ao início de sua carreira.

Ex-feirante, vendedor em uma loja de sapatos e camelô, Ailton tem origem no mesmo caldeirão de injustiças sociais em que se criou o também negro Driss, personagem do filme Intocáveis (1992) – um dos maiores sucessos do cinema francês recente –, que ele interpretará nos próximos meses no Teatro Renaissance, em SP.

“Temos pontos em comum e usei, claro, boa parte da minha escola de vida para compor o papel”, afirma o paulistano, que cresceu em Americanópolis, na periferia da cidade. “Um lugar paupérrimo”, como faz questão de lembrar. No filme, Driss, interpretado por Omar Sy, é de uma família senegalesa que vive no subúrbio de Paris, acaba de sair da cadeia e tenta o emprego de cuidador do aristocrata Philippe (um tetraplégico) apenas para ser dispensado na entrevista e se habilitar ao seguro-desemprego.

“O cara é um sobrevivente, e acho que eu também”, diz. Se hoje há mais chances para atores negros no Brasil? “Temos ótimos atores, mas faltam bons dramaturgos para contar as histórias da nossa ancestralidade.”

Depois de Intocáveis, ele deve viver Mussum na cinebiografia do humorista que será dirigida por Roberto Santucci. “Mas minha única preocupação, agora, é o Driss”, desconversa. Ailton recebeu a coluna à beira do palco, pouco antes do último ensaio da peça (que estreou sábado). A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Esta é a primeira adaptação do filme para o teatro. Para quem assistiu ao longa, será uma experiência parecida?

A peça é cerca de 70% inspirada no filme. Mas sofreu, claro, uma adaptação. São as exigências do palco, né? O ponto de partida, que é o encontro de duas pessoas com realidades sociais e padrões de vida totalmente diferentes, permaneceu. Intolerância, racismo, diferenças sociais são temas que pertencem a todas as sociedades.

Você diria que o discurso é mais humanista?

Com certeza. A gente discute afetividade. É aí que a gente se torna mais fiel ao filme. Discute a questão da sensibilidade de um ser humano em relação ao outro. Assisti três vezes na época do lançamento, e o que me chamava atenção era sempre o cartaz, um negro e um branco conversando. Depois, quando vi que se tratava de um argelino e um francês, dentro desse momento em que falamos de intolerância… tudo é tão terrível, as relações de medo entre pessoas, e aí você vê a aproximação desse argelino e desse francês, parece improvável. Isso muda a vida de ambos – culturas, formações e informações diferentes que se encontram e geram uma troca, eles vão se descobrindo.

O que o ‘pegou’ no personagem do Driss?

Ele é um cara do subúrbio, vive na margem de risco. Sentiu na pele todas as impossibilidades – de emprego, escola, transporte, de não ter uma assistência médica de verdade. Veio de outro país, é um sobrevivente, um catalisador de situações. O ambiente em que ele vive poderia tê-lo transformado em alguma coisa ruim, mas isso não aconteceu. E ele encontra o Philippe. O Driss leva para esse aristocrata a sua experiência na ‘faculdade da vida’, enquanto que o branco rico apresenta a ele uma outra gama de experiências às quais ele jamais teria acesso.

Não é apenas a história do encontro entre um branco rico e um negro pobre?

Isso como signo já é o suficiente, já estabelece a linguagem universal. Quem assiste à peça vê um ator negro e um ator branco conversando. Um pertence à classe abastada e está em uma cadeira de rodas; o outro é o resultado da exclusão. E esse diálogo transcende as questões mais básicas de racismo, tanto na peça quanto no filme. O texto não fica nessa bandeira, na discussão do muçulmano e do cristão, do negro e do branco, do francês e do argelino. Essas questões são subliminares, já estão no nosso inconsciente coletivo. Essa plataforma, tanto na tela quanto no palco, transcende. Está ali porque é um signo, mas o significando desse signo passa por um outro viés, um viés de afetividade, de aceitação do outro, com suas diferenças, com sua história de vida, com seu DNA diferenciado. É nesse lugar que a gente queria estar, foi por isso que me senti seduzido a fazer o papel do Driss.

Foi uma tentativa de dar um passo adiante na discussão?

Eu acho que sim. Um passo em uma outra direção.

O Driss tem características que o aproximam de você? Da sua vida antes da fama?

Acho que sim. Também vim da periferia, tive tudo ao meu redor para ser mais uma “vítima social”. Fui feirante, vendedor de sapatos, camelô. Acho que tudo isso fez muita diferença, porque é uma questão de olhar, né? De observação, de vivência. É a chamada escola da vida, que, nesse caso do Driss, me possibilitou agregar alguns elementos ao personagem. Acho que ele vai beber muito nessa fonte.

Como foi a preparação para viver o Driss no palco enquanto você ainda gravava Império?

Loucura total. Tivemos, todos nós do elenco e da produção da peça, de recorrer à tecnologia. E também à telepatia! (risos) Os encontros aconteciam no único dia que eu tinha de folga nas gravações da novela. Vinha correndo para São Paulo, para ensaiar. Fora isso, por telefone, a gente conversava muito, mentalizava, sabe? “Acredito que o outro está também fazendo a parte dele”. E lá no Rio eu também ensaiava, sozinho. Tinha de ser assim. Porque, na reta final da novela, meu personagem (Xana Summer) ficou sobrecarregado. Ele estava praticamente em todos os lugares. Aí eu tive de me desdobrar e tentar criar minha própria agenda de estudos da peça. Até agora estou tentando entender como foi que a gente conseguiu. (risos)

Antes da Xana Summer, você estava fazendo O Caçador. Agora, encarna o Driss. São três personagens completamente diferentes…

Mas sabe que eu preciso disso? Tenho essa necessidade. Depois de um trabalho que exige muita elaboração, gosto de começar o mais rápido possível a investigar o perfil psicológico de um novo personagem.

Por quê?

Tenho medo de ficar preso a alguns vícios do personagem que acabo de interpretar. Foi assim em O Caçador, por exemplo. Assim que me despedi da série, comecei a trabalhar na Xana Summer. Era um outro mergulho. Foi, com certeza, o personagem mais vertical e mais difícil que já fiz na minha carreira. Nossa, foi uma batalha muito grande. E mesmo antes de as gravações da novela terminarem, eu já sentia uma necessidade urgente de voltar ao teatro. Eu precisava ir para o palco, o palco é meu retiro.

Nesse caso, até para marcar uma ruptura.

Sem dúvida. O teatro é onde eu teria certeza de que precisaria elaborar um novo personagem. Sabe, essa divisão de espaço com o espectador na ‘caixinha preta’ é fundamental para mim. E como trabalho pós-Xana Summer parecia ser o ideal. É o grande exercício para que eu possa me desvencilhar e me despedir da personagem de Império.

Atores e atrizes costumam dizer que seus personagens nunca vão embora de verdade.

E não vão mesmo. A Xana Summer nunca vai desaparecer. Assim como personagem que eu fiz e O Caçador, o próprio Feitosa (seu personagem na novela ‘América’). Estão todos flutuando aqui em algum lugar. É assim que eu os imagino. Por isso que, faltando cerca de dois meses para o fim da novela, eu já iniciei esse mergulho no Driss. No teatro ainda existe um diferencial importante: não há edição, ou seja, eu preciso viver aquela vida ficcional sem freios, contar os seus conflitos, as suas angústias. E ele tem muitas! Também suas alegrias. Tenho de dividir tudo isso com o público e tentar sensibilizá-lo.

Quando você saiu de O Caçador, estava com o ligamento cruzado do joelho rompido. E disse que só iria conseguir se tratar após a novela. E agora? O Driss vai ter problema de joelho também?

(risos) Pois é… só depois do Driss. Estou começando a fazer fortalecimento, para poder voltar aos exercícios físicos. Devo ter mais tempo a partir de agora, com a estreia, durante esses 3 ou 4 anos em que ficaremos em cartaz (solta uma gargalhada) para me recuperar.

Está mais fácil encontrar bons personagens negros na TV, no teatro e no cinema hoje em dia?

Acho que há muitas opções de personagens negros hoje. Agora, o que ainda não temos são dramaturgos em número suficiente que escrevam histórias e discutam essa questão do negro, do racismo no Brasil. Há muitos atores qualificados atualmente, gente muito boa, muito talentosa, com trabalhos maravilhosos. Mas poucos roteiristas. E é isso que realmente me importa: a dramaturgia interessada em desenvolver argumentos para criar esse tipo de diálogo cênico. Com um pouco mais desse histórico, dessa identidade cultural. Sinto que a gente começa a perceber essa necessidade de falar sobre as questões raciais.

Sente que estamos vivendo uma época de aumento da intolerância?

Acho… (pensa um pouco) Por isso se faz necessário retomar essas questões da história, de se contar esses episódios do nosso passado. Não estou me referindo somente às histórias acadêmicas, da pena de gente como Abdias do Nascimento, Milton Santos, Lima Barreto. Isso também é extremamente urgente e necessário, mas é preciso, sobretudo, narrar a vida dos nossos grandes contadores de histórias, dos nossos mantenedores, daqueles que mantêm viva a história das nossas origens, da nossa ancestralidade. Estou falando da capoeira, do repente, do samba, desses instrumentos culturais todos, que representam a nossa luta e resistência.

Por isso também você escolheu Intocáveis neste momento da sua carreira?

Ah, com certeza. Porque esse texto vai ao encontro de tudo isso que eu falei. É um choque do yin com o yang, a dualidade de tudo, o choque do preto com o branco, que permite o equilíbrio entre as energias.

Você acaba de ser escolhido para viver Mussum na cinebiografia que o Roberto Santucci vai rodar este ano…

Minha única preocupação agora se chama Driss./DANIEL JAPIASSU