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‘Spike Lee está sendo muito corajoso’

Sonia Racy

28 Janeiro 2016 | 03h00

tais araujo

Taís Araújo tinha nove anos quando desfilou pela primeira vez em uma escola de samba – mas já faz dez que não desfila mais. O que não a impede de ser hoje à noite, ao lado de Glória Maria, mestre de cerimônias e rainha do baile da Vogue, no Hotel Unique. Em conversa exclusiva com a coluna, a atriz falou de racismo – ela foi vítima, em outubro, de ataques no Facebook – e elogiou Spike Lee pela coragem de propor, nos EUA, um boicote ao Oscar. A seguir, os melhores momentos da conversa.

Qual é, hoje, a sua relação com o carnaval?

A primeira vez em que desfilei na avenida tinha 9 anos, foi na Império Serrano. E também fui rainha de bateria da Leandro de Itaquera muitas vezes. Mas faz mais de dez anos que não desfilo.

Tem vontade de ser rainha de bateria de novo?

Não, gosto da diversão, adoro assistir ao carnaval da avenida. Tenho paixão por escola de samba.

Você será mestre de cerimônias e rainha do baile da Vogue ao lado de Glória Maria.

Sim, amo a Glória! Falando em moda, minha filha herda todas as roupinhas das filhas da Glória. Acho legal, uma moda reciclável, importante nos dias de hoje.

Após você ter se manifestado contra o racismo em seu Facebook no ano passado, a questão racial volta à mídia com a proposta de boicote ao Oscar feita por Spike Lee. Você apóia a esse movimento?
Hoje em dia a palavra representatividade está em voga. Acho que Spike Lee está sendo corajoso, porque está mexendo com o mercado. No entanto, é coerente que o diretor de um filme como Faça a Coisa Certa não fique calado. Essa é a causa dele, pela qual lutou uma vida inteira. Vão homenageá-lo sem colocar um representante da sua causa? Acho interessante esse radicalismo americano, ‘Não me representa, não consumo’. Além do que, é impossível que não tenha tido um ator negro com um bom desempenho no cinema.

E como isso mexe com você?

Essas questões fazem parte da minha vida. Por isso, procuro tratar o tema com respeito, tolerância, coragem e compaixão. Todo mundo tem direito de falar o que pensa, mas também tem o dever de respeitar o próximo. O tema é duro, mas necessário. Tem que ser discutido com delicadeza, até para que você seja ouvido, não adianta tratar de uma maneira agressiva. O racismo é um problema da sociedade. As pessoas tendem a se excluir, acham que os problemas raciais são só dos negros, mas não são.

Como a política poderia ajudar na questão racial?

Educação em primeiro lugar. A política de cotas é importante, sim, até como uma medida emergencial. Mas é a educação para todos que pode mudar o País.

Tem vontade de entrar para a política?

Não, de jeito nenhum. Sou muito passional, não tenho a menor condição. /SOFIA PATSCH