‘Temo o que pode ocorrer se o STF derrubar a prisão em 2.ª instância’

‘Temo o que pode ocorrer se o STF derrubar a prisão em 2.ª instância’

Sonia Racy

02 Abril 2018 | 00h35


DIRETOR JOSÉ PADILHA / FOTO NATHAN BAJAR/ NYT

Às vésperas de lançar novo filme, José Padilha
define como ‘comportamento de manada’
a ação dos que atacaram sua série O Mecanismo.
E diz que pode haver ‘violência social’ se
o País 
eleger um extremista em outubro 

José Padilha não foge da polêmica. Depois de suscitar um debate sobre a segurança pública do Rio de Janeiro com seus dois Tropas de Elite, o diretor mudou-se para os EUA. Dirigiu um Robocop e a série Narcos – sobre Pablo Escobar. Mais recentemente, fez Sete Dias em Entebbe – filme que estreia no dia 19 e narra a famosa operação de resgate israelense no Aeroporto Internacional de Entebbe, em Uganda, em julho de 1976.

O assunto também gera polêmica, pois trata de um dos conflitos mais complexos do século 21 – entre Israel e os palestinos. Mas não foi o conflito em si que atraiu o cineasta, e sim os agentes humanos dele: “O que eu acho que é mais relevante é a ideia de que, tanto em Israel quanto na Palestina, grande parte dos políticos tende a se eleger dizendo que o outro lado é o inimigo”.

Padilha conversou com a repórter Marilia Neustein na première do longa, em SP. Três dias depois, uma polêmica invadiu as redes sociais, a respeito de O Mecanismo, a nova série que Padilha dirigiu para o Netflix, sobre a Lava-Jato. O diretor foi acusado de “desonesto” e “produtor de fake news”. Concordou em responder a três perguntas sobre o tema. Reagiu a insinuações de que “estaria por fazer uma série para encobrir a execução de Marielle (Franco, do PSOL do RJ)”. E isso, acrescentou, “depois de toda a minha luta junto com o (deputado Marcelo) Freixo contra as milícias, revela algo inequívoco sobre os linchadores. A irracionalidade e o comportamento de manada”.

Quanto ao clima político do País e as eleições presidenciais, não foi tímido no comentário. “Temo pelo que pode acontecer se o STF revogar a prisão em segunda instância”, observou, acrescentando:.”Acho que se alguém da extrema direita ou de esquerda for eleito, (…) o Brasil corre o risco de entrar em um processo muito ruim. De desentendimento político, de violência social”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como encara as críticas que recebeu por O Mecanismo?
Com naturalidade. Assim como tenho a liberdade de criticar as pessoas, as pessoas têm a liberdade de me criticar.

O “linchamento virtual” o deixou incomodado?
Não. Mas certo tipo de linchamento, por exemplo a insinuação de que eu estaria por fazer uma série para encobrir a execução de Marielle, isso depois de toda a minha luta junto com o Freixo contra as milícias, revela algo inequívoco sobre os linchadores. A irracionalidade e o comportamento de manada. Ambos muito comuns em ambientes politicamente extremados e tendentes à violência. Temo pelo que pode acontecer se o STF revogar a prisão em segunda instância e soltar todos os criminosos que achacaram o País!

Já se fala em uma segunda temporada da série. Procede?
Não posso contar!

Você disse que, ao receber o roteiro de Sete Dias em Entebbe, enfatizou o viés humano e não militar. Na pesquisa, o que foi mais revelador sobre o episódio?
A maior parte da pesquisa foi feita pelo professor inglês Saul David. Eu parti desse material, viajei a Israel, entrevistei reféns, soldados. Fizemos a mesma coisa na França. O que acho mais relevante é a ideia de que, tanto em Israel quanto na Palestina, grande parte dos políticos tende a se eleger com campanhas nas quais cada um chama o outro lado de inimigo.

Pode dar exemplo disso?
O cara fala: “Eu sou Benjamin Netanyahu, vote em mim que te protegerei dos inimigos”. Ou então: “Eu sou Arafat, vote em mim que te protegerei dos inimigos”. Muitos desses líderes têm sua vida ou poder ameaçado quando se propõem a negociar. Peguei essa premissa que estava no livro do Saul, olhei para o resto da história e vi que essa restrição política é constante. Acho que é por isso que não tem solução.

Você já tinha interesse, antes, nesse conflito?
Só de ler em jornais e ver filmes. Nunca tinha estudado. Uma das coisas legais de ser cineasta é que você recebe projetos de pessoas que têm interesses diferentes do seu e tem a chance de aprender sobre assuntos que você desconhece.

Uma das críticas que o filme recebeu em Berlim foi que os terroristas teriam sido humanizados. No entanto, fica claro que você foge de visões estereotipadas. É uma preocupação sua na construção de seus personagens?
Existe um tabu quanto ao terrorismo. É evidente que ninguém gosta do terrorismo, mas, se você não puder olhar para atos terroristas e entendê-los como um fenômeno social psicológico, vai ser difícil parar essas ações. Em Entebbe, por exemplo, naquele pequeno grupo de terroristas havia dois tipos diferentes de motivação: os que lá estavam no contexto de uma guerra contra Israel, investidos de forma pessoal no ato, e os que estavam fazendo isso pelo marxismo – que tinha origem ideológica. Essas duas coisas não são a mesma coisa. Tanto que os reféns conseguiram colocar uma dúvida na cabeça do terrorista que tinha motivação meramente ideológica e não conseguiram conversar com palestino nenhum. Porque é completamente diferente. E essas duas coisas são diferentes do terrorista que tem motivação religiosa. Ou seja, se não olharmos para o terrorismo em toda a sua complexidade, não vamos criar condições para evitá-lo. Portanto, é um tabu pouco inteligente e de motivação política.

De que forma?
Aplicar a palavra terrorismo ao outro não é um detalhe. Há uma disputa pelo uso da palavra. Um americano pode chamar um cara que sequestra um avião de terrorista – e tem toda razão. Mas, será que um cara lá no Iraque, que teve a família morta por um drone americano, não pode chamar o piloto de terrorista?

Uma forma de narrativa?
É. E se a narrativa impedir as pessoas de considerarem o terrorismo como um fenômeno social e psicológico, de analisar esse fenômeno e de tentar inventar formas de impedir que ele surja, então essa narrativa está trabalhando contra a humanidade, não a favor.

‘NAS REDES,

AS PESSOAS SÓ
BUSCAM OPINIÕES
QUE JÁ TÊM’

Acredita que o clima polarizado dificulta as negociações?
Quanto mais polarizado, mais difícil negociar. Quanto mais radical você é, menos concessão fará a alguém diferente de você. A questão é: por que o mundo está cada vez mais polarizado?

E qual é, a seu ver, a razão desse fenômeno?
Tenho lido bastante a respeito. Uma das teorias vigentes é que as mídias sociais, ao contrário do jornalismo tradicional, insistem em que a pessoa só busque informações que confirmem as opiniões que elas já têm. É quase como se a internet permitisse que as pessoas nunca fossem refutadas. E não ser refutado é a mesma coisa que nunca aprender. Embora a internet crie um ambiente de informações disseminadas, o mesmo ambiente impede que as pessoas se informem.

Você comentou recentemente a morte da vereadora Marielle e disse não acreditar que as coisas vão mudar no Rio de Janeiro. O que espera da eleição presidencial?
Acho que se alguém da extrema direita for eleito, (Jair) Bolsonaro por exemplo, ou alguém da extrema esquerda, como (Guilherme) Boulos, independentemente do mérito ou demérito de cada um, o País corre o risco de entrar num processo muito ruim. De desentendimento político, de violência social, entre outras coisas. Eu espero que surja algum (Emmanuel) Macron brasileiro e que isso não vire uma eleição polarizada, marcada por…

…situações extremas.
Isso. Mas não temos nenhum Macron. E os políticos que poderiam fazer esse papel, como Ciro Gomes, têm um histórico com os grandes partidos envolvidos na corrupção. Precisamos de alguém capaz de inovar a estrutura política. Que não tenha se criado numa estrutura viciada e não seja de nenhum extremo. Esse alguém eu não sei quem é.

Você está morando nos EUA. Como vê a discussão da restrição de compra de armas e do movimento que os secundaristas estão fazendo?
Essa é uma loucura americana: a ideia que os “founding fathers”, numa época em que não existia a R-15, nem granada, colocaram na constituição a Segunda Emenda, permitindo que as pessoas comprem armas. Parte dos americanos tem fixação nos founding fathers. Acham que eles eram seres infalíveis que sabiam o que seria positivo para sociedade. Isso é uma loucura coletiva. Além disso, tem o interesse comercial da National Rifle Association e os republicanos presos a uma posição cínica, porque querem votos. O cara sabe que a arma é ruim, mas quer se eleger. Vemos os estudantes do país inteiro protestando e os caras não conseguem passar uma lei. O cara faz 18 anos, não pode comprar uma cerveja, mas pode comprar uma arma. É isso.